Joguei Gris da forma que mais gosto de jogar um videojogo - sem ver e saber nada sobre o mesmo. Bem, minto. Vi apenas a imagem de uma rapariga dentro de uma mão gigante feita de pedra e, logo aí, achei que poderia estar perante algo diferente e mágico. Não estava nada errado.

Gris é um jogo de plataformas em 2D da Nomada Studio, com um estilo gráfico completamente diferente daquilo que poderás ter visto no passado. Por toda a duração do jogo, nunca saberás exactamente aquilo que está a acontecer e o mesmo não te dá quaisquer explicações sobre os seus eventos, deixando ao critério de cada um. É uma alegoria para a poluição e a crise ambiental que estamos a viver? Uma visão do interior dos seres humanos e dos demónios que nos assombram? Uma visão futurista do nosso planeta? É tudo uma questão de subjectividade, sendo bem provável chegares ao fim de Gris e não perceberes praticamente nada acerca de tudo aquilo que se desenrolou à tua frente.

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Para além disso, não existem inimigos para combateres e, de forma igualmente estranha, nunca morres: trata-se apenas da jornada única desta pequena rapariga (chamada Gris), dos diferentes mundos que vai percorrendo e das personagens que vai encontrando, numa aventura introspectiva sem "cortes", sem "hubs" e sem divisões por níveis que te prenderá a atenção de uma ponta à outra.

A característica mais evidente de Gris são os seus gráficos absolutamente deslumbrantes.

Claro está, a característica mais evidente de Gris são os seus gráficos absolutamente deslumbrantes, uma explosão de cores e de som que, de forma harmoniosa, captam os teus sentidos e colam os teus olhos (e ouvidos) ao ecrã. A animação das personagens é toda feita à mão, com belos fundos em aguarela que se interligam e misturam, criando um caleidoscópio hipnótico de cor.

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Assim sendo, Gris não é um jogo particularmente difícil - mas também não é algo que o mesmo ambiciona ser. Para além do facto de ser um jogo de plataformas que, aqui e acolá, poderá obrigar-te a uma precisão acrescida, existem também uns puzzles interessantes que terás também de completar para poderes prosseguir, usando as habilidades que a personagem vai aprendendo ao longo da aventura.

Que habilidades são estas? Bem, podes usar o seu vestido para a transformar num cubo pesado e, deste modo, quebrar plataformas ou usá lo como âncora para não seres arrastado pelo vento; tens ainda a possibilidade de usá-lo como asas para conseguires saltar mais alto e mais longe, algo essencial para determinadas secções de plataformas; ou ainda transformá-lo em barbatanas para te poderes deslocar pela água sob a forma de uma manta. De novo, nada particularmente difícil mas de tal maneira bem feito que te ajuda a desfrutar ainda mais dos fantásticos e variados cenários do jogo.

É, aliás, impossível não enfatizar a beleza artística do jogo. Quando leio ou me dizem que videojogos não são arte - um assunto que reconheço ser bastante polémico - Gris é o tipo de jogo que me faz acreditar ainda mais na experiência transcendente que um videojogo pode causar a um ser humano, quer em termos narrativos, quer na própria "arte" - sonora ou visual - do mesmo. À medida que fui jogando, era difícil não parar a personagem e ficar simplesmente a desfrutar dos diferentes cenários que fui percorrendo: uma vistosa floresta de árvores quadradas; uma secção subaquática onde estás a ser perseguido por uma enguia; os mais diversos palácios e edifícios que, apesar de estarem em ruínas, continuam a mostrar-se imponentes e ligeiramente arrepiantes.

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De qualquer das formas, o jogo não está inteiramente isento de falhas. A que, para mim, tornou-se mais fulcral e evidente durante toda a minha jornada, está relacionada com a inconsistência das plataformas e dos objectos para onde podes saltar. Poderás achar que é possível saltar para cima de determinado jarro ou pedra, até que o fazes e te apercebes que o jogo não o permite.

O facto de ser quase impossível distinguir os objectos que se encontram no plano de fundo ou primeiro plano daqueles para onde podes realmente saltar pode levar a alguns momentos embaraçosos. Seguindo uma lógica semelhante, por vezes era também difícil perceber quais os objectos por onde podes atravessar e quais os que consistem numa barreira sólida: por norma, um é ligeiramente mais transparente que o outro mas, em contexto de jogo, nem sempre era fácil fazer essa distinção.

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O jogo possui um longevidade muito curta - irás completá-lo em nem meia dúzia de horas.

É importante ficares a saber que o jogo possui um longevidade muito curta - irás completá-lo em nem meia dúzia de horas - e, para além de umas bolas de luz espalhadas pelos diversos mundos cuja função nunca cheguei a descobrir nem me foi revelada pelo jogo, não há muito mais para fazer em Gris.

Mas estas são apenas pequenas falhas num pacote que, por si só, oferece uma experiência mágica e emocional. Cada frame do jogo foi de tal maneira trabalhado que podia facilmente ser emoldurado e colocado num qualquer salão do Louvre. E, apesar de ter consciência que me foquei em grande parte nos gráficos do jogo durante esta análise, não penses que a banda sonora fica atrás: cada composição musical do jogo foi trabalhada ao pormenor e com alta mestria. Tendo em conta a dificuldade em descrever uma música e a sua beleza por meras palavras, confere aquela que mais gostei no vídeo já a seguir.

Cada frame do jogo podia ser emoldurado e colocado num qualquer salão do Louvre.

Linda, não? Gris é um autêntico desenho animado interactivo que podes desfrutar sem medo de morreres, de te perderes ou de seres emboscado por inimigos. Se gostaste de Journey, Abzu e mesmo Rime, irás certamente gostar de Gris. Se procuras um jogo de plataformas mais desafiante e preciso como Celeste, então estás mesmo no sítio errado.

Gris poderá ter passado ao lado de muitos jogadores, o que é uma valente pena - para mim, estamos perante não só um dos melhores jogo de plataformas dos últimos tempos mas, com toda a certeza, o mais belo. Palavras não fazem jus, de maneira alguma, àquilo que verás no ecrã: todas as animações, toda a arquitectura, toda a iluminação, cada uma das músicas. É uma experiência simples mas repleta de simbolismo que te deixará pensativo - mas igualmente triste por ter terminado tão depressa.

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Sobre o Autor

Jorge Salgado

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Redactor

Fã de cultura pop, séries jogos animes. É o nosso noobie.

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