Tudo é grande em Just Cause 4. O mapa é gigantesco, dos maiores que já vi num jogo, é possível causar explosões massivas em que as labaredas se erguem vários metros no ar, há muitas actividades espalhadas pelo mundo, e também há grandes problemas técnicos. É um caso em que claramente há ambição em demasia, e apesar do apelo de um mapa no qual o horizonte continua a ser prolongado à medida que o percorremos, era preferível ter menos em troca de uma experiência mais consistente. Claro que ter um mapa deste tamanho é uma excelente premissa para vender o jogo aos consumidores, no entanto, isso tem um custo que se tornou evidente quanto mais jogava Just Cause 4.

Mas, afinal, quais são exactamente estes problemas técnicos aos quais me estou a referir? Para começar, a instabilidade gráfica. No modelo padrão da PS4 há instâncias em que a resolução desce claramente abaixo de 1080p, mas o que realmente se torna incomodativo são os pop-ups constantes no cenário, problemas de streaming que revelam texturas horríveis, um motion blur agressivo que ameaça causar dores de cabeça sempre que rodamos a câmara, e artefactos visuais que deixam uma grainha em torno dos objectos. Até nas cinemáticas, que deviam ser mais apresentáveis, há inconsistência. Numa delas não sabia se havia de rir ou chorar com a barba de uma personagem (terrivelmente mal feita). Pelo menos, o desempenho é razoável e foram raras as vezes em que senti soluços.

O mapa é, de facto, assustadoramente grande, mas Just Cause 4 não é, na maioria das vezes, um jogo bonito de se olhar. Houve momentos, a navegar pelos céus, em que o horizonte e o cenário impressionam, mas isso é a excepção e não a regra. Está muito distante dos jogos em mundo aberto mais marcantes desta geração. É uma pena que Just Cause 4 tenha arestas por limar, principalmente na parte técnica, porque consegue ser um jogo muito divertido graças às muitas possibilidades do Grapling Hook, um gancho que nos permite brincar com o sistema de física do jogo e criar situações hilariantes como mandar os inimigos a voar com balões de ar, implementar estrategicamente pequenos jactos nos objectos (ou pessoas) e mandá-los a voar, prender vários carros na estrada e causar o caos, etc.

"Just Cause 4 não é, na maioria das vezes, um jogo bonito de se olhar"

Para os fãs de Just Cause, a diversão proporcionada pelo gancho de Rico Rodriguez não é novidade e já no capítulo anterior era um dos factores de destaque e diferenciadores da série. Com Just Cause 4, a Avalanche Studios implementou um gancho expandido, com várias opções de personalização e que permite combinar vários efeitos para que possas manipular a física do jogo de formas ainda mais criativas. É de longe o melhor que o jogo tem para oferecer e acho que perdi mais tempo a tentar fazer coisas aleatórias com o gancho do que propriamente a completar as missões. A maioria das missões acabam por ser uma tarefa que tens de fazer para desbloqueares mais opções de personalização para o gancho, mas há algumas realmente divertidas, principalmente aquelas que envolvem as condições meteorológicas extremas que existem no mapa.

As condições meteorológicas extremas são um tornado (o mais divertido para se brincar com o sistema de física), uma tempestade de trovões, uma tempestade de areia e um nevão. Estes são os efeitos meteorológicos que vais encontrar nos quatro biomas da ilha de Solís. Mais uma vez, Rico Rodriguez embarca numa missão para libertar um povo de um tirano. Acontece que esse tirano desenvolveu tecnologia capaz de criar e manipular condições meteorológicas, daí que exista sempre um tornado e vários tipos diferentes de tempestades a passear pelos quatro cantos do mapa. Há muito que Just Cause já deitou o realismo pela janela fora, portanto, a adição destes efeitos meteorológicos extremos só vem beneficiar a diversão do jogo. Estar no meio de um tornado, com tudo a voar e a girar à nossa volta, é um momento incrível que só vais encontrar em Just Cause 4.

"Estar no meio de um tornado, com tudo a voar e a girar à nossa volta, é um momento incrível que só vais encontrar em Just Cause 4"

Tudo em Just Cause 4 está pensado para causar o caos. Existe até um sistema de entregas em que podes pedir todos os tipos de armas e veículos. A entrega demora apenas alguns segundos, mas depois esse piloto precisa de um tempo para recuperar da viagem (podes usar outro, desde que tenhas desbloqueado mais pilotos). Curiosamente, muitas das missões do jogo, que envolvem realizar tarefas para diferentes NPC e conquistar as várias regiões do mapa, não envolvem necessariamente destruição. Fiquei surpreendido que num jogo destes, em que causar destruição é tão apelativo, existam várias missões onde o objectivo é basicamente ir do ponto A ao ponto B e carregar num botão. Pelo meio existem soldados e veículos a disparar contra nós, mas os objectivos de várias missões são básicos, sem imaginação. E com o gancho de Rico Rodriguez conseguimos deslocar-nos tão rápido que é possível passar missões ignorando os inimigos à nossa volta.

A quantidade de veículos em Just Cause 4 também é impressionante, mas a condução não dá muito gozo. É outro dos aspectos que deixa a desejar. O problema, parece-me, na latência dos controlos. Ao carregar no acelerador, a resposta não é imediata. O mesmo acontece quando queremos virar para um dos lados. Os veículos não respondem imediatamente e isso causa uma sensação de estranheza, como se não estivéssemos totalmente em controlo do veículo. Às vezes tens mesmo que entrar num veículo porque as missões exigem-no, mas na maioria das deslocações decidi ignorar os veículos e deslocar-me combinando o fato asa de Rico Rodriguez com o Grapling Hook. Combinando os dois podes manter-te no ar durante longos períodos de tempo. Podes até subir montanhas a voar pela costa acima, desde que lhe apanhes o jeito.

Para além das missões da história, vais encontrar no mapa actividades secundárias que envolvem proezas como passar por aros com o fato asa, passar por aros com determinados tipos de veículo, e passar por aros a uma certa velocidade (sim, todas as proezas envolvem passar por aros). É um daqueles jogos em que há muito para fazer, mas também muitas das coisas são repetidas. As proezas não são exactamente iguais e há umas mais difíceis do que as outras, mas eventualmente ficas cansado de passar por tantos aros. Também existem imensas coisas para desbloquear. Vais precisar de muitas horas para desbloquear todas as entregas de veículos e armas, e para teres acesso a todas as possibilidades de personalização do Grapling Hook, no entanto, as tarefas que terás de realizar para ter acesso a isso tudo tornam-se cansativas.

"É um daqueles jogos em que há muito para fazer, mas também muitas das coisas são repetidas."

Até agora não referi a história porque, para ser brutalmente directo, é para esquecer. A história é um pretexto para teres um mundo enorme para explorar com tornados pelo meio, mas não é minimamente interessante. As personagens são ocas, despidas de personalidade (até mesmo Rico Rodriguez se torna banal) e claramente pouca atenção foi dada aos diálogos e ao voice-acting. Nunca esperei uma história marcante de Just Cause, mas isto só serve para mostrar a inconsistência da experiência no geral. É um jogo desequilibrado em termos de valores de produção e, voltando ao que estava a referir no início da análise, é um caso em que menos seria mais. É um jogo que consegue oferece diversão e até despertar gargalhadas com as situações ridículas que podes criar, mas tudo o resto podia ser melhor. Ultimamente, era preferível um mapa menor, melhor apresentação visual, e missões melhores e com mais variedade.

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Sobre o Autor

Jorge Loureiro

Jorge Loureiro

Editor

É o editor do Eurogamer Portugal e supervisiona todos os conteúdos publicados diariamente, mas faz um pouco de tudo, desde notícias, análises a vídeos para o nosso canal do Youtube. Gosta de experimentar todo o tipo de jogos, mas prefere acção, mundos abertos e jogos online com longa longevidade.

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