Detective Pikachu é elevado por efeitos especiais verdadeiramente deslumbrantes, apesar da narrativa pouco inovadora.

Esta análise contém spoilers do filme Detective Pikachu. Procede com cuidado.

Pokémon foi das séries mais importantes da minha infância, uma que me marcou de tal modo que ainda hoje ainda faço referências à mesma no meu quotidiano. Segui a Liga Indigo religiosamente - tenha ainda uma série de cassetes VHS de alguns dos episódio, e ainda do filme original "Mewtwo Contra-Ataca" - pelo que a história de Ash e Pikachu tem um lugar especial no meu coração.

Assim sendo, tenho de admitir que Detective Pikachu não foi o filme live action Pokémon com que sempre sonhei. Apesar de todas as fragilidades do enredo clássico, sempre tive curiosidade em ver um filme onde um adolescente saía de casa em busca de se tornar num mestre de Pokémon e de combater na Liga, visitando diversos ginásios e aprendendo mais sobre o mundo dos Pokémon ao longo da sua jornada. Quem sabe, ver a Jessie e o James a declamar o seu icónico hino de guerra "Preparar para Azar"!

Detective Pikachu não segue, de todo, esta tradicional narrativa e alicerça-se muito de perto naquilo que foi apresentado no jogo para a 3DS com o mesmo nome. A história gira em torno de Tim Goodman, um jovem rapaz que se vê obrigado a viajar para a moderna e harmoniosa cidade de Ryme após a morte do seu pai num acidente de carro. Ao vasculhar e arrumar o apartamento onde o seu pai residia, Tim descobre o seu Pokémon parceiro: um Pikachu amnésico viciado em cafeína e com um toque para a comédia.

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Detective Pikachu alicerça-se muito de perto naquilo que foi apresentado no jogo para a 3DS.

A parte mais estranha, todavia, prende-se com o facto de Tim e Pikachu comunicarem e conseguirem perceber-se mutuamente, algo inédito naquele mundo e que apanha ambas as personagens de surpresa. Tim descobre ainda outro elemento importante no apartamento do pai que irá desempenhar um papel fundamental ao longo de todo o filme: um frasco com um gás roxo - chamado Vírus R - que, se for cheirado por outro Pokémon, deixá-lo-á completamente louco e altamente raivoso.

De uma forma geral, a narrativa central do filme prende-se com a busca por respostas de Tim tanto a nível do paradeiro do pai como da origem e motivo da criação do vírus. Assim sendo, Tim e Pikachu decidem aliar forças e, juntamente com a repórter Lucy e o seu problemático Psyduck, embarcam numa aventura com o intuito de descobrirem mais informações sobre as conspirações que estão a ser levadas a cabo em Ryme City.

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As mentes por trás do filme conseguiram criar Pokémon parecidos com aquilo que vimos nos jogos e animes e, simultaneamente, colocá-los de forma realista num mundo com seres humanos.

  Rapidamente te apercebes que o grande trunfo em Detective Pikachu foram não só os Pokémon escolhidos para aparecerem no ecrã mas também o design e animação dos mesmos e a forma como foram integrados. As mentes por trás do filme conseguiram realmente criar Pokémon parecidos com aquilo que vimos e nos lembramos dos jogos e animes e, simultaneamente, colocá-los de forma realista num mundo com seres humanos. Sempre que um novo Pokémon aparecia no ecrã, era complicado conter a minha excitação: "Olha só para aquele Cubone!"; "Tantos Pidgeottos!"; "Nem acredito que colocaram a Patrulha dos Squirtles!; "Ainda bem que não se esqueceram do Ditto"!

O facto de terem escolhido principalmente criaturas da primeira geração torna automaticamente o filme mais acessível para um maior número de pessoas e foi uma jogada inteligente por parte do estúdio: estes são alguns dos Pokémon mais emblemáticos de toda a saga, criaturas que tanto os fãs mais novos como os mais velhos irão certamente conhecer. E a parte mais engraçada é que, apesar de ter sido usada uma quantidade considerável de Pokémon em Detective Pikachu, é apenas uma fracção de todas as criaturas existentes!

Assim sendo, para quem é fã de Pokémon e acompanha a série, será certamente mais fácil compreender todo o tipo de piadas e "gags" que estão contidas no filme: já sabemos que Psyduck tem uma dor de cabeça horrível e que, quando aumentada, o Pokémon consegue infligir ataques poderosos; já sabemos que Mewtwo consegue falar e que foi criado por seres humanos a partir do ADN do Mew; e temos conhecimento de que, apesar da Magikarp ser um Pokémon bastante fraco, a sua evolução é de um Gyarados extremamente perigoso.

Este filme foi obviamente construído tendo em mente os fãs que já estão familiarizados com a saga.

Este filme foi obviamente construído tendo em mente os fãs que já estão familiarizados com a saga - para uma pessoa que está de fora e não se encontra a par dos jogos/anime, imagino que será bastante difícil memorizar a aparência, nomes e poderes dos diferentes Pokémon presentes neste mundo. É uma quantidade relativamente grande de informação que não precisamos propriamente de processar se já conhecemos a série mas que outras pessoas terão de assimilar caso queiram absorver e perceber o filme na sua plenitude.

De qualquer das formas, como já suspeitava e acabei por confirmar, não contes com uma narrativa muito profunda em Detective Pikachu - este é o tipo de filme que assistes com o cérebro desligado e pipocas na mão, sem pensar realmente naquilo que está a acontecer no ecrã e deixando-te envolver pela deslumbrante arte e efeitos especiais. O filme tenta estabelecer alguns pontos emocionais relacionados com o parentesco de Tim e da sua relação cada vez mais vincada com Pikachu, mas nunca atinge o espectador como seria de esperar - as personagens seguem um percurso mais ou menos óbvio, com os tradicionais altos e baixos nas suas relações que já vimos em dezenas de outros filmes.

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Algumas das maiores reviravoltas ou revelações do filme - existe uma série delas! - são previsíveis, forçadas demais e não possuem o peso que lhes são inerentes. A revelação final do vilão, a natureza de Mewtwo, o intuito do gás roxo e a história de Pikachu e do pai de Tim possuem imenso potencial mas considero que não foram idealizadas nem aproveitadas da melhor forma. Mesmo Tim e a repórter Lucy não são, na minha óptica, personagens propriamente interessantes: até mesmo Psyduck, que apenas diz a palavra "Psyduck", consegue ter mais personalidade que, diria eu, todas as personagens humanas presentes no filme. Mr. Mime não diz absolutamente nada durante todo o filme e, ainda assim, o Pokémon mimo rouba o protagonismo e entra numa das cenas mais divertidas em Detective Pikachu que desejei nunca ter sido colocada no trailer.

Pikachu é adorável de uma ponta à outra do filme e o modelo criado para a mascote da saga Pokémon foi muito bem conseguido e implementado - no entanto, a escolha de Ryan Reynolds como voz deixou-me ligeiramente apreensivo e, por mais que tentasse, era quase impossível não ouvir o Deadpool a falar através do rato amarelo. Não que seja um aspecto inteiramente mau: para todos os efeitos, a vertente da comédia continua bem presente. Existe, aliás, uma cena particularmente hilariante onde Pikachu está a percorrer uma estrada, sozinho, a cantar a icónica música da abertura da anime, que me apanhou totalmente desprevenido e me reduziu a lágrimas de tanto rir.

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Ryme City transpira vida e está realizada de forma bela e lógica.

Sinto que momentos como este foram poucos, tanto em quantidade como em duração. De certo modo, achei o filme demasiado contido, com medo de sair da caixa, abrir asas e apostar em algo um pouco mais arriscado e criativo. É possível detectar alguns vislumbres de engenho aqui e acolá, com especial ênfase para duas batalhas mais "tradicionais" para quem está habituado ao universo Pokémon (Blastoise vs Gengar; Pikachu vs Charizard) - teria gostado que o filme tivesse apostado e expandido este conceito, que resultou estranhamente bem no grande ecrã e me deixou desejoso por ver mais.

A criação e idealização do mundo do filme e a forma como os Pokémon foram introduzidos e interagem com os humanos é dos pontos mais positivos em toda a película, melhor do que alguma vez poderia ter imaginado. Ryme City transpira vida e está realizada de forma bela e lógica: juntamente com os seus humanos, os Pokémon servem às mesas ou em barracas de comida, empoleiram-se em postes de electricidade, conduzem o trânsito e comportam-se de uma forma natural que faz sentido no ambiente do filme.

Não penses demasiado sobre o filme caso o decidas ver - deixa-te simplesmente levar pela magia Pokémon.

Assim sendo, não penses demasiado sobre o filme caso o decidas ver - deixa-te simplesmente levar pela magia Pokémon e pelas criaturas tão bem construídas que, certamente, passarás um belíssimo tempo na sala de cinema. Apesar da narrativa ter ficado um pouco aquém daquilo que estava à espera, tudo é respondido de forma mais ou menos clara, sendo que o filme termina sem deixar grandes pontas soltas. Contava também que, na parte final, fosse estabelecida uma qualquer história para uma possível sequela ou spin-off, mas tal não acontece. Ao contrário de muitos blockbusters, não existe sequer uma cena pós-créditos! Detective Pikachu termina efectivamente a história que se propôs a contar e, apesar de ter fechado este ciclo, existe ainda muito potencial para projectos futuros.

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Portanto, Detective Pikachu pode estar mais direccionado para o público infantil mas isso não significa propriamente que o público adulto não vá gostar do filme. É impossível não ficar absolutamente enternecido com os brilhantes e esbugalhados olhos da criatura eléctrica e, pelas reacções das outras pessoas na sala de cinema, não fui certamente o único! O filme alicerça-se um pouco na nossa nostalgia? Claro que sim. A história é mais leve e jovial? Certamente! No entanto, o filme fez algo absolutamente genial e que jamais pensei ser concretizável: uma versão live-action esteticamente apelativa de Pokémon. Esse feito, ninguém lhe tira.

Prós: Contras:
  • Ryme City e os ambientes do filme bem idealizados
  • Os modelos dos Pokémon são absolutamente geniais
  • Mr. Mime / Psyduck roubam o protagonismo
  • Tradicionais combates de Pokémon
  • A narrativa do filme não é propriamente inovadora
  • O filme pode ser complexo para quem não conhece a saga
  • Tim, Lucy e as personagens humanas são pouco carismáticas
  • Reviravoltas e revelações forçadas e/ou previsíveis

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Sobre o Autor

Jorge Salgado

Jorge Salgado

Redactor

Fã de cultura pop, séries jogos animes. É o nosso noobie.