Numa das mais de 200 cutscenes de Kingdom Hearts 3, Axel diz que existem demasiados nomes para decorar, um exagero de conceitos a dominar e que tentar perceber tudo é uma dor de cabeça garantida.

É frequente ver frases de personagens da Disney onde dizem que não estão a entender nada, mas é fácil perceber que Tetsuya Nomura, director, e Tai Yasue, codirector, estão a brincar consigo mesmos, com o quão inacreditável e quase inexplicável a série Kingdom Hearts se tornou.

A sobrecarga de eventos, personagens, jogos e até de conceitos para memorizar poderá tornar-se num perigo para Kingdom Hearts 3, mas talvez seja por isso mesmo que este encerramento para a saga de Xehanorth acaba por surpreender - pela forma como Tetsuya Nomura dá uma resolução aos personagens e sacia a sua desmesurada ambição.

Não me acredito que seja possível terminar Kingdom Hearts 3 sem recorrer pelo menos uma vez à Wikipedia para descobrir concretamente quem era aquela personagem ou obter mais detalhes sobre um dos eventos repetidamente descritos no início do jogo. No entanto, pelo outro lado, as mensagens e lições da Square Enix para esta saga continuam incrivelmente simples - o poder da amizade e como a luz no teu coração te poderá impedir de sucumbir à tentação de ver o mundo de forma sombria.

Essa inspiradora, simples e directa mensagem foi expandida ao longo de 7 jogos e agora, no oitavo, a Square Enix tenta encerrar eventos épicos que decorreram ao longo de várias gerações e foram protagonizados por uma elevada quantidade de personagens. No entanto, enquanto uns tentam perceber o que são os Heartless, Nobodies ou Unversed, Nomura esforçou-se para manter um outro lado mais simples, mais acessível na narrativa.

Kingdom Hearts 3 é assim uma fascinante jornada pela luz que existe na criação de Nomura, mas sem esquecer que existem as trevas. Este é um jogo no qual as mensagens simples partilhadas ao longo dos mundos da Disney e Pixar são fáceis de assimilar, mas onde também existe uma série de eventos mais profundos, envoltos em complicadas ramificações e que vão testar o conhecimento dos fãs.

Este novo jogo mantém-se como uma experiência sem igual: JRPG de acção que te leva para os mundos mágicos da Disney - com uma qualidade gráfica absolutamente incrível e uma obsessão pelo detalhe que revela o carinho que esta equipa tem pelas propriedades da Disney e Pixar.

"Nem todos os mundos acertam em cheio, mas os que conseguem vão-te deixar repleto de divertidas memórias."

Kingdom Hearts 3 convida-te a explorar os mundos de Hercules, Entrelaçados, Frozen, Toy Story, Big Hero 6, Piratas das Caraíbas e Monster Inc. para ajudar Sora na sua jornada. O principal protagonista de Kingdom Hearts precisa recuperar o seu poder e ao ajudar os protagonistas destes filmes encontrará as respostas que precisa.

Apesar de Nomura te dar resolução para todos os personagens e fechar praticamente todas as pontas soltas (repito, isto é um feito incrível), o caminho para chegar à sensacional parte final do jogo é inconsistente. Existem mundos que funcionam melhor do que outros, existem enredos que resultam melhor e ocasionalmente o próprio criador da série quebra a sua lógica - existem inconsistências no enredo em alguns mundos.

Diria mesmo que Kingdom Hearts 3 é precisamente isto, um misto de luz e trevas, coisas boas e coisas más. Para desfrutar do que é bom, terás de tolerar o menos bom. Na sua obsessão por recriar cenas de filmes da Disney, a Square Enix tornou alguns mundos melhores do que outros, os que combinam de melhor forma a fusão da ideia de como seriam aqueles eventos se os personagens da Square Enix estivessem lá.

O mundo de Frozen, Arendelle, é um bom exemplo disso - onde a Square Enix recria praticamente toda a cena de 'Let it Go'. É uma forma de mostrar a sua ambição, mas onde o papel dos personagens originais é menor. Noutros mundos, como o de Monster Inc. ou Toy Story, temos uma dinâmica repleta de energia, onde existem eventos originais, onde a fusão de mundos é muito mais forte e apelativa.

O bom que existe na alma de Kingdom Hearts 3 é muito superior ao que tem de mal, mas ainda assim terás de ter em conta as duas partes. Como referido, o jogo é visualmente espantoso (existem imensos momentos de deixar cair o queixo), mas existem momentos menos bons. Em alguns mundos, especialmente em San Fransokyo, verás cenários demasiado simples e até entrarás em actividades aborrecidas.

San Fransokyo poderá mesmo tornar-se no pior dos mundos e onde as debilidades de Kingdom Hearts 3 são mais expostas - uma câmara que mais parece lutar contra ti, uma quantidade mínima de boas boss fights e a sensação que o argumento não está totalmente em sintonia. Poderás até sentir que percorrer os mundos da Disney é inconsequente para a parte final do jogo e isso não é o que esperarias de Kingdom Hearts.

Alguns mundos, alguns eventos, parecem existir "porque sim" (sem real impacto na narrativa geral) e frequentemente Kingdom Hearts 3 poderá dar a sensação de ter sido desenvolvido por várias equipas, responsáveis por um mundo específico, que nem comunicavam umas com as outras. Essa foi a pior sensação em alguns mundos, mas quando a Square Enix acerta na magia e no humor, não há nada igual à doçura de Kingdom Hearts 3.

Desbravar estes mundos significa desfrutar de um altamente acessível Action RPG (o nível de dificuldade é mesmo muito baixo) com um sistema de combate muito divertido. A gestão dos teus personagens é incrivelmente simples, mas Donald e Goofy são muito competentes, existem imensos segredos espalhados pelos mundos e o teu Gummiphone permitirá capturar momentos para a posterioridade. Existe até uma actividade opcional para preparar pratos culinários, armas para sintetizar com itens encontrados e as secções Gummi Ship - mais uma faceta da série que não foi descartada e surge com uma escala muito maior.

No meio disto tudo, enquanto desbravas mundos de princesas e magia num ritmo já raro de ver - Kingdom Hearts 3 é uma maratona de cutscenes e será frequente jogar 3 minutos para pousar o comando por 20 minutos, vais combater e desbloquear ataques especiais verdadeiramente loucos.

O sistema de combate permanece muito fiel ao que viste nos anteriores, mas a Square Enix introduziu diversas novidades incrivelmente importantes, enquanto reduziu o papel do Flow Motion introduzido em Dream Drop Distance. Isto significa que o sistema de combate deste Action RPG é muito simples, mas existem várias mecânicas a dominar que aumentam a diversão.

Sejam os summons via Link Skill, a transformação das Keyblades (existem algumas verdadeiramente brutais de ver) ou as habilidades cooperativas executadas com Donald ou Goofy, a Square Enix esforçou-se ao máximo para tornar Kingdom Hearts 3 num jogo com gráficos de arregalar os olhos, simples de jogar e com o qual facilmente te vais divertir.

A transformação das Keyblades é uma das novidades de maior relevo no sistema de combate e quando não estás a invocar um barco pirata, carrossel ou a enviar fogo de artifício com Donald, estarás a transformar a tua Keyblade em Yo-Yos que acabam a triturar os inimigos. Para o conseguir, terás de manter um combo até desbloquear a possibilidade de usar uma nova habilidade.

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Na grande maioria do tempo, a Square Enix entrega um resultado visualmente deslumbrante.

O sistema de combate é altamente simples, mas incrivelmente eficaz para sentir diversão. Aliás, apesar da grande acessibilidade da experiência, terás de desbloquear novas habilidades e usar o AP para equipar muitas delas - muito importantes para algumas boss fights. É a dinâmica deste sistema de combate que vai manter em alta a sensação de diversão.

Diria até que a constante quebra da acção para assistir a mais uma cutscene poderá correr o risco de se tornar irritante porque te estavas a divertir tanto com os combates. Pelo meio, existem imensas tarefas (mini-jogos se preferires) contextualizados com os mundos em si, como navegar de barco nas Caraíbas, o que ajuda a oferecer variedade e diversão.

"A constante quebra da acção para assistir a mais uma cutscene poderá correr o risco de se tornar irritante"

Acabei Kingdom Hearts 3 com 33 horas e ainda fiquei com imenso para fazer. Existem mais itens para encontrar, fotos para tirar, Keyblades para melhorar, ovos para bater e, acima de tudo, a vontade de regressar a alguns destes mundos. Kingdom Hearts 3 é um jogo repleto de boas memórias, que ajudam imenso a tirar força aos erros que comete. É por isso mesmo que acredito que a Square Enix conseguiu fazer o que muitos nem sequer acreditariam ser possível.

Existe aqui uma quantidade impressionante de momentos capazes de arrepiar os fãs, onde sentirás uma grande emoção perante a força destas cenas. Enquanto nos mundos da Disney e Pixar as homenagens recaem sobre os personagens, humor, locais, músicas ou nostalgia, no que diz respeito aos personagens Kingdom Hearts cujos destinos estavam em suspenso há tantos anos, acredita que a Square Enix não se poupou nas surpresas de tom épico.

Tetsuya Nomura conseguiu o que parecia impossível, fechar com chave de ouro a saga de Xehanorth. O final ao estilo Disney dá uma resolução a todos os personagens, no caso desta série isso é um feito por si só, abre as portas para mais jogos e acima de tudo deixa-te com um sorriso, orgulhoso por ser fã desta série. Um pouco tonta da cabeça, mas com um coração que brilha com tanta luz, é impossível resistir ao charme de Sora e amigos.

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Sobre o Autor

Bruno Galvão

Bruno Galvão

Redator

O Bruno tem um gosto requintado. Para ele os videojogos são mais que um entretenimento e gosta de discutir sobre formas e arte. Para além disso consome tudo que seja Japonês, principalmente JRPG. Nós só agradecemos.

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