A série Hitman começou em 2000, com Codename 47, lançado em exclusivo para o PC. Criado pelo estúdio dinamarquês IO Interactive, dá destaque a uma personagem fria e pouco emocional, mas que veste fato e consegue despachar criminosos sem deixar rastro, através de mortes limpas e rápidas. Incorporando mecânicas de espionagem e acção, possibilitou ao jogador vários meios para atingir os alvos, sob uma ampla liberdade. Em quase duas décadas a IO Interactive criou impacto nesta indústria através da actuação furtiva deste agente. Há um certo paralelismo com a série Metal Gear, na forma como se define a aproximação aos alvos através de uma abordagem furtiva, predominando a observação e a estratégia sobre a acção caótica. No entanto, a vocação e âmbito temático de ambos os jogos, são naturalmente distintos.

Até há pouco tempo a produtora dinamarquesa contou com o apoio da editora japonesa Square Enix, responsável pelo desenvolvimento do anterior episódio da série, a cargo da Square Enix Montreal. Comprada pela Warner Bros Interactive Entertainment, a IO Interactive reassumiu a direcção da série e desenvolveu Hitman 2, sob uma nova editora. Até poderia funcionar como um "reboot" na série, mas a produtora acabou, e bem, por dar sequência ao jogo lançado dois anos antes (Hitman). Sem o alinhamento por episódios, continua com os eventos e a estrutura do jogo de 2016. É por isso uma campanha bastante familiar, na sua estrutura e mecânicas, preservando os elementos nucleares da série, embora com um novo périplo mundial e, em bom rigor, a lava desta produção que deixará os fãs satisfeitos pelo alcance aqui obtido.

O Agente 47 é mais uma vez o protagonista. Como referi atrás, é uma personagem fria, a mando, de poucas emoções e rosto fechado. O seu sucesso reside na forma como elimina os alvos apontados a cada uma das missões. Ele consegue passar despercebido diante de multidões, mesmo que entre elas estejam estrelas ou pessoas famosas. Há sempre uma indumentária e uma camuflagem que o protege, pelo menos por momentos. Mas também cria sobressaltos e rapidamente quebra silêncios como uma tempestade que se se abate sobre um deserto.

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A missão pode ser concluída com um bang. Assim é na Nova Zelândia, uma das seis missões da campanha e logo a primeira.

Mais uma vez, temos o Agente 47 a agir sem parcimónia. No encalço de uma misteriosa organização chamada "Shadow Client", a personagem viajará pelo mundo. Um périplo que começa na Nova Zelândia, numa casa de luxo junto ao mar, e progride numa pista de corridas em Miami, avança por um cartel da droga Colombiano, cruza as densas ruas de Mumbai, num misto de exotismo, densidade urbana e até arquitectura moderna. Nesta excursão, entre locais aos quais regressamos e novidades, o objectivo passa por chegar a uma poderosa figura do crime. Pelo meio outras personagens são apagadas do mapa de forma rápida e letal, enquanto que outras são apenas desarmadas. Mais uma vez, a IO Interactive coloca à disposição do jogador os meios usados nas produções anteriores. Perante Hitman (2016), Hitman 2 é bastante próximo.

"Cada missão, ou nível, funciona como uma descoberta dependendo do local por onde entramos"

O jogo mantém as áreas largas, possibilita o improviso - a tal liberdade de actuação quanto ao "modos operandi" - e cria permanentes desafios. Cada missão, ou nível, funciona como uma descoberta dependendo do local por onde entramos. E depois há sempre elementos com os quais podemos interagir, por alternativa a simplesmente seguir para o alvo evitando confrontos. Isto leva-nos a querer repetir um mapa, usando uma outra táctica, ao mesmo tempo que descobrimos coisas novas enquanto progredimos. Sabotar um carro, obter um disfarce para matar alguém, para além dos habituais quadros eléctricos ou dos barris de gás, óptimos para desencadear uma espécie de fogo de artifício enquanto atraímos as pessoas para um ponto até o alvo ficar isolado. São inúmeras situações e contextos com os quais acabamos por interagir.

Os mapas são bastante diversificados. Os contextos de eliminação do alvo ocorrem em cenários diferentes, pondo problemas inexistentes nos anteriores, o que evita a reciclagem. As áreas são tão grandes que por vezes nos sentimos perdidos, ao ponto de não saber por onde começar. No entanto, é possível abrir caminho através da remoção das câmaras de vigilância, dos sistemas de aberturas de portas ou por intermédio de soluções mais radicais. À passagem de pessoas em áreas reservadas, um armário ou um caixote dos sobejos serve de esconderijo temporário.

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Em Whittleton Creek, Estados Unidos, tem lugar uma das melhores missões.

O grande desafio em Hitman está em improvisar com sucesso. Não há um percurso linear nem uma só forma para atacar o alvo. O improviso é a maior arma a favor do Agente 47, que tanto pode optar por uma actuação furtiva e discreta, neutralizando as ameaças e passando à missão seguinte sem causar grande alarido, por oposição a um avanço ruidoso, dando uso a armas de fogo sem silenciadores, o que lança o alarme nas imediações para uma rápida detecção. Permanecer fora da visão dos inimigos é quase obrigatório. Para isso terão que usar as paredes e uma série de objectos de grandes dimensões colocados no cenário, usando a perspectiva na terceira pessoa para uma observação segura. Se a actuação silenciosa se impõe, haverá momentos em que teremos de premir o gatilho, abrindo sequência a uma série de disparos.

Embora o sistema tenha sido aperfeiçoado, pode causar dificuldades nalguns ângulos. Fazer pontaria e atirar com sucesso requer uma rápida actuação, quase em fracções de segundo e nem sempre conseguimos executar esse movimento na perfeição. Para cumprir com sucesso as missões e dar seguimento à lista de assassinatos, o agente tem à sua disposição uma série de ferramentas, servindo-se da famosa caixa na qual reluz o seu melhor equipamento. Neste ponto há significativas melhorias. Desde o registo das câmaras de segurança, zona dos corpos descobertos, até disfarces e indumentárias à paisana a fim de desaparecer entre a multidão de forma mais efectiva, existem várias formas para contornar a segurança quando a vigilância é apertada.

No combate debaixo de fogo o Agente parece resistir melhor, para além de uma melhor resposta e desenvoltura em situações de maior aperto. Não parece tão vulnerável, ainda que este tipo de actuação não seja o mais indicado caso queiram ter a experiência Hitman como ela foi projectada. Entre outras melhorias, destaque para o redesenho do mini-mapa, com novas cores e os alertas quando os inimigos entram no nosso raio de acção. Particularmente reforçado, o sistema de pontuação e progressão. A maioria das acções praticadas dentro dos mapas são acompanhadas pela obtenção de pontos. Seja a adquirir um disfarce, neutralizar câmaras, descobrir novas áreas e anular os alvos com recurso a um ataque alternativo, tudo é somado e posteriormente transformado em objectos úteis, mais equipamento e novos desafios.

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Dia de corridas em Miami. A vigilância é apertada mas a multidão pode dar uma ajuda.

A diversidade de ambientes e situações, em festas ou momentos do quotidiano continuam a injectar uma forte componente cinematográfica. O Agente 47 tem uma equipa em ligação audio, mas este é um homem infiltrado e sem apoio, suportando o que vê. Em boa medida este jogo tem na contemplação e observação um grande impacto, quase vouyeur: contextos intrigantes e situações peculiares, algumas em ressonante apontamento humorístico. As "cutscenes" continuam a desempenhar um papel nuclear e activo na construção da história, ainda que nos pareça que o argumento leva algum tempo até nos motivar e prender realmente. Visualmente é um jogo bastante equiparado ao anterior, com destaque para os efeitos de luz, mais desenvolvidos. Destaque para dois modos de jogo multiplayer: Sniper Assassin e Ghost Mode. Este coloca dois jogadores numa competição pelos mesmos alvos, num estrito um contra um, enquanto que o primeiro, seguindo a jogabilidade de Hitman: Sniper Challenge, coloca dois jogadores em cooperação para atingir os mesmos alvos situados a longa distância.

"é um jogo único, com a liberdade de actuação numa lista de alvos a abater, espalhados por várias cidades e locais icónicos do globo"

Em resumo, Hitman 2 é um jogo esperado, a funcionar enquanto sequela reintroduzindo quase todas as mecânicas e elementos do jogo anterior. Não incorpora mudanças significativas nem reinventa a franquia, mas não se perde na estrutura por episódios. De certa maneira é um jogo único, com a liberdade de actuação numa lista de alvos a abater, espalhados por várias cidades e locais icónicos do globo. Pode transmitir por momentos uma sensação de repetição, até porque há locais recuperados, mas a quantidade de objectivos secundários, a extensão das áreas, os recursos à nossa disposição e o consequente premeio de uma exploração, tornam a actividade do Agente 47, mais do que renovada, num périplo mundial reforçado.

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Sobre o Autor

Vítor Alexandre

Vítor Alexandre

Redator

Adepto de automóveis é assim por direito o nosso piloto de serviço. Mas o Vítor é outro que não falha um bom old school e é adepto ferrenho das novas produções criativas. Para além de que é corredor de Maratona. Mas não esquece os pastéis de Fão.

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