Erica - Análise - No limiar entre filme e videojogo

Uma aventura interactiva sombria mas familiar.

A narrativa de Erica é peculiar e misteriosa mas este filme interactivo peca por ser demasiado similar a títulos prévios.

Lançado de surpresa para a PS4 durante a Gamescom 2019, Erica é o primeiro jogo do estúdio britânico Flavourworks. Inspira-se em títulos como The Walking Dead e Until Dawn ou até mesmo no episódio Bandersnatch de série Black Mirror para nos entregar um filme interactivo repleto de mistério, tensão e uma boa dose de sobrenatural.

Aquilo que separa Erica dos demais jogos do mesmo estilo prende-se com o facto de usar filmagens de actores e locais verdadeiros ao invés de modelos computorizados. É como se fosse realmente um típico filme de Hollywood, no qual as escolhas de diálogo, ramificações da narrativa e outro tipo de interacções com o mundo ou objectos emula o que já poderás ter visto em títulos passados.

Aquilo que separa Erica dos demais jogos do mesmo estilo prende-se com o facto de usar filmagens de actores e locais verdadeiros.

O facto de não usar CGI e da Flavourworks ter optado por actores de carne e osso é realmente a única grande novidade que podemos apontar em Erica já que tudo o resto segue uma fórmula já mais ou menos estabelecida. Seja em termos do gameplay ou nos temas abordados na narrativa. Como já é habitual neste tipo de jogos, existe uma série de opções nos diálogos, reacções e escolhas que irão aparecer ao longo da tua jornada e as tuas escolhas vão condicionando o local para onde a história é conduzida.

Como podes ver (com particular ênfase caso tenhas jogado Detroit, Heavy Rain e esse tipo de dramas interactivos) não estamos propriamente perante algo inteiramente inovador e, na última década, podes facilmente apontar uma série de jogos que seguem uma estrutura idêntica.

Erica segue uma fórmula já estabelecida, seja no gameplay, narrativa ou temática do jogo.

Algo que distingue Erica de todos esses jogos prende-se com o facto do mesmo fazer parte da gama Playlink da Playstation. Isto significa que, apesar de ser possível jogar todo o jogo usando o Touchpad do Dualshock 4 (que, porventura, foi o dispositivo que utilizei), podes sempre descarregar a aplicação para o teu smartphone iOS ou Android e usá-lo como comando!

Como é a narrativa de Erica?

Debruçando-me agora na narrativa, fica sossegado, não revelarei os maiores momentos do jogo, mas preciso de fazer referência a alguns deles para melhor expressar a minha opinião.

Como já deves discernir pelo próprio título, este jogo segue a história de Erica, uma rapariga com um passado bastante trágico e que se vê obrigada a enfrentar os seus traumas de infância quando recebe uma encomenda à sua porta contendo uma mão decepada.

A sua jornada levá-a até Delphi House, um instituto que toma conta de raparigas com distúrbios psicológicos e onde o seu pai - cujo assassinato Erica presenciou quando era mais nova - trabalhou. É aqui que se desenrola toda uma gigantesca conspiração que mostra que Delphi House não é apenas um simples instituto e que algo mais se desenrola dentro das suas paredes, relacionado com os pais de Erica.

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O motivo central de toda a narrativa do jogo baseia-se em descobrir a verdade sobre os pais de Erica.

Assim sendo, o motivo central de toda a narrativa do jogo baseia-se em descobrir a verdade sobre os pais de Erica, algo que não é propriamente fácil para ela (e para o jogador). Todas as personagem revelam informações contraditórias, acusam-se mutuamente e ficamos sem saber em quem confiar ou para onde conduzir a narrativa. Apesar da história não ser inteiramente marcante e de, muitas vezes, roçar no cliché dos filmes de terror, estes conflitos ajudam a manter o teu interesse à medida que tentas juntar as peças do puzzle e perceber o que está a acontecer realmente em Delphi House.

Ainda assim, por mais talentosa que seja a actriz, gostava que a personagem Erica fosse mais tridimensional. Durante dois terços do jogo, Holly Earl interpreta uma rapariga fragilizada, aterrorizada, envergonhada e retraída, como se estivesse sempre prestes a romper em lágrimas a qualquer momento. O caso mudou um pouco de figura mais para o fim do meu jogo mas, tendo em conta que se trata da personagem principal, gostava que Erica tivesse uma personalidade mais carismática, forte e memorável.

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Para além de tudo isso, senti que em diversas partes do jogo as opções dadas não eram específicas o suficiente. Uma vez que o tempo de escolha é limitado, as opções têm que te dar uma ideia clara daquilo que Erica vai dizer ou fazer e, por vezes, tal não acontecia. Opções como "pai?" ou "mãe?", mesmo dentro do contexto do jogo, eram muito pouco claras e, em diversas vezes, não correspondiam ao que imaginava.

Erica - será mais videojogo ou filme?

Como já podes presumir, o jogo é também bastante curto, tendo a duração de um filme normal. Claro está, existe sempre a possibilidade de voltares a jogar o jogo e escolher respostas totalmente distintas de maneira a aumentar mais a sua longevidade e descobrir outros finais: desconfio, no entanto, que a história terá praticamente o mesmo rumo independentemente das escolhas que faças (o habitual neste jogos narrativos).

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O jogo é também bastante curto, tendo a duração de um filme normal.

A parte mais "jogável" deste jogo e que realmente o torna também um videojogo prende-se com o facto de poderes manipular uma série de objectos ao longo da narrativa: ligar um isqueiro, abrir uma torneira, folhear um caderno, usar uma tesoura de poda, entre muitos, muitos outros. Deslizando o dedo pelo Touchpad, podes fazer com que Erica espreite por uma porta e espie numa determinada personagem. Numa cena mais marcante de todo o jogo, tens inclusive de encher uma seringa e espetá-la no peito de uma rapariga que está a ter convulsões. De vez em quando, terás de executar este tipo de breves acções, usando o touchpad (ou smartphone) para manipulares os objectos que, apesar de simples, fazem com que este projecto seja mais do que um mero filme.

De qualquer das formas, é um pouco complicado caracterizar Erica - este projecto encontra-se no limiar entre videojogo e filme, funcionando como ambos. Houve momentos em que, admito, pousei o comando porque realmente não havia necessidade em estar com ele nas mãos. Mas dito isto, é importante referir também que gostei da história do jogo, mesmo sendo bastante familiar e com algumas reviravoltas mais ou menos previsíveis - a atmosfera mais sombria e sobrenatural ajudaram bastante a cativar a minha atenção e, de uma forma geral, achei o jogo bastante bem filmado e com uma fantástica cinematografia.

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Tendo em conta que se trata do primeiro jogo da Flavourworks, não consigo deixar de ficar bastante surpreendido.

Holly Earl faz um fantástico trabalho com o papel que lhe é dado como Erica e, na minha opinião consegue carregar lindamente o filme/jogo às costas. Gostava que a premissa tivesse sido levada ainda mais longe de maneira a diferenciar este jogo de tudo aquilo que já foi feito no passado mas tendo em conta que se trata do primeiro jogo da Flavourworks e que a equipa que o criou é bastante reduzida, não consigo deixar de ficar bastante surpreendido com o resultado final.

Prós: Contras:
  • Um mistério central interessante
  • A actriz Holly Earl faz um óptimo papel
  • Cinematografia e realização
  • Fórmula demasiado familiar
  • A narrativa possui demasiados clichés
  • Erica é uma personagem pouco memorável
  • Escolhas dadas nem sempre são específicas

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Sobre o Autor

Jorge Salgado

Jorge Salgado

Redactor

Fã de cultura pop, séries jogos animes. É o nosso noobie.

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