Depois da pausa de verão (entre o Grande Prémio da Hungria e o GP da Bélgica medeiam três semanas), a Fórmula 1 regressa à competição habitual, terminando só em Abu Dhabi, perto do final do ano. Contudo, é após umas merecidas férias e no regresso à luta em pista que a Codemasters apresenta F1 2018 com a licença das entidades envolvidas na maior competição automobilística, especialmente a Liberty Media. A editora britânica encontra uma especial oportunidade para suscitar o interesse dos fãs deste desporto motorizado justamente quando se concentram as atenções depois de gozado o merecido descanso.

Tem sido assim nos últimos anos, optando por lançar agora F1 2018, quando a temporada de F1 vai a meio e não no seu começo, habitualmente no mês de Março. De resto este é também um tempo de alinhamento das equipas, de definição dos pilotos para a próxima temporada. A denominada dança das cadeiras ganha um especial relevo nesta altura e o ponto mais sonante até ao momento é a saída de Fernando Alonso da Fórmula 1, que após 17 anos de intensa actividade, acumulando vitórias e dois campeonatos do mundo, decide colocar um ponto final nesta competição.

F1 2018 representa por isso o último jogo no qual poderão jogar com o espanhol natural das Astúrias, assim como encontrar Daniel Ricciardo na Red Bull, que já tem contrato com a Renault para a próxima temporada. Mas se estas mudanças só produzem efeito a partir do final da presente temporada, em tudo encontram a devida representação, com destaque para os sempre tentadores novos circuitos. Não são propriamente sonantes novidades, uma vez que o GP da Alemanha já esteve presente noutras edições, e Paul Ricard é um traçado com muitos anos, tendo já feito parte do campeonato do mundo, mas só este ano foi reintegrado no mundial como GP de França. De resto trata-se de uma pista com um layout invulgar, que merece a pena ser testado.

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F1 2018 é lançado por ocasião do GP da Bélgica, a prova 12 das 20 que perfazem a temporada.

Mas a actual temporada de F1 produziu ainda mais novidades, muitas delas importantes. Os novos regulamentos produziram grandes alterações ao nível do chassis, afectando a largura do carro. Os pneus de maiores dimensões melhoraram a aderência e os motores foram alvo de grandes inovações. Tudo somado resultou num aumento de velocidade média por volta, com os pilotos mais rápidos a estabelecerem sucessivamente as voltas mais rápidas das pistas por onde passa a caravana, alguns recordes com mais de 10 anos. Estes são os F1 mais rápidos da história da modalidade. Menos ruidosos mas os mais lestos a negociar as curvas.

Após um primeiro contacto é imediata essa sensação de velocidade adicional. Não que a velocidade de ponta seja muito maior. É na aceleração entre as várias engrenagens e a aderência suplementar que por vezes se acumulam preciosos segundos. A percepção de velocidade adicional e uma absoluta fluidez são imediatas, em especial nos circuitos onde os muros e os rails de protecção estão mais próximos, como no Mónaco ou no Canadá.

A jogabilidade parece também reflectir as alterações, revelando-se mais equilibrada, embora seja elementar referir que F1 2018 é um jogo de tendência arcade, com pontos e algumas derivas para a simulação quando jogado na máxima amplitude e dificuldade, isto é, com os danos ligados no máximo, desgaste dos pneus, sem assistências e temperaturas da pista. São factores que a Codemasters renova a cada ano e por isso esta edição pode causar a impressão da manutenção da jogabilidade, que em grande parte deriva da edição passada. Os jogadores pro poderão sempre disputar o modo carreira no grau de dificuldade máximo, uma experiência muito próxima das sensações vividas por um piloto.

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Será a última edição que conta com Fernando Alonso, que já anunciou a sua saía depois do GP Abu Dhabi.

O modo carreira é, mais uma vez, crucial em F1 2018, sendo a opção mais profunda e consistente, capaz de garantir uma grande longevidade, só comparável com sessões multiplayer ao nível da participação numa comunidade dedicada. A Codemasters há vários anos que passou a desenvolver de forma bastante assertiva e fiel os rostos dos pilotos que militam a disciplina, capturando os momentos essenciais de um GP, como se de uma transmissão televisiva se tratasse. É uma óptima forma de promover autenticidade, sentir que os rivais existem e são aqueles que passam na televisão, a começar pelo colega de equipa.

O paddock regressa assim na sua máxima extensão, com as motorhomes, o pessoal da equipa, engenheiros e toda uma preparação para os grandes prémios. Aqui há duas opções: jogar num modo rápido, tornando a qualificação num disparo de uma só volta e a corrida reduzida a meia dúzia de voltas. Claro que os parâmetros do fim de semana são reguláveis. A alternativa passa pelo modo Pro, indicado só para os mais experientes. O objectivo passa por garantir pontos e estabelecer o cumprimento de metas predefinidas. Há muito trabalho a fazer numa sessão de treinos. O desenvolvimento do carro é essencial, com bónus e pontos a distribuir por secções em desenvolvimento. Da aerodinâmica, ao motor, tudo é melhorável. Estes processos são bastante realistas e na verdade muitos deles derivam das edições passadas, o que torna as sessões de treinos mais divertidas, para além da melhoria ao nível da pilotagem.

Com tantas câmaras apontadas aos pilotos, como que ansiosas por feedback, regressam os jornalistas para as perguntas rápidas no final de uma corrida. Não é uma novidade de monta, embora as respostas possam surtir diferentes efeitos, antevendo-se logo à partida. No caso de um piloto sempre directo e mais temperamental como Alonso, por exemplo, a sua posição na equipa nunca está em causa. Por isso será fundamental ganhar experiência, obter títulos e subir para as melhores equipas, onde o nível de competição é mais elevado. A possibilidade de mudar de equipa a meio da temporada é uma possibilidade, desde que os resultados determinem as negociações com outras equipas, interessadas num piloto-talento.

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O regresso dos clássicos amplia as escolhas e promove uma comparação entre o actual momento da disciplina e o passado.

De um modo geral, as alterações no modo carreira não são muito significativas, sendo que grande parte da sua estrutura deriva precisamente das edições anteriores. Contudo, ao juntarem as entrevistas e acrescentarem pequenas funcionalidades e uma revisão da apresentação, consistência é talvez a palavra que melhor define o jogo de automóveis que melhor uso dá a uma licença, até ao momento.

Contudo, é na pista que tudo se decide, mais uma vez. A julgar pelas alterações implementadas no novo regulamento, a Codemasters perece ter replicado com sucesso a maior velocidade média dos monolugares. Fluidez, velocidade e qualidade visual são alguns pontos que mais se destacam, a juntar a uma já sólida condução, que desta vez se mostra mais incisiva, fruto da maior aderência do carro, proporcionada pelos pneus mais largos. Curiosamente, essa sensação de velocidade adicional, a juntar ao famoso halo que este ano passou a vigorar como "indumentária" adicional (diz a FIA que é para proteger a cabeça do piloto) dos bólides, formatando a imagem, torna as corridas ainda mais dramáticas, num pelotão que rola a velocidades incríveis, faiscando nas zonas mais onduladas, onde o fundo plano raspa o asfalto. A suspensão nunca esteve tão activa.

Há cenários de elevada beleza, sobretudo nas corridas disputadas no momento em que o sol está quase em sintonia com o horizonte. A luminosidade é melhor e a descrição dos carros é muito assertiva. Contudo, ainda muito pode ser feito a fim de se alcançar um efeito mais cinematográfico e dramático quando ocorrem acidentes e perdas de controlo dos carros, como é visível a partir de uma transmissão televisiva. Dos adversários nunca se pode esperar por facilidades. A regulação ampla do nível de inteligência artifical permite mais nuances, mas a posição em pista será decidida até à última porta que se fecha e por vezes mesmo com esta fechada, só uma travagem brusca ou perda de controlo do carro evita males maiores.

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O modo carreira é profundo, oferecendo uma perspectiva muito assertiva da vida de um piloto e da pressão de resultados a que está sujeito. Visualmente F1 2018 é muito bonito.

As penalizações são constantes, e nem mesmo os pequenos toques ou saídas dos limites da pista, por vezes mínimos, são tolerados. E muitas vezes isto acontece por erros provocados pelos pilotos controlados pelo computador. Contudo, a realidade das corridas revela que este tipo de situações é muito frequente e que até os melhores falham. Com o regresso do sistema de recuperação de energia (o ERS), é possível em determinadas zonas da pista canalizar este fluxo adicional de potencia para as rodas, ganhando velocidade extra. A gestão desta opção, ao longo da prova, permite a sua utilização a todo o instante, mas reza a prudência que fará sentido reservá-la para as situações de ultrapassagem, quando segue à frente um adversário complicado.

Se a presente temporada de F1 nos mostra os carros mais rápidos e equilibrados em pista, a Codemasters achou por bem juntar alguns dos grandes clássicos à já grande garagem, entregando uma lista de opções bem aprazível, pondo-os em ponto de comparação. Desde o antigo Lotus 72D (1972) até ao Red Bull de 2010 encontram-se carros inesquecíveis, sobretudo um bom conjunto de Ferraris, tripulados por Schumacher e Kimi Raikkonen, a juntar aos McLaren, Williams e o famoso Brawn GP que em 2009 arrecadou surpreendentemente o título de campeão pelas mãos de Jensen Button. Com eles podemos escutar os velhos motores V10 e alguns dos ruídos que perduram pelas memórias de quem acompanhou a F1 nos loucos anos noventa e até no novo milénio. Mas os bólides da presente temporada são igualmente marcantes e ocupam já um lugar de relevo na história da modalidade.

Em termos de opções e outros modos de jogo, o destaque vai para as provas semanais, através de contextos e situações de corrida, assentes em objectivos que passam por recuperar determinada posição em condições adversas ou até mesmo ganhar uma corrida. Mudando de piloto e carro, é uma boa opção para uma entrada rápida num contexto de prova. Os "time trials" constituem uma excelente forma de adaptação à pista, e competição, com as sempre apelativas tabelas de classificação em fundo. No resto é um pouco mais do mesmo (Grand Prix), infelizmente sem grandes mudanças, excepto no quadro multiplayer, no qual passa a estar mais vincado o perfil do jogador e o seu temperamento em corrida, havendo uma pontuação para a performance e pelo desportivismo.

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As condições atmosféricas exercem um papel importante nas corridas. A dinâmica cria uma espécie de incerteza até à volta final.

A apresentação está no ponto, fruto de uma colaboração cada vez mais frutuosa com a Liberty Media, uma empresa americana que gere a competição de uma forma mais aberta ao público e compreensiva, percebendo que há muito para fazer a fim de atrair as novas gerações e que o respeito pelos videojogos e pelo magnífico trabalho da Codemasters nos últimos anos, deixa efeitos positivos na modalidade, uma situação que é de win-win para produtores do jogo e promotores da F1.

Há vários anos que a série F1 é a que melhor aproveitamento faz de uma licença de desporto automóvel e motorizado. F1 2018 é o mais recente numa série da Codemasters que revela consistência e uma evolução bastante madura. Numa temporada de significativas alterações ao nível dos monolugares - os mais rápidos da história da F1 - a produtora inglesa revelou ser capaz de acompanhar essas modificações, mostrando um jogo que transmite melhor a garra em pista dos novos carros e o sempre inevitável factor dramático, provocado por uma colisão, uma saída de pista, um furo, uma chuva anunciada no radar meteorológico.

Ainda há margem para tornar melhor sobre F1 2018, eventualmente definindo um rumo em torno de um maior realismo, embora a Codemasters nunca tenha perdido de vista uma experiência de condução bastante transversal, capaz de permitir um divertimento rápido e imediato e também uma experiência mais próxima da realidade e também mais exigente.

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Sobre o Autor

Vítor Alexandre

Vítor Alexandre

Redator

Adepto de automóveis é assim por direito o nosso piloto de serviço. Mas o Vítor é outro que não falha um bom old school e é adepto ferrenho das novas produções criativas. Para além de que é corredor de Maratona. Mas não esquece os pastéis de Fão.

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