Um jogo com poucas novidades, baseando-se numa fórmula de sucesso, mas que mostra sinais de cansaço e desgaste.

O sucesso de Pokémon GO, que desde que ficou disponível em Julho de 2016 se mantém como um dos jogos mais populares e lucrativos nos dispositivos mobile, moldou para sempre o panorama da série. Desenvolvido pela Niantic, que não tem qualquer relação com a Game Freak, que lançou os jogos originais de Pokémon em 1994 para o Gameboy, Pokémon GO conseguiu atingir uma audiência muito maior do que qualquer outro jogo da série. Factores como a gratuitidade e de correr numa grande diversidade de smartphones e tablets, dispositivos que hoje estão presentes em quase todas as casas, ajudaram-no a crescer rapidamente, mas independentemente disto, conseguiu apresentar Pokémon a novos jogadores de todas as idades.

Dois anos depois, a resposta da Game Freak ao sucesso que Pokémon GO atingiu é Pokémon Let's Go para a Nintendo Switch. Embora estejam disponíveis em plataformas diferentes, os dois jogos partilham semelhanças que vão além do nome e até têm compatibilidade, sendo possível transferires os teus Pokémon de Pokémon GO para Pokémon Let's Go. O objectivo da Game Freak em adoptar mecânicas introduzidas em Pokémon GO, misturando-as como uma estrutura e progressão idênticas à fórmula tradicional de Pokémon, parece ser criar um jogo ainda mais acessível e convidativo para uma nova geração de jogadores, mas será que esta combinação resulta?

Poderia resultar, mas há múltiplas decisões questionáveis em Pokémon Let's GO que ultimamente o comprometem e que relevam uma incapacidade da Game Freak em compreender que aquilo que resulta num jogo mobile não resulta num jogo para consola. Vejamos só o sistema de captura emprestado de Pokémon GO e a ausência de batalhas com Pokémon selvagens. O "novo" sistema de captura até tem mais profundidade do que o sistema tradicional, requerendo que atires a Pokébola no momento certo para aumentares a probabilidade de capturares aquele Pokémon. No entanto, porque razão foram removidas as batalhas contra os Pokémon selvagens? Ou melhor, porque motivo é que só alguns Pokémon, como Mewtwo, Zapdos, Articuno, Moltres e Snorlax é que têm direito aos tradicionais combates?

Não há nenhuma resposta válida. Em Pokémon GO pode-se dar o argumento de que é um jogo para smartphone desenhado para ser jogado em andamento e, portanto, as batalhas foram removidas para que possas jogar sem prestar muita atenção. A Nintendo Switch é uma consola portátil, mas não é um smartphone, e a mesma filosofia quando aplicada a Pokémon Let's Go não resulta tão bem. Em poucas horas, os encontros com Pokémon em Pokémon Let's Go tornam-se aborrecidos, ficando limitados ao simples acto de atirar Pokébolas, e francamente evitei-os ao máximo nas últimas horas de jogo. Como agora os Pokémon podem ser vistos nos cenários, ao invés de aparecerem de surpresa enquanto caminhas pela relva, é possível evitar os encontros, mas a captura de Pokémon está bem entranhada na estrutura do jogo.

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Felizmente os HM foram removidos e já não precisas ocupar os ataques dos teus Pokémon com técnicas como o Surf, Strengh, Flash, etc. Em vez disso, o teu Pikachu / Eevee é capaz de aprender todas estas técnicas.

Como agora não podes combater contra Pokémon selvagens, existem apenas duas formas de ganhar experiência para aumentares o nível da tua equipa de Pokémon: lutar contra treinadores e capturares Pokémon. Para ser justo, consegui chegar aos Elite Four (a Liga dos Pokémon) com a minha equipa entre nível 50 e 60 sem ter perdido muito tempo a capturar Pokémon. Em nenhum momento do jogo senti a necessidade de "grindar", a não ser depois de derrotar os Elite Four, quando surgem novos desafios para os jogadores que querem completar tudo. Portanto, embora capturar Pokémon seja uma de duas formas de subires o nível da tua equipa, não há um ênfase exagerado nesta faceta (e mesmo assim torna-se chato).

O problema de capturar Pokémon em Pokémon Let's Go é que, para além de faltar o entusiasmo associado aos combates, a lista de Pokémon disponíveis em cada versão é limitada, pelo menos para os padrões actuais. Do princípio ao fim, são poucos os Pokémon fortes que encontramos a passear pelos cenários. Na maioria das vezes, apenas encontramos os habituais Rattata, Raticate, Pidgey, Pidgeotto, Nidorino, Nidorina, Zubat, Geodude e poucos mais. Eventualmente, ficamos fartos de encontrar os mesmos Pokémon e o entusiasmo de capturar o teu primeiro Pidgey desaparece completamente quando o vais fazer pela vigésima vez. É mais um exemplo de como a Game Freak pegou num aspecto de Pokémon GO e o implementou aqui sem aparentemente ter pensado bem nas consequências a longo prazo para a experiência.

A Game Freak tentou combater isto ao introduzir mais uma mecânica de Pokémon GO, os tamanhos de Pokémon GO. Em Pokémon Let's Go podes encontrar Pokémon iguais que variam de tamanho, começando no XS (mais pequeno) até XL (maior). Nos cenários, os Pokémon mais pequenos são destacados por uma aura azul, enquanto os maiores são destacados por uma aura vermelha. Os Pokémon mais pequenos e maiores oferecem mais experiência quando capturados (outros factores como o número de tentativas e o timing também aumentam a experiência que ganhas na captura), se bem que o tamanho não está propriamente relacionado com o CP (Combat Power) dos Pokémon. Se queres apanhar um Pokémon com maior CP, tens que fazer Combos, capturando continuadamente um Pokémon exactamente igual (isto também aumenta a probabilidade do Pokémon ser Shiny).

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Na versão Pikachu de Pokémon Let's Go o comportamento deste Pokémon é muito parecido com o Pikachu de Ash na série animada.

Excluindo as mecânicas e aspectos importados de Pokémon GO, Pokémon Let's Go comporta-se como um remake de Pokémon Blue, Red e Yellow. Existem pequenas diferenças e variações, mas de forma resumida, percorres o mapa de Kanto para venceres oito líderes de ginásios, combateres a Team Rocket e no final disto competir e ganhar contra os Elite Four. Se jogaste os originais, não existem praticamente surpresas. É um reaproveitamento do que já existia antes, mas com uma grande melhoria visual. Se há elogio que pode ser feito, é que Pokémon Let's Go é o jogo mais bonito e visualmente mais avançado da série, mas com um hardware como o da Nintendo Switch, largamente superior ao da Nintendo 3DS, seria estranho se assim não fosse.

Ao primeiro olhar, Pokémon Let's Go tem encanto. O mundo vibra e ver os Pokémon como parte do mundo cria uma atmosfera nunca antes sentida na série. Depois, há coisas fúteis mas divertidas como vestir o teu Pikachu ou Eevee (mediante a versão que escolheres) com diferentes fatiotas. Andar com o Pikachu ou Eevee no teu ombro durante o jogo é adorável. Até podes montar o teu Charizard e outros Pokémon. Há boas ideias e intenções, e para todos os efeitos, este continua a ser um jogo de Pokémon e isso por si só vai atrair as pessoas, mas por debaixo deste bonito véu, está um jogo que tem uma crise de identidade, de direcção e que se torna aborrecido em nome da acessibilidade, algo que nunca me pareceu faltar na série Pokémon (pelo contrário até).

"O mundo vibra e ver os Pokémon como parte do mundo cria uma atmosfera nunca antes sentida na série"

Não há nada de errado em experimentar coisas novas, e se há coisa que a série Pokémon precisa, é de evoluir mais rapidamente, mas o que a GameFreak fez com Pokémon Let's Go foi misturar de uma forma crua e desajeitada as mecânicas de Pokémon Go com um remake dos primeiros jogos de Pokémon. Neste processo, até foram removidas, mais uma vez sem explicação, as habilidades dos Pokémon. É realmente difícil perceber algumas das decisões da Game Freak. As habilidades adicionavam mais estratégia e profundidade, mas tal como os combates contra Pokémon selvagens, é mais uma das coisas que foram removidas em nome da acessibilidade. Outra coisa estranha é que as formas Alola dos Pokémon de primeira geração estão presentes, mas em vez de habitarem as diferentes áreas para aumentar a variedade de Pokémon (que é pouca) só estão disponíveis em forma de troca com NPCs.

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Os Pokémon Lendários têm direito a uma cinemática extremamente curta antes dos combates.

Estes cortes não seriam problema se a Game Freak tivesse pensado e implementado algo melhor, mas não o fez. Não há nada para substituir elementos que faziam parte da identidade da série desde origem ou há largos anos, portanto, é normal que quem acompanha a série há muito tempo ou desde início sinta uma sensação de vazio e de regressão com Pokémon Let's Go. Os novatos na série até poderão achar piada a Pokémon Let's Go, mas isso não nega o facto de que os jogos de Pokémon que foram lançados para a Nintendo 3DS são uma experiência muito melhor e que conseguem ser acessíveis mas com profundidade suficiente para que sejam competitivos. Pela primeira vez num jogo de Pokémon posso dizer que cheguei ao final por obrigação e não por gosto.

Gosto, contudo, da ideia da GameFreak de, depois de enfrentar os Elite Four, popular o mundo com novos treinadores que se especializam num só Pokémon. Derrotar estes treinadores não é tarefa fácil! Estes Pokémon estão a nível 75 e existem treinadores para todos os Pokémon, incluindo evoluções iniciais. Por um lado, isto acrescenta uma enorme longevidade, mas por outro, a ideia de treinar um Pidgey até nível 75 não me parece agradável, principalmente agora que não existe nenhuma forma rápida de o fazer (existe DayCare, mas isso também demora tempo). A compatibilidade com Pokémon GO também oferece uma nova forma de completar a Pokédex, tanto é que até voltei a instalar Pokémon GO no meu smartphone para poder capturar e depois transferir Pokémon para o jogo da Nintendo Switch. É, sem dúvida, um ponto positivo e que deveria transitar para futuros jogos da série.

Como o primeiro jogo de Pokémon para a Nintendo Switch, e como fã da série desde pequenino, é difícil não sentir desilusão com Pokémon Let's Go. É um jogo que parece ter sido feito apenas para capitalizar no sucesso de Pokémon GO e tentar replicar a fórmula na Nintendo Switch, mas como já disse antes, não resulta em pleno. Há ideias de Pokémon GO que podem de facto ser aproveitadas para futuros jogos da série, mas há uma necessidade de adaptação. A Game Freak não fez uma adaptação, mas antes uma implementação directa daquilo que a Niantic criou. Excluindo as mecânicas importadas de Pokémon GO, Pokémon Let's Go é um jogo com poucas novidades, baseando-se numa fórmula de sucesso, mas datada e com sinais de cansaço. Os cortes feitos pela Game Freak mostram ainda mais o desgaste desta fórmula, em grande parte, este é o mesmo jogo lançado em 1996.

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Sobre o Autor

Jorge Loureiro

Jorge Loureiro

Editor

É o editor do Eurogamer Portugal e supervisiona todos os conteúdos publicados diariamente, mas faz um pouco de tudo, desde notícias, análises a vídeos para o nosso canal do Youtube. Gosta de experimentar todo o tipo de jogos, mas prefere acção, mundos abertos e jogos online com longa longevidade.

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