É por demais sabido que a consola Wii U ficou muito abaixo das expectativas traçadas pela Nintendo depois do sucesso gigantesco que foi a Wii. Apesar da performance aquém do esperado, é unânime entre a comunidade gamer que a Wii U recebeu um grande apoio da própria Nintendo, com imensas produções exclusivas marcantes, entre as quais se encontra Donkey Kong Country Tropical Freeze, a continuação de Donkey Kong Country Returns, criado pela mão do famoso Retro Studios, o estúdio interno da Nintendo que foi capaz de revitalizar o famoso símio, uma personagem originalmente criada por Shigeru Miyamoto. Anos a fio subalternizado no plano de mediatismo que é normalmente dado a Super Mario, especialmente depois do magnífico trabalho realizado pela Rare, tanto na Super Nintendo como na Nintendo 64, o Retro Studios quis demonstrar que nem só a linha New de Super Mario (a continuação dos clássicos 2D) é a referência da Nintendo no género plataformas 2D.

Arredado das luzes da ribalta, a personagem de Donkey Kong Country conheceu uma revitalização importante com o lançamento dos dois jogos, primeiro para a Wii e depois para a Wii U. A Rare vincou um design muito genuíno, em conjugação com uma jogabilidade eficaz e desafiante. Após a venda da Rare à Microsoft pensou-se que esse level design estaria em perigo, mas o Retro Studios pegou com convicção na produção para a Wii e produziu um regresso assinalável em Donkey Kong Country Returns.

Foram preservados importantes elementos, como a perspectiva 2D e a jogabilidade clássica. O nível de produção acentuado garantiu um jogo de plataformas consistente e desafiante. Algum tempo depois, já com a Wii U em cena, a Retro Studios voltou com Tropical Freeze, uma obra que suplantou em todos os capítulos a anterior, demonstrando a habilidade do estúdio na produção dos mundos 3D (já o demonstrara com a série Metroid Prime), embora com perspectiva 2D, integrada no género plataformas. Jogos deste calibre não são muito comuns actualmente, embora mais produtoras estejam dispostas a arriscar em prol do crescimento de factores como a nostalgia.

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Com uma prancha de surf fica claramente mais fácil quando controlam Funky.

Embora não se possa dizer que Tropical Freeze seja um jogo demasiado bom para a consola para a qual fora lançado, a Nintendo procura recapitalizar o "investimento" que fizera com ele numa consola com maior penetração no mercado. Neste segundo ano de Switch, avolumam-se os remasters na híbrida da Nintendo. Alguns já chegaram e outros seguir-se-ão, uma tendência que deverá manter-se nos próximos tempos.

Originalmente publicado em 2014, Tropical Freeze permanece ainda hoje como um óptimo cartão de visita do Retro Studios. Um jogo primordialmente assente em coordenadas como jogabilidade, design, música, ritmo e desafio. Não integrando um género muito em voga, os seus atributos ainda ostentam grande visibilidade e peso assim que voltamos a desbravar os seus seis mundos, mesmo que isso aconteça quatro anos depois. Valerá apena, nesta excursão, lerem a nossa análise original, ficando logo aí com uma ideia mais profunda do impacto que o jogo causou na altura. Se só agora podem experimentar esta obra, dificilmente ficarão desapontados, já que para qualquer fã de plataformas permanece como um jogo extremamente desafiante, limpo e dotado de uma estética muito vibrante.

A Rare conseguiu revitalizar a série depois de um bem sucedido DKCR, renovando o level design mas sobretudo acrescentando uma série de mecânicas e processos especiais de interacção. A invasão dos "snowmads" (uma tribo nórdica inspirada nos vikings) é o pretexto para a renovação da estética dos novos mundos, para lá dos novos "bosses" e uma série de elementos incorporados pela primeira vez. Enquanto que o jogo da Wii se baseava em terreno sólido, correspondendo ao esperado por via da recuperação de muitos elementos da série, Tropical Freeze reforça o factor interacção, com níveis mais longos e repletos de desafios especiais, armadilhas, plataformas e adversários mais pontiagudos, colocados cirurgicamente de molde a obstaculizar a nossa progressão.

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Podem sempre jogar com Donkey Kong e experimentar o jogo no seu desafio original

O resultado disto é um jogo bem desafiante e tentador do ponto de vista da superação, obrigando-nos a um esforço suplementar na transição para mais uma ilha. A animação é perfeitamente fluida e as cores exuberantes dos primeiros níveis algo tropicais contrastam com o caos sublinhado a negro ou cenários destruídos que se seguem, sempre com uma elegância artística, por vezes bastante superior a New Super Mario Bros U. Encontrar todas as letras da palavra Kong, todas as peças de um puzzle, todas as bananas e "power ups" é um digno desafio que se junta ao barril tipo foguetão, com o qual sobrevoamos algumas áreas, não esquecendo as secções submarinas ou quando avançamos com o apoio de alguma personagem suplementar, nomeadamente Diddy Kong (sobrevoamos largos espaços), Dixie Kong (usa os cabelos como hélice) e Cranky Kong (usa a bengala num processo similar ao do Tio Patinhas em Duck Tale). Os níveis percorridos sobre o vagão são igualmente memoráveis.

As personagens adicionais acabam por contribuir de uma forma ou de outra para superar certos obstáculos, que se renovam e modificam sempre que avançamos para um novo nível. Do género montanha até ao tipo savana, a conjugação de ambientes tão distintos ganha especial significado na gestão dos obstáculos. E não podemos deixar de mencionar os chefes de nível, alguns bem duros de roer. Desse ponto de vista, Tropical Freeze continua como um jogo desafiante, uma opção a eleger pelos fãs mais acérrimos da série, com toda a sua escala de dificuldade.

Já os mais novos poderão começar por jogar através do modo Funky. Uma opção que concede uma nova personagem. Controlando este primata - Funky - o jogo torna-se num passeio primaveril e onde antes encontravam um desafio e por vezes um castigo para a falta de precisão, reside um desafio minimalista. A sua "leveza" de movimentos é quase uma tentação para os "time trials", as corridas vertiginosas até meta, asseguradas pelo duplo salto que muda quase tudo o que conhecíamos como elementar. Será fácil lograrem as letras e as peças do puzzle, mas sublinhe-se que esta é uma opção e não um regime obrigatório. Um pouco na senda de outras séries, a Nintendo volta a gerir o patamar de dificuldade, tornando o jogo francamente acessível para quem não tenha grande jeito com as plataformas ou esteja simplesmente a jogar numa consola pela primeira vez.

Para um jogo que entra no quadro dos "remasters" ou "relançamentos", a adição deste "funky mode" não é propriamente uma extensão em termos de conteúdo mas uma forma diferente de jogar, mais acessível e que por isso mesmo não será de tão sublinhado interesse por parte dos fãs da série. Nessa medida, tendo já jogado o original, esta versão não cataloga grandes novidades que poderiam justificar um preço reclamado por uma novidade, sendo esse talvez o ponto mais delicado. A Nintendo poderia solicitar um valor mais razoável e ajustado ao preço praticado pelos "relançamentos", tendo em conta que estamos perante um jogo com quatro anos.

Na realidade, o jogo mantém toda a estrutura do original, com algumas melhorias no campo da performance, nomeadamente o alcance dos 1080p quando a consola está pousada na estação ligada ao televisor. Outro aspecto significativo é a redução do tempo de carregamento, embora não seja muito óbvia ao fim de algum tempo de jogo. Os espaços de carregamento ainda são significativos, embora seja evidente uma assinalável redução. De resto o jogo acaba por se ajustar muito bem à natureza híbrida da consola, sendo muito interessante de jogar a partir do momento que passam para o modo portátil. Mencionar ainda o bom desempenho quando deslocados ambos os joy-cons para as mãos de dois jogadores, dando uso ao modo cooperativo. Tudo isto são pontos positivos na transição, uma versão que se perfila como a definitiva, mas que ainda é essencialmente o mesmo jogo de há quatro anos.

Tropical Freeze é um dos melhores jogos da Wii U, claramente um top 10, daí o interesse da Nintendo em "recapitalizar" a sua qualidade na Switch, encontrando uma nova margem de sucesso e ao mesmo tempo capaz de ir de encontro às expectativas e retorno traçados com o original. Como jogo de plataformas 2D, arvorado em imensos elementos clássicos, uma fluidez notável, bom level design, imensas músicas e uma componente rítmica assinalável, os predicados de sucesso desta obra do Retro Studios permanecem válidos, embora não apresente novos conteúdos e o "funky mode" seja sobretudo um tratamento no quadro da dificuldade de modo a levá-lo até junto da audiência mais juvenil, menos versada em jogos de plataformas. Parecem faltar incentivos a quem tenha já desfrutado do jogo na Wii U, mas se não é o vosso caso, esta obra paradisíaca é reconhecidamente garantia de divertimento.

Sobre o Autor

Vítor Alexandre

Vítor Alexandre

Redator

Adepto de automóveis é assim por direito o nosso piloto de serviço. Mas o Vítor é outro que não falha um bom old school e é adepto ferrenho das novas produções criativas. Para além de que é corredor de Maratona. Mas não esquece os pastéis de Fão.

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