Uma aventura agradável que retém as bases e algum carisma do original, mas não é um triunfo na adaptação aos tempos modernos.

O prospecto de um remake baseado num dos melhores jogos de role play da SNES tanto reaviva as memórias dos fãs como abre caminho a uma nova audiência, motivada pela curiosidade e burburinho, disposta a descobrir afinal o porquê dessa arca do tesouro. Publicado pela Square em 1993 para a SNES, Secret of Mana depressa se tornou num "hit", permanecendo até hoje como um dos jogos mais notáveis da consola 16 bit da Nintendo e um dos últimos urras em 2D antes da Square iniciar a cavalgada nas produções tridimensionais. O recente lançamento da consola em formato mini renovou uma oferta algo diluída no tempo e reposicionou o sentido estético e notável de Secret of Mana, seguramente top cinco da vintena de jogos disponíveis na clássica renascida da Nintendo.

A publicação do remake para o PC, PS4 e VITA, estreita por isso as ligações a um passado algo distante, realinhado recentemente com o presente por força da edição SNES Mini, deixando quase lado a lado um antes e um depois com 25 anos de diferença entre. Embora reconhecendo o mérito e o interesse em trabalhar num remake de um dos melhores jogos de role play da cena japonesa, a nostalgia é talvez o ponto mais delicado nesta reconstrução, na medida em que interfere inevitavelmente com as memórias e a forma como os fãs percepcionaram e absorveram a experiência. Uma nova apresentação é suficiente para baralhar a percepção.

A nota mais saliente na redescoberta de Secret of Mana é a passagem a três dimensões das áreas e personagens, a aquisição de profundidade e preenchimento, mesmo estando tudo no devido lugar, com destaque para um pequeno quadro superior direito que nos mostra o aspecto da área na sua configuração 16 bit. Há uma questão que nos invade permanentemente sobre este remake: qual o seu destinatário? Os fãs do original ou as novas gerações? Ou porque não ambos?! Parece ser esta a resposta da Square, remetendo assim o esforço deste desenvolvimento para uma zona ampla de interessados, de ligação entre os fãs e as novas gerações. Mas por muito que isso possa surtir efeito do ponto de vista da chama acesa de um jogo que marcou uma década e contribuiu para o sucesso de uma consola, provavelmente lidará com um entrave maior, a satisfação tanto das novas gerações como dos fãs.

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A perspectiva isométrica mantém-se, mas a produção está agora toda em 3D.

Só por si e sem qualquer ligação à obra original, Secret of Mana HD é suficiente para nos deixar conectados por umas boas dezenas de horas. O guião talvez não seja o mais interessante (é difícil ganhar a um Mother/Earthbound nesse contexto). Apesar de funcionar bem à época, ver os acontecimentos em novas personagens mais definidas pode dar sequência a um registo talvez menos surpreendente. Chrono Trigger, por exemplo, assim como Xenogears (este mais tardio), ainda são jogos que se conservam narrativamente frescos, demarcando-se por uma série de personagens singulares e "plots" narrativos mais impressionantes. Secret of Mana parece não ser tão eloquente, pelo menos na fase inicial.

À história os produtores não acrescentaram nada de novo. Está intocável, formada a partir do mesmo trio de heróis: Randi, Primm e Popoi. À sua maneira exibem qualidades e atributos que funcionam melhor em combate, isto quando não revelam as suas personalidades em diálogos com os demais npc's. Randi encontra uma espada - uma mítica espada - que perdeu os seus poderes mágicos. Ao restaurar a sua composição original, impedirá um poderoso império de trazer à tona uma notável máquina de combate. Até aqui a história é aceitável e apesar de tudo bem melhor que alguns dos mais recentes guiões. O problema está na criação de cenas animadas e diálogos cuja execução não sendo não só a melhor (enquanto falam não existem movimentos labiais) acaba por neutralizar alguma da beleza do original, se mostra amiudadas vezes maçadora e esteticamente menos gratificante.

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Podem jogar com as vozes em japonês.

Já a jogabilidade e as mecânicas que permitem o jogo cooperativo até 3 jogadores, que à época tornaram a obra tão especial quanto encantadora, permanecem como soluções válidas. Hoje não é um sistema tão referencial, e alguns pequenos ajustes terão oscilado para pior (o ataque com mais opções no movimento da rotação parece perder alguma precisão que encontrávamos no original, apesar do uso dos analógicos), mas de um modo geral ainda é sobretudo por isto que a obra se distingue e se revela funcional - e encorajadora para as novas gerações. Haverá quem nele faça a estreia sem ter jogado o original, o que será motivo para uma descoberta em grande medida do seu penetrante e sólido sistema de combate, mas é justo referir que algumas dificuldades patentes no original não foram inteiramente removidas.

O sistema de combate permanecia algures num meio caminho entre Zelda: Link's Awakening e o sistema de role play dos jogos da Square, uma base em tempo real, conjugada com acções concretas que forçavam o jogador a seleccionar o melhor equipamento (armas ou magias) e a personagem na antecipação a certas batalhas. O apogeu deste sistema aconteceu com a composição cooperativa até 3 jogadores, ferramenta implementada com sucesso. Boa parte dessa chama continua presente no remake, mas algumas inconsistências tornam-se evidentes. Apesar da acessibilidade que marcou o original, os produtores entenderam incrementar a dificuldade para este remake, especialmente no calor de certas batalhas, em fases mais adiantadas. A IA dos companheiros de equipa parece não falhar em atingir o objectivo, acabando por expor e fragilizar demasiado os camaradas, forçando-nos a constantes técnicas de "revival".

A gestão dos menus, no caso das magias, está longe de ser prática, uma clara falta de versatilidade que se manifestou no original e continua a criar algumas dificuldades de observação e seguimento. A existência dos atalhos pode minorar o acesso mas não priva os jogadores do esforço adicional para uma melhor gestão. Decisão um tanto estranha (apesar do anel de opções dar uma ideia de facilidade) quando há botões que ficaram por utilizar e que poderiam ligar-se a algumas das opções. A isto acrescem alguns bugs ocasionais, fruto das animações e construção em 3D dos cenários e personagens.

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A jogabilidade respeita as mecânicas do original, preservando o sistema cooperativo até 3 jogadores.

No grafismo, a entrada em 3D não é tão avassaladora e algumas decisões revelam-se discutíveis. Para lá da falta de expressão nos rostos das personagens nos diálogos, é verdade que os modelos estão bem caracterizados e aceitáveis, mas perde-se o "feel" do original. As animações das personagens no mapa mundo e durante os combates são boas, mas quando as vemos de perto nas cinemáticas parecem estáticas, quase como marionetas. Provavelmente, muitos dos que jogaram a versão SNES vão reparar nisto desde o primeiro instante. É ainda discutível a actualização da banda sonora, com alguns temas que podem facilmente criar uma saturação, mas felizmente existe uma opção que permite voltar aos temas originais.

Fica a sensação de um remake de Secret of Mana que poderia ter ido mais longe e beneficiado de uma melhor execução. Nesta "actualização" a Square não só captou com menos fulgor o brilho do original, como os ajustes nalguns elementos potenciaram dificuldades anteriormente inexistentes ou simplesmente transitaram quando esperávamos um reajuste. É provável que muitos fãs do original fiquem desapontados com a moderna adaptação, enquanto os novos jogadores, à custa de um início com imenso "backtracking" e uma execução menos enfática se questionem sobre o porquê de tanto mediatismo em torno do original, que na verdade ainda é um grande jogo. Não julguem porém que Secret of Mana perde na comparação, simplesmente parece que a Square perdeu uma boa oportunidade para enlevar uma obra categórica e referencial na sua década de existência. A versão HD é, apesar das falhas, uma opção satisfatória mas que poderia ter resultado numa obra melhor e marcante com mais polimento e produção.

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Sobre o Autor

Vítor Alexandre

Vítor Alexandre

Redator

Adepto de automóveis é assim por direito o nosso piloto de serviço. Mas o Vítor é outro que não falha um bom old school e é adepto ferrenho das novas produções criativas. Para além de que é corredor de Maratona. Mas não esquece os pastéis de Fão.

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