Wolfenstein: Youngblood - Análise - Dueto imperfeito

É diferente de Wolfenstein 2. Mas será que é melhor?

A expansão destaca-se pela introdução de modo cooperativo e elementos RPG, mas a custo de inconsistências e da importância narrativa.

Wolfenstein: Youngblood é a primeira tentativa da MachineGames de remexer na fórmula de sucesso comprovada com Wolfenstein 2: The New Colossus, uma experiência decididamente single-player e debruçada de cabeça na narrativa. Foram estes dois factores, aliados à capacidade surpreendente da MachineGames em imaginar uma realidade alternativa em que os Nazi tomaram conta do mundo, que tornaram Wolfenstein 2: The New Colossus numa das experiências singulares de 2017.

Como expansão standalone o estúdio quis experimentar novas ideias e foi buscar ajuda aos colegas da Arkane Studios, os responsáveis por Dishonored. As novas ideias colocadas em prática em Youngblood são o modo cooperativo para dois jogadores e elementos RPG como progressão de níveis, árvores de habilidades e evolução / personalização do armamento. Ainda há substanciais vestígios da experiência oferecida por Wolfenstein 2: The New Colossus, mas os novos elementos transformam Youngblood em algo diferente e não estou seguro se é melhor do que aquilo que tivemos antes.

As gémeas Blazkowicz

As personagens com que vais jogar em Youngblood são as filhas de William Joseph "B.J." Blazkowicz, o protagonista da série Wolfenstein já desde o velhinho Wolfenstein 3D. Jessie "Jes" e Zofia "Soph" Blazkowicz são irmãs gémeas e herdaram do seu pai um talento nato para aniquilar nazis e triunfar em missões quase impossíveis. Depois do seu pai desaparecer misteriosamente, as gémeas do terror viajam para Paris, o último paradeiro conhecido de "B.J." Blazkowicz, e rapidamente se vêem envolvidas numa missão para libertar a capital francesa do regime opressor dos alemães. Na gameplay isto traduz-se para diversas missões em que o prato principal é matar os diversos tipos de soldados nazi, desde simples tropas até a super guerreiros com armadura da cabeça aos pés. Vais encontrar inclusive lobos robóticos que cospem fogo e mechs tão grandes como pequenos edifícios.

"Como Youngblood tem elementos de RPG, se o nível do jogador for inferior ao dos inimigos, então vai sofrer mais dano e infringir menos"

A principal novidade de Youngblood é a introdução de um modo cooperativo para dois jogadores. Não és obrigado a jogar na companhia de outra pessoa e, se esta for a tua decisão, a segunda personagem será controlada pela IA (o seu desempenho não é mau e tenta sempre reviver-te o mais rápido possível se pedires ajuda). A personagem controlada pela IA terá sempre o mesmo nível do que a tua personagem, mas isto não acontece se jogares com outra pessoa. Por exemplo, podes estar a nível 30 e um jogador de nível 20 entrar na tua sessão. Como Youngblood tem elementos de RPG, se o nível do jogador for inferior ao dos inimigos, então vai sofrer mais dano e infringir menos.

Embora jogar em modo cooperativo possa oferecer um aumento de diversão, não está devidamente integrado em Youngblood. Uma das limitações do modo cooperativo é que o matchmaking não te deixa escolher em que missão vais entrar. Apenas existe uma opção de quickmatch que te junta a outro jogador numa missão qualquer. Podes sempre criar a tua própria sessão e esperar que alguém se junte a ti, mas na minha experiência, pode demorar bastante tempo até que outro jogador se junte a ti ou pode mesmo nem acontecer.

O modo cooperativo não é essencial

Depois de jogar várias horas sozinho e outras tantas acompanhado por outros jogadores, a sensação é que o modo cooperativo não é uma parte integral da experiência. Por outras palavras, o modo cooperativo é um apêndice e não uma parte pensada de origem para a expansão. Os momentos que requerem genuína cooperação entre jogadores resumem-se literalmente a abrir a portas. No entanto, se aquilo que procuras é Wolfenstein para dois jogadores, é precisamente isso que encontrarás em Youngblood.

"Pelo meio não há história, apenas um conjunto de missões não muito diferentes uma das outras"

Houve, contudo, um sacrifício evidente para encaixar o modo cooperativo: a dimensão e o impacto da narrativa são menores, principalmente se o compararmos a The New Colossus. A comparação pode não ser justa porque são jogos de preços diferentes e a escala de uma expansão será quase sempre menor do que um jogo completo, mas Youngblood só tem desenvolvimento narrativo em duas ocasiões: no princípio e no fim. Pelo meio não há história, apenas um conjunto de missões não muito diferentes uma das outras.

Libertar Paris

A cidade de Paris está dividida em várias áreas, todas elas ligadas convenientemente por linhas de metro. É assim que as gémeas Blazkowicz vão viajar para as áreas onde decorrem as missões. Youngblood não é um jogo em mundo aberto, mas as zonas de Paris são grandes o suficiente para sentires alguma liberdade na exploração. Os níveis permitem exploração vertical, uma clara influência da série Dishonored da Arkane Studios, sendo possível usar o super salto do Power Suit para alcançar as janelas e varandas abertas dos apartamentos.

Para efectivamente libertar Paris dos nazi, terás que realizar missões de assalto às torres conhecidas como Brother 01, Brother 02 e Brother 03. Estas são as missões mais desafiantes e duradouras de Youngblood. Antes de embarcares nestas missões, terás que inevitavelmente completar missões de menor importância para subires de nível e desbloqueares novas habilidades que te aumentam a vida e o escudo. Tens também habilidades que te dão invisibilidade, a possibilidade de segurar duas armas ao mesmo tempo e que te permitem abalroar inimigos. Algumas destas habilidades estão bloqueadas por nível e o mesmo acontece com as melhorias disponíveis para as armas. Só quando atingires um certo nível é que podes gastar pontos e desbloquear aquelas habilidades / melhorias.

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As ruas de Paris denotam bem o regime opressor dos nazi. As bandeiras do regime estão por todo o lado e encontramos frequentemente patrulhas. Visualmente e graficamente está ao mesmo nível do que Wolfenstein 2.

Em termos práticos e de jogabilidade, os elementos RPG injectados em Youngblood retiram parcialmente o purismo FPS que existia previamente, aproximando a experiência de FPS híbridos como Destiny e Borderlands. É certo que não existe loot nem tipos de raridade associadas às armas, mas em Youngblood não basta seres bom a jogar um FPS para derrotares um inimigo: se não tiveres o nível apropriado, podes acertar-lhe com centenas de balas e ele continuará de pé. Apesar disto, o gunplay continua sólido e singular, fiel ao que encontrámos em Wolfenstein e Wolfenstein 2. Pegar na Laserkraftwerk e acertar com um tiro na cabeça é uma das melhores sensações do jogo.

As inconsistências

Wolfenstein: Youngblood tem um problema consistente ao longo de todas as missões que aumentam gradualmente a tua frustração. Esse problema são os inimigos que aparecem do ar. Imagina que limpaste uma sala de inimigos, viraste costas e agora estás concentrado nos inimigos que estão à tua frente. De repente, começas a levar tiros e não percebes de onde. Olhas para trás e lá estão inimigos que se materializaram milagrosamente do ar. Nada divertido e justo, certo? Pois bem, isto acontece sistematicamente ao longo do jogo, incluindo na área onde enfrentas o boss final, que por si só já é frustrante (e quando digo frustrante é no sentido de que a dado momento tornou-se mais apelativo bater com a cabeça na parede do que continuar a tentar).

"Olhas para trás e lá estão inimigos que se materializaram milagrosamente do ar. Nada divertido e justo, certo?"

A introdução dos elementos RPG também trouxe uma dissonância narrativa: mesmo que já tenhas concluído o assalto às torres Brother e erradicado todos os soldados nazi que encontraste numa área de Paris, da próxima vez que voltares àquela zona os soldados estarão lá à tua espera, como se nada tivesse acontecido antes. Ou seja, apesar de estares a libertar Paris, não tens nenhuma representação disso no jogo. Não há ninguém a celebrar e não vês os parisienses a voltar a habitar as zonas. É como se as tuas acções não tivessem efeito nenhum. Esta sensação é intensificada pela ausência de desenvolvimento narrativo nas horas que ligam o início ao final (a expansão dura entre 8 a 12 horas, mediante o teu interesse nas missões secundárias e diversos coleccionáveis).

Wolfenstein Youngblood é uma experiência da MachineGames e Arkane Studios que não correu perfeitamente. O desejo de incluir novidades superou a ponderação de como esses novos elementos afectam uma experiência que não foi originalmente concebida para os acolher. Ultimamente, esta expansão acaba por querer ser várias coisas mas não se consegue destacar em nenhuma delas.

Prós: Contras:
  • Jogar na companhia de um amigo é sempre divertido
  • A gunplay continua singular e satisfatória
  • As gémeas Blazkowicz emanam carisma
  • Jogar Wolfenstein 2 não é obrigatório para desfrutar da expansão
  • Missões repetitivas
  • Devia haver mais opções de matchmaking no modo cooperativo
  • Inimigos que aparecem do ar
  • O boss final é frustrante
  • Os elementos RPG não beneficiam a experiência

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Sobre o Autor

Jorge Loureiro

Jorge Loureiro

Editor

É o editor do Eurogamer Portugal e supervisiona todos os conteúdos publicados diariamente, mas faz um pouco de tudo, desde notícias, análises a vídeos para o nosso canal do Youtube. Gosta de experimentar todo o tipo de jogos, mas prefere acção, mundos abertos e jogos online com longa longevidade.

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