Com mais de quatro milhões de unidades vendidas, Resident Evil 7 foi um sucesso para a Capcom, mas também para os fãs, que puderam assim contar com um regresso às origens da famosa série criada por Mikami e Kamiya, ainda que em moldes um pouco diferenciados. Com a série a conhecer um impulso mais apontado para a acção em RE4 (é um dos meus favoritos da série, digam os críticos o que quiserem), as edições 5 e 6 produziram uma abertura demasiado arriscada e sobretudo a sexta edição fragmentou excessivamente a experiência, em narrativas e segmentos de jogabilidade.

Lançado quase há um ano (24 de Janeiro de 2017), com RE 7 a Capcom como que voltou às bases e construiu uma experiência a pensar justamente no conceito "survival", aquilo que sempre foi o traço mais saliente, embora com alguns elementos novos, especialmente a perspectiva de jogo, a partir da primeira pessoa. Contrariamente às edições 5 e 6, este RE volta a produzir sensações e uma experiência muito próxima da que ficou marcada com o original, sendo esse um dos objectivos atingidos da equipa de produção, que contou com aproximadamente 120 elementos (a Capcom investiu imenso nesta produção) e a direcção a cargo de Koshi Nakanishi, director de RE: Revelations. Por aqui podem (re)ler a nossa análise, caso ainda não o tenham feito.

RE7 distingiu-se também por ser uma das melhores experiências no segmento PlayStation VR, produzindo sustos e a sensação de receio e medo típica dos "survival" de modo ainda mais acutilante. Não foi por acaso que uma das primeiras demonstrações utilizadas pela Sony para promover o PS VR foi justamente uma demonstração desta sétima edição de Resident Evil.

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Em Not a Hero (Chris Redfield) a acção é mais regular e as armas são de maior calibre.

Se, por alguma razão ainda não puderam jogar este novo episódio, a Capcom preparou entretanto a Gold Edition (lançada o mês passado), uma versão definitiva que compreende todos os conteúdos adicionais (dlc's), pagos e gratuitos. É seguramente a melhor opção, caso ainda não tenham o original. Para além do jogo completo, a versão Gold inclui o conteúdo gratuito Not a Hero, o "banned footage" vol. 1 e vol. 2 (que basicamente oferece uma injecção de modos de jogo diferentes), e o epílogo End of Zoe.

"É seguramente a melhor opção, caso ainda não tenham o original"

O primeiro volume das gravações é composto pelo segmento Bedroom, o primeiro de três modos. Acordando na cama, deparam-se com um dos suculentos pratos de Marguerite, tão delicioso que nem se importavam de lamber a colher depois de degustada a refeição. O objectivo é fugir dali antes que sejam detectados, entrando numa espécie de jogo do gato e rato. O segundo modo - Nightmare - tal como a designação sugere, é um pesadelo no qual temos de combater uma horda de inimigos, em permanente sobressalto. Revela-se um desafio à media dos adeptos de "shooters", numa abordagem muito mais em consonância com as quinta e sexta edições de RE. Em Ethan Must Die, a proposição é diferente. A mansão Baker foi como que redesenhada num universo paralelo e está repleta de armadilhas e "ratoeiras" que urge evitar.

O segundo volume das filmagens é composto igualmente por três conteúdos: 21, um simples jogo de cartas que se revela letal se não vencerem o adversário. Nele vão defrontar Lucas, filho dos Baker. Na película Daughters conhecem um pouco mais dos eventos que conduziram ao desfecho trágico da família, servindo quase de prequela, enquanto que no extra Jack's 55th Birthday terão que percorrer a mansão de molde a encontrar presentes e coisas que possam satisfazer o aniversariante. À semelhança dos arquivos contidos no jogo original, também nestas demonstrações se expande o conceito original e inovador dos desafios inseridos nas cassetes, ousando a fuga do conceito "survival", o que permite explorar outros esquemas e mecânicas.

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Em End of Zoe emerge um novo protagonista, o tio Joe.

Quanto às histórias adicionais, em Not a Hero vão assumir a pele de Chris Redfield, numa fase posterior aos eventos finais da narrativa principal. Este conteúdo gratuito chegou a ter como lançamento o verão passado, mas só no final do ano foi entregue. Ao contrário da ideia inicial de que este seria um segmento voltado para a acção pura e dura, revelou-se a final bastante comedido e próximo da arquitectura criada para a campanha. Com momentos de maior intensidade e procura, ao invés das operações militares, aqui e acolá mais salientes.

O interessante desta secção é a actuação de Chris de forma a resgatar alguns membros da equipa Umbrella, enquanto procura por Ethan. Seguindo os trilhos que o levam às profundidades de uma complexa mina onde se projecta um gás tóxico, damos uso a um extenso arsenal de combate, para além do sistema de visão nocturna. É uma boa alternativa aos outros espaços, embora seja menos apelativa no que toca à produção quando comparada com as outras áreas. Com mais sequências apontadas à acção e valendo-se de um pesado arsenal, voltamos a ter Resident Evil sobre esteróides. Posiciona-se como um desfecho um tanto inesperado, mas se os produtores pretendiam sobretudo criar uma diferente dinâmica, não se pode dizer que tenham ficado a meio do serviço.

End of Zoe é o conteúdo adicional pago que nos mostra um evento posterior sob o olhar de outros protagonistas. No centro deste desenvolvimento está Zoe Baker, uma personagem feminina que numa parte se revelou decisiva no apoio a Ethan Winters. O seu desfecho e o que lhe aconteceu é uma incógnita até começarmos a jogar este conteúdo. Sem entrar em grandes revelações quanto à história, o protagonista é o seu tio Joe, que a encontra num estado grave. Ela carece urgentemente de um antídoto para sobreviver e ele terá que arriscar uma passagem pelos pântanos repletos de crocodilos e outras criaturas perigosas para o encontrar.

"Em Not a Hero vão assumir a pele de Chris Redfield, numa fase posterior aos eventos finais da narrativa principal"

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Para além de um velho barco vão encontrar casas abandonadas, como esta.

Joe é um exímio caçador, um velho duro. Os seus músculos estão treinados e os punhos são letais, afastando ameaças como quem ceifa erva alta. A maior alteração vai para a linearidade do avanço, sendo menos ou quase inexistentes os puzzles, embora tenhamos que nos adaptar à dificuldade das situações e a uma série de imprevistos, mas o terreno é pantanoso, oferecendo oportunidades para nos surpreender. Usando os gatilhos para desferir socos, muitos combates tornam-se num combate corpo a corpo, sem armas, ainda que por vezes sejam essenciais. Neste périplo vão conhecer um antigo barco e uma casa de madeira abandonada. Alguns cenários são mais aterradores, mas o grau de sustos não é tão grande como na mansão da trama principal.

Em suma, RE 7 Gold Edition é a opção derradeira para quem ainda não jogou o original. Com todos os conteúdos pagos e gratuitos lançados posteriormente, faculta o acesso completo ao regresso em grande forma da Capcom e RE no género "survival". Depois da deriva protagonizada por RE6, a Capcom foi engenhosa, hábil e inspirada na recuperação das bases de RE, produzindo um jogo que nos transmite uma sensação de novidade, embora sem o ser, porque as bases estão lá.

Sobre o Autor

Vítor Alexandre

Vítor Alexandre

Redator

Adepto de automóveis é assim por direito o nosso piloto de serviço. Mas o Vítor é outro que não falha um bom old school e é adepto ferrenho das novas produções criativas. Para além de que é corredor de Maratona. Mas não esquece os pastéis de Fão.

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