A história está a repetir-se novamente. Para mim, esta geração foi marcada por várias tentativas de diferentes estúdios de lançarem jogos online com mundos persistentes. Nenhum desses estúdios acertou à primeira e foram precisos meses ou até anos para que a experiência e o jogo ficassem devidamente afinados. Receio que Anthem é mais um desses casos, uma tentativa de criar algo grandioso, mas depois de 19 horas investidas neste mundo que a Bioware criou, é evidente que o estúdio tem muito trabalho pela frente.

Para que conste, ainda não terminei a história, mas sinto que estou perto. Até agora, a narrativa que o jogo apresentou é agradável, com intriga e personagens que vamos gostando cada vez mais, mas também é confusa. O lore que a Bioware criou para Anthem é vasto e existem muitas informações que não são apresentadas directamente ao jogador. Para conheceres a fundo este mundo, terás que coleccionar vários pedaços de informação que vais encontrando e depois que visitar o Codex no menu para assimilar todos os detalhes. É algo comum nos jogos da Bioware. Recordo-me perfeitamente que tanto em Dragon Age como em Mass Effect podes aprender imenso se estiveres disposto a investir algum tempo na leitura do Codex. A forma de distribuição da informação pode não agradar a todos, mas mostra que a Bioware investiu na criação deste universo.

Há outras coisas agradáveis em Anthem. A jogabilidade está bem trabalhada e, para um estúdio que não tinha experiência em criar jogos de tiros (o Mass Effect tinha essa faceta, mas não era um jogo de tiros puro e duro), manejar e disparar as armas dá uma sensação de satisfação e de segurança. O jogador sente-se em pleno controlo do que está a acontecer, o que é excelente. A movimentação dos Javelins no ar está muito melhor em comparação com a demo e a sensação de voar quase livremente (existe um limite vertical!) pelo mundo é imbatível. Até o design sonoro ajuda a transmitir a sensação de que estamos a controlar um exoesqueleto, com sons mecânicos e hidráulicos a serem emitidos a cada passo dado.

O mundo do jogo está, por um lado, incrível. A verticalidade que a Bioware conseguiu incutir neste mundo só é comparável à de Xenoblade Chronicles X. É com esta verticalidade e a possibilidade de voar que Anthem tem um trunfo para competir com os seus rivais. As habilidades dos diferentes Javelins - existem quatro para escolher e eventualmente terás acesso a todos - são poderosas e existe um mecânica integrada na jogabilidade que permite realizar combos, se bem que o jogo falha em explicar como é que este sistema funciona ao certo. Independentemente disso, a Bioware conseguiu criar um jogo com uma jogabilidade própria e com potencial, uma base importante que o jogo possa ter um futuro.

"As quebras de fluidez acontecem mesmo em configurações com hardware topo de gama e reduzindo a qualidade gráfica do jogo para níveis menores"

Apesar destes aspectos positivos, Anthem tem outros tantos negativos. Na versão PC, que é que estamos a testar, existe uma melhoria comparativamente à demo, mas as oscilações de desempenho ainda acontecem frequentemente e afectam a experiência. As quebras de fluidez acontecem mesmo em configurações com hardware topo de gama e reduzindo a qualidade gráfica do jogo para níveis menores, pelo que não se trata, portanto, de uma questão de hardware. Além disso, a quantidade de loadings torna-se irritante, ainda mais quando esses loadings podem demorar minutos quando não tens o jogo instalado num disco SSD. Os loadings também interrompem a imersão do mundo, sendo que a jogabilidade é interrompida sempre que passas do mundo aberto para uma zona interior. Até precisas de um loading para personalizares o teu Javelin no Fort Tarsis.

Fora os loadings e problemas de optimização que prejudicam o desempenho, Anthem tem outros problemas que só poderão ser corrigidos a longo prazo. As missões são altamente repetitivas. Existe alguma diversão graças à jogabilidade, mas os objectivos praticamente não variam. O jogo resume-se a ir de um ponto para o outro, defender uma zona e/ou eliminar todos os inimigos existentes. Há missões com puzzles simples, mas são poucas. Os inimigos também sofrem da mesma falha. Existe pouca variedade e já perdi conta ao número de vezes que enfrentei o mesmo boss, um Titan. Em termos de conteúdo, é um jogo pouco elaborado, arcaico até. Claro que num "looter shooter" é natural que haja um ciclo de repetição, no entanto, Anthem padece desta condição demasiado cedo. Infelizmente, sinto que estou sempre a fazer a mesma coisa.

Basta olhar para o Modo Livre para perceber que Anthem tem falta de conteúdos e variedade. Não há muito para fazer além de completar eventos, apanhar materiais e abrir cofres. Pior ainda, os eventos nem sequer estão assinalados no mapa, não há viagens rápidas para outros locais do mapa, e os sítios onde podes começar o Modo Livre não são suficientes para o tamanho que o mapa tem. Depois, há outras coisas ridículas como o matchmaking das missões. Na maioria das vezes, o jogo vai colocar-te numa missão já a decorrer, mas esta não é a pior parte. Em vez de te colocar à beira dos teus companheiros, o jogo manda-te para o checkpoint inicial, dando-te 20 segundos para alcançares os teus colegas, o que na maioria dos casos não é tempo suficiente. Basicamente, isto significa que antes de começares a jogar vais levar com dois ecrãs de loading. Horrível!

"Deixa-me a pensar que o jogo precisava de mais tempo de desenvolvimento e que se trata de um lançamento prematuro"

Há imensas coisas em Anthem que não foram pensadas devidamente. Isto deixa-me a pensar que o jogo precisava de mais tempo de desenvolvimento e que se trata de um lançamento prematuro. Destiny e The Division passaram por situações semelhantes. Ambos tiveram diversos problemas e foi preciso bastante tempo para concertar as fissuras que apresentavam. O problema de Anthem é que surge na pior altura possível. É um jogo que, apesar de ser lançado mais tarde, comete todas as falhas, e ainda mais algumas, que os jogos que acabei de referir. Sei perfeitamente que os problemas de Anthem não serão corrigidos este mês, nem no próximo. Um jogo destes é como um navio cruzeiro. Corrigir o seu rumo é uma manobra lenta que não acontece de um momento para o outro. O estúdio já disse que tem um plano de conteúdos planeado para o pós-lançamento, mas será suficientemente apelativo para manter a base de jogadores? Tenho dúvidas.

Do que experimentei até agora, Anthem tem potencial, mas parece-me que vai precisar de algum tempo para o atingir em pleno. É a mesma história que já presenciei com Destiny em 2014 e The Division em 2015. É um jogo com alguma piada para quem gosta do género, mas com falhas estruturais evidentes. Entretanto, vou continuar a jogar colhendo mais impressões. A nossa análise final será publicada assim que tiver terminado a história e explorado devidamente os conteúdos do end-game.

Confere todos os nossos guias sobre Anthem:

Anthem - Como obter tempos de loading mais rápidos

Anthem - Como subir de nível rapidamente

Anthem - Classes, Javelins, Armas, Ataques e Habilidades

Anthem - Como Desbloquear Javelins e Trocar de Javelins

Anthem - Onde encontrar Embers e para que servem Embers

Anthem - Tudo sobre o sistema Alliances

Anthem - Guia do Puzzle Triple Threat

Anthem - Como obter a armadura Legion of Dawn e redimir itens da pré-reserva

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Sobre o Autor

Jorge Loureiro

Jorge Loureiro

Editor

É o editor do Eurogamer Portugal e supervisiona todos os conteúdos publicados diariamente, mas faz um pouco de tudo, desde notícias, análises a vídeos para o nosso canal do Youtube. Gosta de experimentar todo o tipo de jogos, mas prefere acção, mundos abertos e jogos online com longa longevidade.

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