O futuro de Destiny sem a Activision

Positividade acompanhada de incerteza.

Ontem a Bungie anunciou, inesperadamente, que começou a dar os primeiros passos para se divorciar da Activision e recuperar os direitos de publicação de Destiny. Para que conste, a Bungie ia recuperar eventualmente os direitos de publicação de Destiny. O acordo entre a Activision e a Bungie, assinado por ambas as partes em 2010, delineou um plano até 2020 para lançamentos de vários jogos e expansões da franquia Destiny. Assim que o contrato fosse terminado, a Bungie recuperaria os direitos de publicação de Destiny, que em 2010 passaram para a Activision.

O que está acontecer é que a Bungie conseguiu sair do contrato mais cedo e anunciou que começou um processo para cortar os laços com a Activision. Como é que isto é possível, visto que o contrato estipulava lançamentos até 2020? A única possibilidade é um novo entendimento entre ambas as partes. A Bungie provavelmente estava descontente com a Activision, e a Activision com a Bungie. Para sair mais cedo do contracto com a Activision, a Bungie provavelmente teve que pagar algum valor monetário, pelo menos é esta a linha de pensamento dos analistas da firma Cowen & Company.

O que significa isto para o futuro de Destiny?

A vantagem para a Bungie de abandonar o seu contracto com a Activision é liberdade para definir o lançamento de novos jogos e conteúdos de Destiny. O contracto de 2010 estipulava quatro jogos Destiny com lançamentos em 2013, 2015, 2017 e 2019 e expansões em 2014, 2016, 2018 e 2020. Desde o início que o que estava estabelecido no contracto não foi cumprido à risca. O primeiro Destiny foi adiado para 2014. Destiny 2 foi lançado em 2017 e até agora só foram lançadas duas grandes expansões: The Taken King em 2015 e Forsaken em 2018. Portanto, desde o início que a Bungie mostrou dificuldade em acompanhar o ritmo de lançamentos estabelecidos no contracto. Aliás, os próprios jogadores sentiram isso. Os fãs de Destiny sempre consumiram os conteúdos mais rápido do que a Bungie conseguia fornecer.

A parte mais entusiasmante é que a Bungie deixa de estar obrigada a lançar um novo Destiny e a desperdiçar todos os conteúdos lançados para o jogo anterior. Esta transição foi um dos problemas pelos quais Destiny 2 passou nos primeiros meses. Ao lançar um novo jogo, todos os conteúdos e expansões do primeiro Destiny, que tinha crescido bastante desde o seu lançamento, foram descartados. Sem a obrigatoriedade de lançar um novo jogo, a Bungie pode simplesmente continuar a lançar novos conteúdos para Destiny 2, aumentando a dimensão e diversidade do jogo, sem descartar o progresso feito anteriormente. Isto ajudaria o jogo a aproximar-se de World of Warcraft (no sentido de continuar a expandir o jogo sem lançar um novo), um desejo que é cada vez mais forte entre a comunidade.

"Sem a obrigatoriedade de lançar um novo jogo, a Bungie pode simplesmente continuar a lançar novos conteúdos para Destiny 2"

No entanto, embora esta seja uma notícia positiva para o futuro de Destiny, a Bungie também ganha mais responsabilidades. Ter uma editora tão poderosa como a Activision a distribuir o jogo tem as suas vantagens. Sem a Activision, a Bungie terá que tratar da distribuição do jogo, um processo que envolve muita logística, e de realizar campanhas de marketing, o que pode tornar-se incrivelmente dispendioso (vale a pena recordar os $500 milhões que a Activision gastou em marketing para o lançamento do primeiro Destiny). Ser completamente independente tem obviamente vantagens, mas não é fácil, principalmente quando se está a lidar com uma franquia com as dimensões de Destiny.

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Portanto, o futuro de Destiny não será um sucesso garantido. A Bungie sempre esteve associada a uma editora. Em 2007, a Bungie tornou-se numa companhia independente, depois em 2000 ter sido adquirida pela Microsoft. Em 2010, a Bungie assinou o contracto com a Activision para a publicação de Destiny. O estúdio manteve a sua independência, mas para lançar Destiny teve a ajuda de uma poderosa editora como a Activision. Futuramente, a Bungie vai operar sozinha, uma situação na qual a história mostra que tem pouca experiência.

A Activision, o bode expiatório

Quem acompanha de perto as comunidades de videojogos sabe que a Activision tem uma reputação pouco favorável, com acusações regulares de que é gananciosa e que visa acima de tudo o lucro. Até agora, o ciclo de vida de Destiny é um conjunto de altos e baixos e existe quem acredite na narrativa de que os problemas pelos quais o jogo passou podem ser atribuídos a Activision. Em relação a isto, é verdade que o plano de lançamentos estabelecido no contracto de 2010 acabou por prejudicar a franquia Destiny (nomeadamente na transição do primeiro para o segundo jogo), mas o contracto foi assinado pela Bungie e a Activision até se mostrou flexível em alterar os planos, permitindo adiamentos nas datas de lançamento. Fora isto, a culpa para a maioria dos problemas de Destiny ao longo dos anos apenas pode ser atribuído à Bungie.

"A culpa para a maioria dos problemas de Destiny ao longo dos anos apenas pode ser atribuído à Bungie"

Em caso de dúvida, o contracto celebrado em 2010 pela Bungie e a Activision deixa bem evidente que a primeira reteve liberdade criativa e decisões relativas à dimensão de cada projecto. A Activision apenas tinha controlo e decisão final nas "vendas a retalho, promoções, descontos e cortes de preço", mas ainda era obrigada a consultar "significativamente" a Bungie antes de tomar as decisões. O mesmo contracto assinado pela Bungie também já abrangia as controversas microtransacções, que eventualmente foram adicionadas ao jogo em 2015 com a Eververse, um loja onde podes comprar emotes e outros itens cosméticos com dinheiro real.

Embora seja fácil atirar as culpas dos problemas de Destiny para a Activision (e não queremos ser o advogado do Diabo), no papel de alguém que jogou Destiny desde o lançamento até 2018, essa não me parece a realidade. O livro de "Blood, Sweet and Pixels" de Jason Schreier, que fala sobre o desenvolvimento conturbado de vários jogos conhecidos, incluindo o primeiro Destiny, pinta a Bungie como um estúdio com uma equipa dividida e problemas de gestão, as principais razões para o atraso no lançamento do primeiro Destiny e para os problemas que naquela época foram apontados ao jogo, como a falta de uma história apelativa e consistente.

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Por causa desta narrativa em que a Activision é vista como o grande vilão que prejudicou Destiny, a notícia de ontem foi celebrada com êxtase, mas é importante esclarecer que a editora nunca passou de um co-piloto. Quem esteve sempre com as duas mãos no volante foi a Bungie. Mas, num projecto tão ambicioso como Destiny, um jogo com um estilo nunca antes visto nas consolas e que desde então outros tentaram imitar, já eram esperados erros. E no meio disto de tudo - a obrigatoriedade de seguir um plano de lançamentos e de singrar num novo género - a Bungie teve bons momentos. Foram estes bons momentos que me agarraram a Destiny durante quatro anos. Nunca joguei algo durante tanto tempo e com tanta regularidade. A Bungie nem sempre esteve bem, mas nem sempre esteve mal.

"A Bungie nem sempre esteve bem, mas nem sempre esteve mal."

Há pouca margem para mais erros

Mais de quatro anos depois do lançamento do primeiro Destiny e com um historial marcado por coisas boas mas por outras tantas más, a sensação é que já não há tolerância para mais erros. Há fãs que continuam a adorar Destiny, mas há outras tantas pessoas que se sentiram enganadas pelos jogos. Futuramente, a Bungie não se pode dar mais ao luxo de causar desilusões e de não perceber o que a sua comunidade quer, caso contrário, a série Destiny pode chegar a um ponto em que não tem mais salvação.

O lançamento da última expansão, Forsaken, trouxe um ânimo positivo à comunidade, um sentimento que pautou a nossa análise à expansão, na qual dissemos que Destiny voltou a ser entusiasmante. Desde então, o percurso da Bungie tem sido maioritariamente positivo. Há novos conteúdos mais regularmente e o estúdio tem-se mostrado mais comunicativo do que nunca com a sua base de fãs. Ultimamente, a decisão de abandonar mais cedo o acordo com a Activision é positiva ainda que isso venha carregado com uma dose de incerteza para o futuro da série. Tal como toda a gente, estamos curiosos para ver a direcção que Destiny seguirá nos próximos anos.

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Sobre o Autor

Jorge Loureiro

Jorge Loureiro

Editor

É o editor do Eurogamer Portugal e supervisiona todos os conteúdos publicados diariamente, mas faz um pouco de tudo, desde notícias, análises a vídeos para o nosso canal do Youtube. Gosta de experimentar todo o tipo de jogos, mas prefere acção, mundos abertos e jogos online com longa longevidade.

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