Spider-Man - Análise - Renova os teus votos

O melhor jogo do Spider-Man jamais feito.

Depois de longos anos sem qualquer novidade, Spider-Man está finalmente de volta aos videojogos e logo pelas mãos da Insomniac Games - talentoso estúdio que te trouxe séries como Spyro, Ratchet and Clank, Resistance e Sunset Overdrive. A Insomniac é conhecida pelo seu bom humor, gadgets loucos, visuais incríveis e gameplay divertido - basicamente um casamento perfeito com o Spider-Man. A Marvel e a Sony também pensaram nisso e, em perspectiva, temos a receita perfeita para alcançar um patamar nunca antes conseguido por um jogo do Spider-Man.

Se cresceste com a cabeça mergulhada nos comics do Spider-Man, passaste certamente a tua vida a sonhar com adaptações para videojogos, procurando combinar duas grandes paixões. Isso aconteceu frequentemente, mas nem sempre com os resultados esperados. Ficava sempre a sensação que era preciso mais do que um gameplay fiel que te deixava baloiçar de teia em teia.

A Insomniac percebeu isso e canalizou todo o seu encanto pela personagem para glorificar tudo o que representa Spider-Man, entregando-te um jogo que desfruta da actual tecnologia para combinar narrativa, gráficos e gameplay como nenhum outro antes conseguiu.

Ser fã de Spider-Man é desfrutar das suas vitórias, vibrar com os seus combates, rir das suas tiradas cómicas quando está assustado e ficar incerto se conseguirá vencer. Mas também é pensar em 'como conseguiste estragar isto?', lamentar a forma como a vida de super-herói interfere com a sua vida normal - com a vida de Peter Parker. Este é o lado humano da narrativa de um super-herói, um lado explorado há mais de 50 anos nos comics e que faz eco com qualquer adolescente ou até adulto. É o lado humano de Spider-Man que sempre nos agarrou, o aspecto terra-a-terra que nos faz sentir que podíamos ser nós no seu lugar.

Nenhum outro super-herói consegue conciliar o drama e desventuras do quotidiano com as emoções do combate ao crime contra super-vilões quanto Peter Parker e Spider-Man, os dois lados da mesma moeda. Esse foi mesmo um dos grandes e inesperados focos para a Insomniac Games e faz toda a diferença na forma como este Spider-Man te vai marcar. A Insomniac Games não seguiu a rota fácil, não optou por um qualquer evento apocalíptico que te deixa baloiçar de teia em teia. A Insomniac recorreu a Peter Parker para solidificar a sua versão como o melhor Spider-Man de sempre nos videojogos.

"A inesperada presença do lado humano numa história de super-heróis resulta e torna-o superior a qualquer outro que tenha vindo antes."

Narrativa no ponto e visuais de espantar

A possibilidade de jogar segmentos com Peter Parker é altamente importante para te introduzir no seu mundo, mas também é um bom exemplo do cuidado que a Insomniac prestou à narrativa. Poderá ser a maior surpresa para muitos, perceber que a narrativa é um dos maiores valores e que este Spider-Man imaginado pela Insomniac tem imensa qualidade. Este Spider-Man já veste o fato há imensos anos e não terás aqui uma história de origem - este é um Peter Parker de 23 anos que trabalha como cientista. Serás introduzido na vida dele a meio de vários acontecimentos que traçam uma ponte entre passado e futuro.

O passado mostra que persegue Fisk há imenso tempo, que não fala há meses com Mary Jane, e que a Tia May trabalha na F.E.A.S.T., um centro dedicado à ajuda de pessoas sem apoios, gerido por Martin Li. Pelo meio, trabalha com Yuri Watanabe da polícia de Nova Iorque para ajudar a combater o crime - enquanto Jonah Jameson cospe na rádio barbaridades sobre os seus feitos. Tudo muito diferente, muito específico, mas ainda assim relacionável, credível, uma versão original, mas que ainda assim mostra uma incrível compreensão que faz os fãs ficarem maravilhados com esta personagem.

Não partilharei quaisquer spoilers, não mereces que o faça. Vou-te dizer que a narrativa, seguir a história deste Spider-Man, foi um dos momentos mais espectaculares desta geração. A Insomniac acerta em cheio e até vais mais longe quando te deixa jogar com Mary Jane, em secções puramente focadas no stealth. Este é mais um elemento que reforça a vontade da equipa em ir mais além, de apostar no lado humano, o lado que sempre fez a diferença nos comics de Spider-Man e de agora em diante, qualquer jogo do aranhiço será comparado a este.

Este foco narrativo e a necessidade de introduzir um ambiente em mundo aberto certamente causou grandes desafios à Insomniac, mas é espantoso ver que conseguiram. Visualmente, Spider-Man é fantástico e sim, se no meio da diversão parares para esmiuçar os visuais, encontrarás muitos detalhes que não estão à altura do resto, mas na maioria do tempo, quando estás imerso na experiência e lá em cima nos céus, prepara-te para ficar encantado.

É essa capacidade para te colocar no lugar de Peter Parker que te surpreenderá, o lado humano, mas os visuais asseguram-se que o lado fantástico também triunfa. Uma gestão cuidada, um equilíbrio sensível, que mostra a Insomniac numa postura ambiciosa.

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"A Insomniac merece parabéns pelos espantosos visuais e pela autenticidade, provando que conhece e gosta do personagem tanto ou até mais do que tu.

Acrobacias e gadgets de fazer sorrir

Se nas componentes narrativa e gráfica a Insomniac alcança a excelência, na grande maioria dos elementos de suporte no que diz respeito à recriação de Spider-Man, também consegue bons resultados. Falo dos fatos, dos gadgets, das skills e, acima de tudo, do acrobático e energético sistema de combate. Na sua ambiciosa tentativa de recriar em forma de videojogo um comic do Spider-Man, a Insomniac precisou de mais do que um narrativa envolvente, precisou de um mundo aberto onde pudesse combinar em perfeita harmonia no gameplay as diversas facetas do personagem.

A Rocksteady Studios já havia demonstrado ao mundo em que os super-heróis podem ser inspiração para produções de grande qualidade nos videojogos, usando Batman para abrir caminho para outros. Spider-Man da Insomniac parece ser o primeiro "filho" dessa imponente tarefa iniciada pela Rocksteady. Spider-Man precisa mais do que um bom sistema de baloiçar entre teias e parkour extremamente fluído - é necessário um sistema de combate frenético, dinâmico, acessível de forma ininterrupta a partir de qualquer ponto do baloiço ou salto.

A inspiração veio mesmo da série Arkham de Batman e Spider-Man apresenta-te um esquema altamente similar. O estilo acrobático deste super-herói, conciliado com o sentido aranha, permite-te desviar no momento certo e contra-ataque, deixa-te aplicar devastadores golpes finais e apresenta-te diversos tipos de inimigos que vão desafiar a tua capacidade em manter o combo golpe após golpe.

Tal como Batman, Spider-Man contará com os seus diversos gadgets (desde teias eléctricas, drones que enviar dardos eléctricos, passando por teias armadilhadas ou mais fortes), sem esquecer que cada fato novo abre acesso a uma nova habilidade (punhos eléctricos, clones para atacar contigo, braços adicionais que atacam ou simplesmente uma maior velocidade na barra de foco para mais finishers). A estes dois elementos, juntam-se as skills, uma árvore de habilidades dividida em três partes, repleta de novas e importantes habilidades - adquiridas com pontos ganhos ao subir de nível.

Sendo um jogo focado na narrativa, não te precisas preocupar em ganhar XP e subir de nível, apenas se quiseres uma habilidade ou fato específicos - para isso, a Insomniac incentiva-te a perder mais tempo nas tarefas opcionais pois todos os elementos estão de mão dada e apoiam-se. Precisas de um nível específico para desbloquear um fato, mas ainda assim precisarás de tokens das tarefas opcionais para os fabricar.

É a grande fluidez dos movimentos, a capacidade de a qualquer momento atacar, que dão autenticidade e naturalidade. Parece fácil, mas não foi. O sistema de combate é muito dinâmico, repleto de acrobacias e os diferentes inimigos forçam-te a experimentar vários movimentos. O foco nos combos e na espectacularidade acrobática visual fizeram a Insomniac encadear diversos movimentos, mas ainda sobrou espaço para stealth.

Ao invés de entrar na cena de pé em riste, pronto para um takedown e já com a teia apontada para te lançares sobre o próximo inimigo, podes optar por ficar mais acima do adversário, criar distracções e apanhá-los numa teia sem alertarem ninguém. Apenas o podes fazer em algumas situações ou se abordares a zona dos inimigos das alturas. É um abordagem mais lenta e diferente, mas muito bem-vinda. O mais divertido em Spider-Man é mesmo poder cobrir rapidamente grandes distâncias até ao inimigo com a teia, colá-lo a uma parede após um combo, roubar-lhe a arma e atirá-la contra ele, desviar no momento certo indicado pelo sentido de aranha para um belo efeito, cobrir um rufia de teias para o agarrar e rodopiar pelo ar.

Todos esses pequenos pormenores que dás por garantido parecem naturais, mas revelam uma grande atenção aos detalhes que poucos conseguiram entregar. Só é pena que a elevadíssima quantidade de crimes que acontecem pela cidade tornem a experiência um pouco repetitiva e, após algumas horas, banalizem o sistema de combate, mas isso é algo que está relacionado com as exigências de um mundo aberto.

Spider-Man exige um mundo aberto, o que exigiu muito da Insomniac

Criar um jogo de Spider-Man obriga à criação de um mundo aberto que podes percorrer ao estilo acrobático do personagem. O sistema de balançar e correr pelos edifícios (o parkour), é sublime e, com algumas raras excepções que mais parecem bugs, percorres Manhattan com uma fluidez que torna o gameplay altamente divertido. Alcançar esta aparente naturalidade no que se espera dos movimentos de Spider-Man não deve ter sido fácil, mas a Insomniac conseguiu. Onde poderás sentir que não conseguiu em pleno é na gestão do seu mundo aberto, que por mais divertido seja de percorrer, perde algum fulgor devido à repetição de tarefas opcionais.

Ao longo das cerca de 35 horas que precisei para deixar Manhattan a 100% - cumprindo todas as tarefas opcionais, adquirir quase todos os fatos, todos os gadgets e todas as skills, apenas senti que um ponto da experiência não está à altura do resto: o mundo aberto. A Insomniac focou-se na narrativa e na forte sensação de imersão no papel de Spider-Man e consegue fazer-te sentir que estás perante algo digno dos melhores comics. No entanto, sendo um jogo de Spider-Man, teve de criar um mundo aberto - com todos os requisitos que isso exige.

A fluidez de movimentos torna fácil realizar a grande maioria das tarefas e somente os desafios lançados por uma certa personagem são realmente desafiantes. Ainda assim, a maioria dos crimes são uma repetição das mesmas situações, contra os mesmos adversários, em três grupos diferentes, deixando Spider-Man susceptível a tornar-se repetitivo e sem a mesma energia que encontraste nas missões da história.

De qualquer das formas, a Insomniac não aposta na recolha infindável de coleccionáveis apenas para te manter ali porque sim, isso não seria saudável para a experiência. Spider-Man sente-se equilibrado e na maior parte do tempo incrivelmente divertido - apenas peca pela qualidade das tarefas opcionais. Mas como referido, a Insomniac não te obriga a nada e se assim desejares, podes concentrar-te na história, o verdadeiro trunfo deste jogo e que te vai encantar.

Um triunfante épico narrativo

Por isso sim, prepara-te para renovar os teus votos de confiança nos videojogos de Spider-Man. A Insomniac mostrou um incrível talento na criação de um universo original, inspirado nesse icónico universo da Marvel Comics e o melhor de tudo é que facilmente vês que existe aqui pano para mangas. Se te focares quase exclusivamente na história, desfrutarás de um jogo verdadeiramente épico, que honra esta personagem que acompanhas desde criança e ficarás impressionado com a qualidade gráfica alcançada.

As tarefas opcionais em mundo aberto não revelam o mesmo engenho e cumprem meramente o propósito para quem quer passar mais tempo aqui. No entanto, não és a momento algum obrigado a executá-las e o peso da história, da recriação tão autêntica e fiel do mundo do Spider-Man, é muito mais preciosa. A simbiose entre qualidade gráfica, narrativa e gameplay está perto de roçar a perfeição - imagina o que podem fazer numa sequela!

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Sobre o Autor

Bruno Galvão

Bruno Galvão

Redator

O Bruno tem um gosto requintado. Para ele os videojogos são mais que um entretenimento e gosta de discutir sobre formas e arte. Para além disso consome tudo que seja Japonês, principalmente JRPG. Nós só agradecemos.

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