À primeira vista, The Division 2 não é um jogo muito diferente do primeiro, mas depois de 36 horas investidas, posso dizer com firmeza que é largamente superior ao primeiro. Aliás, a Ubisoft é a primeira a conseguir fazer aquilo que nesta geração vários tentaram mas falharam: lançar um jogo de tiros de caça ao loot sem problemas profundos. Claro que a própria Ubisoft errou anteriormente e esse primeiro falhanço serviu de lição para estabelecer princípios que regem The Division 2. O que estava bem a Ubisoft deixou ficar; o que estava mal foi removido ou modificado. Depois de jogar tantos jogos deste género, um deles até recentemente (Anthem), não estava à espera de ficar surpreendido com The Division 2, mas apanhei uma agradável surpresa.

Bem-vindos a Washington DC

Com um novo jogo, a Ubisoft escolheu uma nova cidade para The Division 2. Para trás ficaram as ruas gélidas de Nova Iorque, substituídas por Washington DC, a capital dos Estados Unidos, durante o Verão. A escolha de uma nova cidade e a forma como Washington DC está representada em The Divison 2 faz uma enorme diferença. A recriação da cidade no jogo é mais compacta, mas tem todos os locais importantes da cidade: a Casa Branca, que se torna na tua base de operações, o Capitólio, o monumento de Washington, o Memorial de Lincoln, o Centro John F. Kennedy e o Museu Nacional do Ar e do Espaço. O mapa é lindíssimo, e apesar das ruas estarem empilhadas com lixo e destroços, por vários momentos ficamos pasmados a olhar para os cenários e os espectaculares horizontes.

Comparativamente à Nova Iorque do primeiro The Division, Washington DC tem um impacto maior. É uma cidade mais vibrante, com uma palete de cores e iluminação mais variadas, culminando com locais que ficam imediatamente na memória. Mas o esforço enorme da Ubisoft para tornar The Division 2 num jogo visualmente mais apelativo (e estamos a falar especificamente da questão estética, que não é o mesmo que gráficos avançados) não se regista somente no exterior. Ao longo das muitas missões de The Division 2 terás que entrar em edifícios e lá dentro a Ubisoft não se desleixou. Encontrarás interiores tão detalhados quanto o exterior. A atenção ao detalhe foi minuciosa e, apesar de provavelmente não prestares atenção a tudo porque estarás debaixo de fogo, quando olhares mais atentamente vais ficar impressionado com a dedicação incutida nos interiores.

É mais do que um jogo bonito. Tecnicamente, é um jogo avançado com efeitos luxuosos como iluminação e sombras dinâmicas, diversos efeitos meteorológicos, passagem de dia / noite, e destruição de diversos materiais espalhados pelo cenário. É por isso um jogo bastante imersivo. Sendo este um jogo de tiros na terceira pessoa em que a mecânica central é o mesmo sistema de cobertura usado por praticamente todos os jogos deste género, é notável que o design dos níveis apresente tanta naturalidade. O que quero dizer é que não sentes de forma alguma que foram colocados objectos no cenário para que te possas esconder, embora eles existam, como é evidente.

Para além da cidade, o que há de novo em The Division 2?

The Division 2 não é uma revolução, mas antes uma evolução. Como tal, os traços característicos do primeiro continuam presentes na sequela. É um jogo de tiros num mundo aberto em que sobes de nível, recebes equipamentos e armas melhores, e participas em diversas actividades espalhadas pelo mapa, estando divididas em missões da história, missões secundárias e outras tarefas como controlar pontos chave, impedir a propaganda das facções inimigas e libertar reféns. O factor diferenciador em relação ao primeiro The Division é que todos os conteúdos estão mais robustos. A maior surpresa são as missões secundárias, que são abundantes e conseguem ser do mesmo tamanho ou maiores do que as missões principais do primeiro The Division. Em todas as actividades sentes que há qualidade.

Há actividades que se repetem nas diferentes áreas do mapa como os pontos de controlo e pequenas actividades. Este é um jogo de natureza repetitiva, mas enquanto estás a jogar não sentes o cansaço. O truque está na diversão e no gozo que advém da jogabilidade, mas também na naturalidade da progressão. Muito antes de chegares a nível 30 já vais estar a receber equipamentos e armas lendárias e high-end. Quando chegares ao endgame, tudo o que ganhaste anteriormente será inútil, como esperado, mas diferente do primeiro The Division, não é um jogo com um grinding penoso. O processo de grinding ainda existe, afinal este é um jogo de caça ao loot, mas existe um equilíbrio muito maior e a qualidade das missões em que participas ajuda atenuar a fadiga de estares sempre a fazer a mesma coisa.

"Existe um equilíbrio muito maior e a qualidade das missões em que participas ajuda atenuar a fadiga de estares sempre a fazer a mesma coisa"

As novidades de maior relevância de The Division 2 não te serão apresentadas nas primeiras horas. O melhor de The Division 2 está reservado para o endgame. O endgame é aquela parte do jogo que começa depois de terminares a história ou a campanha tradicional que tantos jogos oferecem. É de extrema importância perceber que a sequela foi desenhada especificamente para os jogadores que querem passar centenas de horas neste mundo a melhorar ao máximo a sua personagem e é nesta faceta que The Division 2 brilha. Se estás à procura de uma história marcante, não é isso o que vais encontrar aqui, nem foi essa a prioridade da Ubisoft.

Quando chegares ao final da história, provavelmente não te vais lembrar do nome de nenhuma personagem nem da maioria dos detalhes. A narrativa de The Division 2 é te dada de uma forma passiva, sobretudo através de diálogos enquanto estás a jogar. Existem cinemáticas, mas poucas. Em suma, o teu objectivo como agente da The Division é restaurar a rede SHD, de forma a restaurar a comunicação entre todos os agentes, e eliminar as facções anarquistas que tomaram controlo da capital. É uma história simples que existe apenas para justificar o resto do jogo. Existem jogos desenhados para ser o pilar de uma história; mas aqui é o inverso: a história é um pilar para apoiar a jogabilidade e o mundo no qual o teu agente está inserido.

Um Endgame bem pensado

O endgame é quando The Division 2 realmente começa. Depois de completares todas as missões da história, desbloqueias o acesso às Fortalezas. São locais icónicos de Washington DC nos quais as facções inimigas se instalaram. As fortalezas são missões mais longas e mais desafiantes, mas que ainda seguem os mesmos princípios das missões da história: avançar de sala em sala eliminado todos os inimigos que vão aparecendo. Não existem mecânicas de puzzles nem nada parecido, portanto, não penses nisto como uma Raid ou como as Incursions do primeiro The Division (as Raids serão adicionadas como parte das actualizações gratuitas prometidas pela Ubisoft e terão suporte para oito jogadores em simultâneo).

Assim que concluíres as Fortalezas assinaladas no mapa, algo inesperado acontece: uma nova facção mais poderosa, os Black Tusks (Patas Negras) invade a cidade. Quando isto acontece, o mapa faz um reset e tens de conquistar tudo de novo. À medida que vais limpando o mapa de novo, o teu mundo sobe de camada e fica mais difícil. Simultaneamente, as armas e equipamentos que vais receber são melhores. O nível associado aos equipamentos deixa de importar e o que conta é o Gear Score associado. Porém, um Gear Score mais elevado não garante que um equipamento ou arma é melhor, já que existem talentos associados a cada peça que podem a ajudar a tornar a tua build melhor.

"As fortalezas são missões mais longas e mais desafiantes, mas que ainda seguem os mesmos princípios das missões da história"

Enquanto no primeiro The Division o endgame se resumia a repetir as quatro mesmas missões (as únicas disponíveis no lançamento na dificuldade Challenge), o endgame da sequela engloba todas as actividades. Tudo o que faças vai dar-te equipamentos para progredires. É um jogo generoso em que estás constantemente a receber loot. Mesmo que o loot não seja melhor do que o equipamento que tens equipado naquele momento, está inserido numa economia em que desfazes armas e armaduras para fazeres crafting de alguma coisa melhor. O endgame é incrivelmente profundo e complexo, oferecendo grande valor para aqueles que adoram este género.

Só quando chegares ao endgame é que desbloquearás o acesso à tua especialização. Existem três especializações - Demolidor, Sobrevivente e Atirador de Elite - e cada uma dá-te acesso a uma poderosa arma com munição especial (esta munição é rara, portanto, não vais poder usar a arma constantemente). As várias actividades do endgame vão dar-te pontos para progredires na árvore de habilidades das especializações. Esta é uma árvore de habilidades separada das vantagens passivas e das habilidades que desbloqueias durante a tua progressão de nível 1 até nível 30. O mesmo é válido para os contractos (missões em que tens eliminar alvos perigosos), que só ficam acessíveis na Casa Branca depois de atingires o nível máximo.

Um jogo cooperativo, mas que pode ser jogado a solo

The Division 2 é um jogo social em que todas as actividades suportam quatro jogadores em simultâneo. Se não tens conhecidos para se juntarem a ti, o matchmaking facilita e coloca outros jogadores solitários na tua equipa. No entanto, como o nível de dificuldade escala com a quantidade de jogadores na tua equipa, é perfeitamente possível realizar todas as actividades sozinho. Há, contudo, desvantagens. Se jogares sozinho, tens que ter mais cuidado já que não há ninguém para te salvar. Também não poderás combinar as diferentes habilidades das personagens e o teu progresso em cada missão será mais lento, mas apesar disto, é perfeitamente possível jogar sozinho.

O que aconteceu à Dark Zone e multijogador?

Tanto a Dark Zone como multijogador estão presentes na sequela, mas no meio de tantos conteúdos, é fácil esquecermos a sua existência. No mapa de The Division 2 existem agora três Dark Zones. O propósito de existirem Dark Zones diferentes é contentar todos os jogadores. Duas das Dark Zones têm normalização de equipamentos, o que significa que não estarás em desvantagem independentemente do teu nível. A outra Dark Zone, assim que chegas a nível 30, é pensada nos jogadores que querem ser agentes "Rogue", desactivando a normalização. Todas as Dark Zones retêm a mistura entre PVP e PVE, mas foram desenhadas com objectivos diferentes para tornarem a experiência mais justa e agradável para todos os envolvidos.

O multijogador é acessível através da Casa Branca e é o único modo que está completamente separado do mapa de Washington DC. No multijogador equipas de quatro vão competir em modos como captura de objectivos e team deathmatch. Para ter sucesso, é necessário ter equipamentos apropriados pelo que este não é um modo particularmente convidativo para jogadores menos experiências. De qualquer forma, é mais uma actividade em que podes ganhar loot, e se estiveres farto das outras actividades, é um modo que, devido à natureza competitiva, é uma experiência radicalmente diferente daquilo que encontras no resto do jogo.

The Division 2 é excelente naquilo a que se propõe a fazer

Como nota final, não conseguimos deixar de apreciar a excelente optimização da versão para PC. O desempenho é sólido e os controlos com rato e teclado são maravilhosos. É uma das razões pelas quais The Division 2 consegue ser tão cativante. Atravessar cenários de cobertura em cobertura decorre de forma suave e cada arma transmite uma sensação diferente ao disparar. A dobragem para Português do Brasil também merece os parabéns pela crueza que transmite e pelo trabalho sólido que os actores de voz fizeram.

"É um jogo riquíssimo em conteúdos de qualidade com capacidade para te agarrar durante centenas de horas"

A perfeição não existe. Há coisas em que The Division 2 que podiam estar melhores. A história deixou-nos indiferentes e sentimos que podia haver um pouco mais de variedade nas actividades (que basicamente se resumem a mata-mata e correr em frente) e de adversários, mas olhando para as mais de 30 horas que passamos, são meramente pequenos incómodos que pouco impacto tiveram desfrutação que obtivemos.

É um jogo riquíssimo em conteúdos de qualidade com capacidade para te agarrar durante centenas de horas. A diversão é garantida seja a jogar em solo ou em grupo. Aliando isto ao poderoso endgame, The Division 2 apresenta-se como uma sólida proposta que, apesar de seguir a mesma fórmula do primeiro, é superior em tudo.

Prós: Contras:
  • A nova cidade é espectacular
  • Imensos conteúdos com qualidade
  • Versão PC bem afinada e a 60 fps
  • Endgame duradouro e recompensador
  • Jogabilidade sólida que encoraja movimentos estratégicos
  • Divertido para quem gosta de jogos de tiros
  • Existem diferentes actividades, mas pouco variadas
  • História esquecível




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Sobre o Autor

Jorge Loureiro

Jorge Loureiro

Editor

É o editor do Eurogamer Portugal e supervisiona todos os conteúdos publicados diariamente, mas faz um pouco de tudo, desde notícias, análises a vídeos para o nosso canal do Youtube. Gosta de experimentar todo o tipo de jogos, mas prefere acção, mundos abertos e jogos online com longa longevidade.

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