Com a sua notável e variada biblioteca de jogos, a PlayStation original é uma das melhores consolas da história dos videojogos. Para a Sony, como uma entidade corporativa, a marca PlayStation continua a ser uma parte fundamental da sua linha e uma que, indiscutivelmente, salvou a empresa em diversos pontos durante a sua longa história. Para os gamers, a caixa cinzenta original representa uma era de descobertas e memórias maravilhosas - uma época em que géneros anteriormente de nicho tiveram a oportunidade de prosperar no mundo e géneros desgastados ganharam nova vida na transição para o 3D.

Um produto como a PlayStation Classic parece ser uma jogada inteligente. Empacota 20 fantásticos jogos PlayStation numa pequena réplica plug and play da PlayStation original com dois comandos e tens a receita para um excelente produto, uma celebração de um dos mais importantes dispositivos de jogo de todos os tempos. A Nintendo encontrou grande sucesso com sua linha mini Classic de micro-consolas, então por que não a Sony? Infelizmente, como já deves saber, esta história em particular não tem um final feliz.

A PlayStation Classic está aquém das expectativas em muitas áreas-chave, mas embora as principais deficiências do produto já tenham sido discutidas, queria explicar mais detalhadamente o que correu mal e o porquê da Playstation Classic não resultar - e começa com o já alto padrão de emulação de PS1 que a Sony atingiu no antigo hardware da PlayStation.

A PlayStation 2 inclui tanto o hardware quanto o software necessários para reproduzir jogos PS1 originais em resolução nativa, ao mesmo tempo em que introduz melhorias opcionais, como carregamentos mais rápidos e suavização das texturas. A PSP, a primeira consola de videojogos portátil da Sony, também recebeu suporte para jogos PS1 em 2006 e, graças à arquitectura de CPU MIPS compartilhada, apenas emulação parcial é necessária - muitas das instruções podem correr nativamente no processador da PSP - um recurso que a Vita usaria mais tarde para correr software da PlayStation. Até mesmo a PS3 recebeu suporte completo para jogos de PlayStation com um emulador de software decente.

O veredicto do Digital Foundry da PlayStation Classic.

O padrão está definido, com a expectativa de suporte para emulação excelente e precisa - um patamar onde a Classic, infelizmente, não consegue chegar. Na verdade, eu diria que se trata do pior hardware de consola que a Sony já lançou, e é uma valente pena já que, superficialmente, parece uma grande peça tecnológica. Esta nova unidade consiste numa réplica do design original com três botões totalmente funcionais e um comando também igual ao original, não DualShock. Em termos de software, os 20 jogos apresentados no sistema provocaram muito debate sobre o que devia ser incluído na PlayStation Classic e, com certeza, faltam muitos jogos que gostaria de ver, mas sinto que ainda assim é um colecção interessante e a maioria dos títulos são inclusões dignas.

No interior, o clássico difere muito do hardware original, como seria de esperar. O sistema é alimentado por um Media-on-chip em parelha com um ARM Cortex A35 de nível básico e uma GPU PowerVR GE8300 integrada, 1 GB de memória DDR3 e 16 GB de armazenamento flash. Esta configuração está muito à frente da PlayStation original e devia oferecer energia mais que suficiente para emular a consola original com facilidade. O problema é que isso não acontece.

A partir do momento em que ligas a unidade pela primeira vez, as suas limitações começam a ficar evidentes - embora deva admitir que o front-end é bastante atraente. O ecrã inicial apresenta o familiar som de início da PlayStation, seguido por um menu baseado no cartão de memória original / leitor de CD incluído nos primeiros modelos da PlayStation. Um carrossel de jogos adorna o centro do ecrã - mas depois entras no menu de configurações e apercebes-te que, basicamente, não há nada para ajustares. Para começar, a PS Classic está limitado à saída de 720p. Ela não possui filtros, scanlines ou ajustes para melhorar a saída de vídeo e está bloqueada a uma faixa completa RGB - sim, se estiveres a usar a Classic numa configuração limitada RGB, terás de ajustar o ecrã para usares a definição apropriada, algo que pode ser um incómodo se estiveres a usar RGB limitado com outros dispositivos.

Quando inicias um jogo pela primeira vez, os problemas de exibição são imediatamente evidentes. A qualidade da imagem é notavelmente desfocada como resultado de baixa escabilidade e filtragem pesada. Os jogos de pixels, como Rayman, deviam aparecer de forma nítida e limpa, mas são reduzidos a uma confusão borrada. O emulador é configurado para usar algum tipo de filtragem MDEC, resultando numa reprodução menos pontilhada e pixelizada - algo que poderia ser considerado positivo, mas a maioria dos jogos acabam por aparecer turvos. Quando combinas isto com o upscaling tipicamente desfocado do conteúdo a 720p que recebes na maioria das TVs de ecrã plano modernas, o resultado é uma qualidade de imagem inferior que não favorece a colecção de jogos.

menu
Em termos de características positivas, o sistema de menu front-end da Classic é atraente e fácil de usar. As configurações são limitadas, mas o sistema de gravação, pelo menos, é bastante decente.

Na sua essência, a PlayStation Classic é alimentada por software de código aberto, ao contrário de uma solução interna - e, em teoria, pelo menos, isto poderia ser algo de bom. Nos últimos anos, o panorama de emulação da PlayStation continuou a evoluir com alguns grandes avanços na renderização. O PGXP, por exemplo, pode eliminar a distorção de texturas em muitos jogos, resultando numa qualidade de imagem estável e limpa que antes era impossível na PlayStation. A Classic, no entanto, faz uso do PCSX ReARMed - uma porta ARM amplamente disponível do emulador PCSX.

A precisão do ReARMed não é propriamente incrível, mas para dispositivos ARM de menor potência faz um trabalho razoável e pode ser uma boa escolha - mas usá-lo num produto de retalho como a Classic não é uma boa ideia. A emulação, numa forma geral, parece boa mas há algumas pequenas falhas aqui e ali que me surpreenderam - e há a sensação de que pouco esforço foi feito para corrigir problemas com a emulação. Até mesmo o áudio tem problemas - a música de Final Fantasy 7 diminui em pontos, enquanto Ridge Racer Tipo 4 não trata da reverberação correctamente: tens a impressão de que o efeito é activado e desactivado durante o jogo de uma forma bastante desagradável - algo que não acontece no hardware original.

A segunda grande questão está na própria selecção de jogos - como já foi noticiado, nove dos 20 jogos são versões PAL europeias. Se não estás familiarizado com o sistema PAL, em termos simples, é basicamente o padrão de transmissão europeu estabelecido há décadas. PAL oferece uma resolução maior do que o padrão NTSC usado noutros lugares, actualizando a 50 Hz em vez de 60 Hz. Isto é algo pouco relevante na era do HDMI mas para os jogadores europeus, este foi um problema sério na época. Jogos desenvolvidos no Japão ou nos Estados Unidos foram projectados para correrem a 60Hz e não foram propriamente optimizados para ecrãs PAL de 50Hz. Eles não tiram proveito da resolução aumentada PAL, resultando numa imagem letterbox esmagada e a velocidade do jogo era geralmente mais lenta - cerca de 16,7% inferior - enquanto que as sequências de vídeo geraram uma trepidação extra.

Como esperado, todos os nove títulos PAL incluídos são mais lentos (embora o letterboxing seja eliminado), mas o problema é exacerbado na PlayStation Classic. O motivo? A jogabilidade de 50Hz desses títulos é lançada na saída a 60Hz da Classic, resultando em trepidações significativas. Assim, enquanto os jogos PAL costumavam ser reproduzidos lentamente numa TV original de 50 Hz, a entrega de fotogramas era consistente, o que não acontece aqui. E isto leva-nos ao problema número três - a questão mais séria de todas. O desempenho é fraco e um tópico difícil de discutir, já que é muito variável de jogo para jogo.

tekken
Usando a versão PAL de Tekken, notarás uma experiência mais lenta com quedas regulares de fotogramas e soluços adicionais nunca vistos no jogo original.

Usa Tekken 3 como exemplo. É claro que o jogo é executado numa velocidade mais lenta devido às suas origens PAL - com soluços extra introduzidos através de fotogramas duplicados causados pela conversão de 50Hz para 60Hz. Se observarmos o jogo a correr numa PlayStation real, no entanto, o framerate está bloqueado a 60fps e move-se de forma bem mais rápida - e é assim que Tekken 3 deve ser jogado. Para uma melhor análise, também carreguei o jogo usando o PCSX ReARMed dentro do RetroArch na Nvidia Shield TV. Este sistema baseado em Android usa o Tegra X1 - hardware que supera a PS Classic por uma grande margem. O problema é que Tekken 3 não corre exactamente a toda velocidade na Shield durante o jogo ao usares o núcleo ReARMed. Brinquei com várias configurações, mas o ReARMed não conseguiu atingir os 60fps bloqueados. Com isso em mente, talvez a versão de 50hz tenha sido seleccionada para contornar essa questão? Adicionando insulto à injúria basta pensar que a PSP - e por extensão, a PlayStation Vita - correm círculos à volta da PS Classic e Shield TV em termos de desempenho, e suportam 240p nativos (ou 480i no caso de Tekken 3) ao usar saída de vídeo, embora 480p também esteja disponível.

A maioria dos outros jogos PAL não tem como alvo altas taxas de fotogramas, e é aí que as coisas pioram. Cool Boarders 2 mostra o mesmo problema que notamos com Tekken 3 - não há apenas quedas típicas no frame-time como resultado da conversão de 50Hz para 60Hz, mas há também frames perdidos adicionais ao longo do caminho e isso é muito pior quando falamos em taxas baixas de fotogramas. Este é o mais ou menos o caso de Grand Theft Auto - que aparentemente é um jogo de 20fps na sua forma NTSC, reduzido para apenas 17fps na PS Classic. A baixa taxa de fotogramas e os novos problemas de ritmo produzem algo que parece injogável. O resto dos jogos PAL exibem problemas semelhantes e, honestamente, isso não é aceitável. O desempenho da Classic dá a impressão de que esses jogos são muito piores do que aquilo que te lembras (e que não corresponde de todo à verdade), e isso pode negativar as opiniões que as pessoas têm desses jogos.

O caso melhorava se o resto dos jogos NTSC funcionassem correctamente, mas, infelizmente, não funcionam. Ridge Racer Type 4 é um dos meus jogos favoritos na colecção e no hardware original oferece 30 fotogramas por segundo. Então, como é que a Classic se comporta? Bem, infelizmente, é terrível. Existem dois problemas aqui - em primeiro lugar, o tempo de frames não é consistente, apesar de estarmos a jogar um jogo NTSC. Os tempos de fotogramas saltam entre 16ms, 33ms e 50ms constantemente. Ainda pior, há uma desaceleração real na PS Classic que não estava presente no hardware original. Os espasmos são de tal maneira notáveis que a diversão acaba por ser sugada. Quando juntas um mau desempenho com som muito aquém do esperado e qualidade de imagem desfocada, não é um panorama geral muito bonito. Outra questão que notei é o sistema de menu do jogo. Ele usa uma saída entrelaçada no hardware original e parece ser executado incorrectamente na Classic. Para além disso, o mesmo perde frames e é muito menos claro em comparação - não é problemático mas não deixa de ser outra desvantagem da Classic. Mais uma vez, a PSP, Vita e PlayStation TV oferecem uma experiência quase idêntica ao hardware original.

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Executar o mesmo núcleo de emulador na mais poderosa TV Shield mostra que o código esforça-se para rodar Ridge Racer Type 4 a toda velocidade em qualquer chipset móvel.

Mesmo os jogos que são projectados para correr a 60 frames por segundo constantes, como o Rayman, não conseguem fazê-lo. Estão perto, mas há um soluço constante que aparece a cada segundo ou mais, o que cria uma gaguez constante e altamente perturbadora. A PlayStation original, por comparação, tem poucos problemas com 60fps neste jogo. Este é um dos meus jogos favoritos na colecção, e é muito triste ver estes problemas. Eu acho que estás a começar a entender o panorama - não importa o jogo que escolheres, o desempenho nunca é tão fluido como na consola original ou qualquer outra solução de emulação que a Sony tenha fornecido no passado.

Este é realmente o principal problema - a PlayStation Classic cria uma imagem excessivamente negativa destes jogos. As taxas de fotogramas são menores e menos consistentes, a qualidade da imagem é desfocada e há glitches. A latência de entrada, embora aceitável, permanece maior do que no hardware original. A inclusão de jogos PAL permanece totalmente desconcertante - e a ideia de que o emulador não é rápido o suficiente para correr os originais NTSC é a única explicação que posso apresentar aqui para esta situação bizarra. É uma pena, porque há pontos positivos aqui. O front-end é óptimo - tens cartões de memória virtuais disponíveis para cada jogo e um sistema de estado de gravação que te permite regressar a qualquer jogo no ponto em que paraste. O básico está lá, mas a escolha do software de emulação e o baixo nível de desempenho estragam a experiência.

Então, qual o nosso veredicto? Bem, se quiseres jogar jogos originais da PlayStation correctamente, eu recomendaria que evitasses a PS Classic - mesmo que não estejas interessado em comprar hardware original, a Sony tem muitas soluções superiores prontas para serem usadas. Uma PlayStation 3 é uma óptima escolha e não deve custar muito mais do que uma PS Classic. A PSP e Vita também são excelentes para desfrutar de jogos PS1 - a PSP Go, na verdade, é o meu dispositivo portátil favorito de PS1, já que pode ser usado como portátil ou conectado a uma TV analógica, oferecendo saída nativa de 240p e 480i, emparelhada com um DualShock 3. É um óptimo pequeno dispositivo. A TV Vita é outra opção, mas nos dias de hoje, os preços estão elevados e a qualidade do upscaling deixa muito a desejar.

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A combinação de código PAL e problemas de desempenho na emulação pode abrir algumas lacunas enormes em termos de desempenho entre a PS Classic e o hardware original.

Em retrospectiva, é engraçado rever as preocupações originais sobre este produto - toda a gente estava focada na biblioteca, mas isso tornou-se o menor dos problemas da consola e, honestamente, não acho que a selecção de jogos seja muito má. Os grandes títulos incluídos são absolutamente dignos e muitos dos outros merecem atenção também. Já mencionei Rayman e sinto que o mesmo não obtém o respeito que merece. É um jogo brilhante e bonito com desempenho suave e jogabilidade desafiadora. Mr Driller é outro. Apesar de preferir a sequela, Mr Driller G, o original ainda é um jogo de quebra-cabeça clássico. Vale mesmo a pena jogar, tal como Super Puzzle Fighter 2 Turbo.

Intelligent Qube é outro jogo que se está a provar extremamente interessante - este é um dos que perdi no passado, mas é um dos jogos com melhor desempenho na Classic e é bastante viciante. O Oddworld original também está incluído e, nos dias que correm, continua a ser um jogo brilhante. Mesmo jogos como o Battle Arena Toshinden - que não é especialmente bom - faz sentido em termos da história da PlayStation, já que foi um título chave na linha de lançamento.

Se fores capaz de ignorar os problemas técnicos e apenas desfrutar dos jogos, pode ser que ainda te consigas divertir. Jogos como Oddworld, Final Fantasy 7 e Mr Driller funcionam bem o suficiente. O problema é que existem formas muito melhores de aproveitar os jogos da PS1. Esta consola não é algo que usaria para substituir a minha colecção - se bem que estes dispositivos micro podem ser uma maneira divertida de revisitar estes jogos com o mínimo de esforço. É o tipo de actividade que podes fazer nas férias para aqueles dias chuvosos - mas os resultados pura e simplesmente não são bons o suficiente e ainda é difícil evitar a sensação de que pouca atenção foi dada a este produto. O que poderia ter sido uma celebração brilhante de uma consola clássica é, pelo contrário, uma profunda decepção - e isso é especialmente surpreendente tendo em mente a forma brilhante como a Sony executou a emulação da PS1 no passado.

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Sobre o Autor

John Linneman

John Linneman

Staff Writer, Digital Foundry

An American living in Germany, John has been gaming and collecting games since the late 80s. His keen eye for and obsession with high frame-rates have earned him the nickname "The Human FRAPS" in some circles. He’s also responsible for the creation of DF Retro.

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