Uma experiência off-road plurifacetada, de cariz arcade e capaz de boas sensações aos comandos, mas os limites estão próximos.

Foi com um misto de surpresa e expectativa que recebemos, há uns largos meses, o anúncio do regresso da série V-Rally, na quarta edição, para as plataformas da actual geração e PC (versão Nintendo Switch sairá perto do Natal). Trata-se de um jogo de automóveis de cariz arcade que ganhou bastante popularidade nos anos noventa, quase em simultâneo com o rival Colin McRae Rally, da Codemasters, especialmente na plataforma PlayStation. O jogo viria a receber uma sequela antes da viragem do milénio. Produzido e editado pelos franceses da Infogrames, V-Rally deixou uma boa trajectória, que teria continuidade com V-Rally 3, em 2001.

Após quase 17 anos de interregno, V-Rally regressa ao panorama da divisão "off-road", retomando as coordenadas arcade de várias disciplinas que militam na cena desportiva automóvel.

Neste regresso, agora pela mão da Bigben e produzido pelos parisienses da Kylotonn (com larga experiência na série WRC e recentemente produzido TT Isle of Man), os amantes das corridas arcade voltam a ter à disposição uma proposta que não foge às suas raízes, nem descarta algumas bases da simulação - por vezes até lembra mesmo Colin McRae Rally - , mas que ao mesmo tempo empresta um bom sentido de evolução, ao apostar em diversos desportos motorizados e numa jogabilidade bastante equilibrada e afinada.

Juntamente com Gravel, da italiana Milestone, V-Rally 4 é uma das experiências arcade revivalistas do ano, trazendo os condimentos das antigas experiências arcade num quadro "off road" bastante alargado, através de uma viagem pelos continentes, num périplo mundial que reúne diversas modalidades do desporto motorizado.

De certa maneira, Gravel e V-Rally 4 perfilam-se como os sucessores de Sega Rally (até ver a Sega parece estar a estudar o assunto, mas seria bom saber os planos da editora quanto a esta série).

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Porsche 911 Safari, conhecido pela presença do Paris Dakar é um dos clássicos disponíveis.

Libertos do espartilho das competições oficiais, que embora promovam determinadas provas com todos os carros, etapas e pilotos, são jogos que apresentam um conteúdo limitado. Um V-Rally 4 é capaz de se mostrar mais abrangente, integrando várias disciplinas e categorias, enquanto permite o acesso a carros antigos, clássicos de outras gerações e as mais recentes evoluções. A limitação maior de V-Rally 4, tal como acontece com outros jogos como Gravel, é o reduzido orçamento com que são criados.

São jogos desenvolvidos com menos recursos e num curto espaço de tempo. A possibilidade que passem alguns "bugs" é maior, mas sobretudo são jogos com um menor poder de explosão. FlatOut 4: Total Insanity, da mesma Kylotonn que agora recuperou V-Rally, acabou por ficar aquém das expectativas, com vários problemas, sobretudo ao nível da performance e da física, que impediram um regresso mais condizente com o passado da franquia.

No caso de V-Rally 4 estamos perante um regresso bem mais feliz. Ainda que não seja um jogo tão valioso como as recentes incursões da Codemasters no universo "off-road", a verdade é que não lhe fica muito atrás. V-Rally 4 revela-se como uma experiência multifacetada, mas sobretudo assegura um bom desempenho. Visualmente é um jogo bastante aceitável, com pormenores e bons detalhes nas pistas onde tem lugar a competição, enquanto que a condução dos veículos é muito satisfatória, com diferentes impressões consoante os carros à disposição.

"V-Rally 4 revela-se como uma experiência multifacetada, mas sobretudo assegura um bom desempenho"

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As provas de extreme-kahna requerem mais precisão e um óptimo controlo do carro.

Num Porsche 911 GT3 de rali é mais difícil controlar a elevada potência do carro no asfalto, enquanto que a bordo de um clássico como um Ford Escort, a frente é incisiva mas a traseira quase sempre quer dançar. Já num carro de montanha (hillclimb), carregado de "downforce" - normalmente com um spoiler traseiro bastante generoso -, a direcção é um pouco mais dura, acompanhada por uma aderência ao asfalto superior. Em todos os casos, a física e a ligação do carro ao asfalto, ou à terra, deixam muito boas impressões, sinais indicadores de uma experiência que se constrói de fonte segura.

V-Rally 4 distingue-se pelas várias categorias de competição: ralis, extreme-kahna, hillclimb, v-rallycross e buggy. A primeira opção é a mais tradicional do mundo dos ralis, através de etapas de classificação cronometradas ligando normalmente dois pontos afastados de um mapa. As especiais estão distribuídas por vários continentes, das montanhas rochosas norte-americanas de Monument Valley, até às paisagens luxuriantes japonesas. Há uma grande variedade de locais e horários, pelo que tanto podem disputar uma especial de manhã ou ao final do dia, sob um belo pôr-do-sol. Estas classificavas são algo longas, compostas por vários sectores a partir do quais podemos observar a progressão e ter uma percepção do nosso andamento face aos melhores tempos.

Nos diferentes tipos de provas estão associados determinados veículos, entre carros das marcas que competem no mundial de ralis e nos nacionais, bem como os clássicos, com destaque para os veículos da Lancia dos anos oitenta e noventa. Embora não seja uma lista muito extensa, é justo referir que compreende imensos carros clássicos (Renault 5 Turbo, Alpine, Porsche 911 Safari, Ford Escort, Mini, entre outros). Estes carros têm comportamentos diferenciados pelo que urge adaptar o estilo de condução.

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A sensação de velocidade é boa e a condução é bastante gratificante, qualquer que seja a categoria.

Passando ao extreme-kahna, entramos num âmbito de provas de slalom e velocidade, contornando obstáculos e realizando uma série de proezas como se fossem o sucessor de Ken Block. O objectivo passa por serem rápidos mas precisos, efectuando drifts e outras proezas ao volante para o puro espectáculo enquanto deleitam a audiência, cumprindo assim as instruções solicitadas. O hillclimb é a típica subida de montanha (ou feita ao inverso a descer, aumentando a perigosidade - downclimb). Nestas provas não têm co-piloto pelo que terão que memorizar as curvas. A luta faz-se mais uma vez contra o cronómetro.

Por fim, o v-rallycross é o típico rali cross, que vos deixa correr em circuito fechado com mais adversários ao longo de cinco voltas, tendo que cumprir a volta joker (percurso alternativo). Já a opção "buggy" coloca-vos aos comandos dos pequenos e velozes karts de quatro rodas, muitos de poderosa tracção, sobretudo em pisos de terra batida, onde é mais fácil colocar um veículo em drift. Em termos de variedade e opções, V-Rally 4 cataloga uma série de provas "off road" bastante consistentes, apelando a diferentes estilos de condução.

Muito embora seja possível desfrutar destas provas em quadro aberto, seleccionando respectivamente o ponto no mapa mundo onde a prova tem lugar através da corrida rápida, é possível desfrutar desta diversidade de corridas partindo do modo carreira. Começarão, obviamente, por veículos limitados, de pouca potência e velocidade, mas assim que disputarem mais provas, não só vão ganhar mais dinheiro (pelos prémios acumulados) como vão contar com imprescindíveis patrocinadores, favorecendo o vosso ímpeto pelas corridas, podendo alargar a garagem.

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Nos ralis as notas do navegador são cruciais para uma condução mais eficaz.

A aquisição dos carros é complementar e imprescindível para prosseguirem a carreira com sucesso. O desafio seguinte está em contratarem mecânicos (para as reparações) e engenheiros (para o desenvolvimento do carro). Isso acarreta um custo, uma folha salarial de base semanal, pelo que terão que gerir eficazmente o orçamento. A participação nas provas também implica o pagamento de uma taxa, mas o retorno é muito superior se atingirem os objectivos propostos.

A evolução na carreira é relativamente simples e linear, sem grande profundidade ou opções menos comuns. Ao fim de poucas horas conseguem desbloquear todas as divisões de competição, embora tenham sempre um poder de escolha sobre o sentido da vossa carreira. Em suma, não é nada de muito profundo, mas estabelece uma boa base de liberdade, e um sentido de progresso rápido.

No tocante à condução, V-Rally 4 não desaponta. É até entre os jogos de automóveis de menor orçamento, o mais competitivo e interessante. A cadência de fotogramas por segundo é muito consistente e raramente se verificam quebras. Graficamente fica bastante aquém de um Forza Horizon ou Gran Turismo Sport mas já não anda longe do grafismo visto, por exemplo, em Driveclub. Por momentos lembra até Motorstorm, e até supera Gravel, sobretudo na qualidade dos cenários, mais detalhados, com belíssimas paisagens em fundo. No Japão, as folhas das árvores deixam um rastro no ar à passagem dos veículos. Os efeitos do pó, sujidade e partículas também estão bem conseguidos. Já os danos causados pelos acidentes podiam ser mais rigorosos, não sendo tão visível o efeito de destruição em colisões aparentemente severas.

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Monument Valley, um dos parques naturais incluídos nesta viagem através dos continentes.

Em conclusão, V-Rally 4 é um regresso digno, capaz de colher as expectativas traçadas para um jogo de orçamento reduzido. A Kylotonn não é propriamente um estúdio que trabalhe com grandes "budgets", mas já demonstrou em jogos como TT Isle of Man e até mesmo a série WRC, que dispondo dos meios, a experiência chega para construir jogos de piscar o olho. Embora com algumas limitações na maioria dos elementos que compõem a experiência, V-Rally 4 demarca-se pela diversidade de provas e contextos de competição automóvel.

É o seu melhor, um jogo capaz de cumprir com o que se espera de um jogo "off road"; imensos carros, uma boa sensação de condução e cenários bem conseguidos. Falta-lhe aquele tratamento adicional, tanto nos visuais como na jogabilidade (eliminando alguns bugs que a seu tempo acabarão por ser revistos), mas nem por isso deixa de proporcionar bons momentos e uma sensação agradável de retoma dos jogos arcade dos anos noventa.

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Sobre o Autor

Vítor Alexandre

Vítor Alexandre

Redator

Adepto de automóveis é assim por direito o nosso piloto de serviço. Mas o Vítor é outro que não falha um bom old school e é adepto ferrenho das novas produções criativas. Para além de que é corredor de Maratona. Mas não esquece os pastéis de Fão.

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