Yakuza Kiwami - Análise

O nascer do Dragão.

Kiwami celebra 10 anos de uma série sensacional, mas não esconde as origens humildes e não ostenta a profundidade de Zero.

Foi preciso esperar mais de um ano e 7 meses mas Yakuza Kiwami está finalmente disponível nas lojas. Depois do incrível Yakuza Zero, provavelmente o expoente máximo da série até Yakuza 6 chegar, a SEGA decidiu celebrar os 10 anos da sua irreverente série com um projecto que recria o original com a tecnologia de hoje. Este é um jogo dedicado a dois tipos de jogadores: os que jogaram o original e ficaram a imaginar como seria se fosse feito hoje e os que não o jogaram mas querem comprovar se o que dizem da série é verdade. Yakuza é uma série que assenta em três pilares fundamentais: a sua narrativa adulta e intensa, os combates violentos, em sintonia com a exploração de um mundo credível repleto de actividades secundárias que até hoje não vimos ser recriadas com o mesmo empenho em outros jogos.

O Yakuza original é uma referência da SEGA, um trabalho de uma equipa que havia entregue Shenmue aos jogadores e se orgulhava de ser Japonesa. É um título que marcou os seus jogadores pela forma credível com que representava o Japão e a sua máfia, transportando os sonhadores para situações intensas num ambiente que parecia real. Esta combinação de realidade com fantasia tornou-o num título singular, muito distante do termo "GTA Japonês" que infelizmente alguns tentaram usar para o definir. Yakuza é como o seu protagonista, Kazuma Kiryu, um bastião de humildade e honra, mas capaz de fazer valer os seus ideais. Kazuma sabe aguentar porrada como ninguém, até os punhos do infeliz adversário começarem a doer, sendo capaz de responder com uma força incrível, quase tão mística quanto a do Dragão que está tatuado nas suas costas.

Esta sensação de fantasia combinado com o real tornou Yakuza numa série altamente respeitada pelos seus fãs. Lançado originalmente em 2006, foi rapidamente ultrapassado pela sua sequela, em 2008, mas ainda assim é um marco na história da SEGA. Um sinal de ambição que ainda hoje não tem igual na icónica editora Japonesa. Yakuza Kiwami procura levar o original para um novo patamar, traçado com todo o mérito por Yakuza Zero, mas os 10 anos que os separam fazem com que seja injusto comparar. Ainda assim, especialmente para quem jogou Zero e vai agora conhecer o original pela primeira vez com Kiwami, é inevitável sentir que é um jogo muito mais simples e sem a sua desmesurada ambição.

"Kiwami é Yakuza com a energia ao máximo: um jogo adulto e maduro, cujo charme encantará quem adora narrativas fortes e intensas."

A história de Yakuza é quase uma lenda entre os seus fãs. É um dos seus maiores méritos e algo que durante muitos anos não teve igual nesta indústria. Muito mais do que uma história de mafiosos, mais do que uma história de herói contra o mal, Yakuza centrou-se em Kazuma Kiryu e em temas maduros, violentos, que podias ver apresentados num qualquer filme ou série de TV. No melhor momento da sua vida, o humilde mas forte como um dragão Kazuma vê o seu mundo virado do avesso quando se sente forçado a assumir as culpas por um crime que não cometeu. Após 10 anos na prisão, ele regressa a Kamurocho, imagina-o como o Red Light District de Tóquio, mas nada está igual.

Este é o ponto de partida para uma narrativa complexa e com diversas partes à procura de algo em comum. Alianças entre mafiosos, uma pequena rapariga, a polícia, informantes e rivalidades inesperadas marcam todas presença nesta primeira aventura de Kazuma. O lendário Dragão de Dojima está prestes a enfrentar perigos que jamais imaginaria. No entanto, a SEGA decidiu introduzir diversas cenas adicionais que complementam a narrativa e algumas delas acompanhadas por novos segmentos de jogo. "Kiwami significa Extremo" avisa a SEGA e podes acreditar que isto é Yakuza com um novo fôlego.

Para acompanhar a melhoria gráfica, a SEGA decidiu injectar novo vigor não só na narrativa, mas também no gameplay simples do original. Para o enquadrar com os padrões actuais da série e da indústria, Kiwami recebeu novos conteúdos que reforçam a história, mas também novidades que expandem o gameplay. Goro Majima, icónica figura que surgiria num dado momento do original para se afirmar como uma das principais na série, surge aqui num novo papel, impulsionado pela sua popularidade em Zero. Além de perseguir constantemente Kazuma por Kamurocho para combater com ele (algumas situações são mesmo insólitas numa escala Majima), ele interfere com algumas missões secundárias (outra das novidades adquiridas dos jogos mais recentes e que acrescentam imensa longevidade) e também te ajudará a recuperar os teus golpes de antigamente, graças aos combates.

Esses combates reflectem as melhorias e novidades introduzidas em Zero: diferentes estilos de combate (aqui são quatro pois Kazuma já se tinha tornado no célebre Dragão), novas acções Heat que patrocinam finishers brutais, árvore de habilidades divida em quatro categorias diferentes através da qual melhoras Kazuma e ainda as transições quase instantâneas para os combates. Tudo isto transforma o Yakuza original num jogo actual e impressionante. Kamurocho ganha vida com a nova câmara, com os gráficos actualizados, mas também com as novas missões secundárias (melhor do que procurar chaves de cacifos) e com as cenas adicionais.

"Apesar da renovação gráfica e da implementação de novidades introduzidas em Zero, Kiwami não esconde que é uma série numa altura em que estava a dar os primeiros passos."

Ao actualizar Yakuza para consolas mais recentes, a SEGA aproveitou todas as melhorias introduzidas no seu Dragon Engine para Yakuza Zero. Isso significa que terás um sistema de câmara livre, mais perto da tradicional perspectiva na terceira pessoa, que te dá uma visão muito mais envolvente de Kamurocho. De igual forma, tudo se torna muito imersivo e sentes que o mundo em teu redor se torna mais credível. Claro que na verdade o seu maior feito é tornar o Yakuza original num jogo actual, algo muito importante. No entanto, o nível de detalhe em Kiryu e restante elenco principal, o néon espalhado por esta localidade de Tóquio, as animações nos combates e a forma como te entregas ao mundo de jogo, combinam todos para que te deixes encantar muito mais do que era possível na altura do original.

Como referido, Yakuza Kiwami representa o início, representa a génese da série da SEGA, enquanto Zero (apesar do nome) representa o culminar de anos a aprimorar a fórmula. A complexidade, variedade de actividades secundárias, profundidade no gameplay dentro e fora dos combates, envolvimento no mundo, intensidade e desenvolvimento narrativo de Yakuza Zero são resultado de uma equipa que aprendeu imenso ao desenvolver mais de 5 jogos. Kiwami é muito mais simples em comparação, mesmo com as actualizações que resultam das novidades de zero. Isso reflecte-se na longevidade, quase metade da de Zero, mas também no gameplay. Não esperes mini-jogos ou actividades secundárias, como a gestão de imobiliário, num patamar similar ao de Zero. Olha para Kiwami como uma homenagem a um clássico, actualizado com novos gráficos e algumas novidades no gameplay, mas que ainda assim não esconde a natureza mais simples de um jogo com uma década.

Yakuza Kiwami é para os apaixonados da série Yakuza, que sentem que está finalmente a conquistar maior visibilidade, mas também é para os que ainda não entraram na série e desejam conhecer jogos maduros, com uma narrativa sensacional e adulta, apoiados por um gameplay que diverte e um mundo de jogo que fascina quem é apaixonado pela cultura Japonesa. Não consegue alcançar o patamar de Yakuza Zero, mas cumpre um belíssimo papel para te relembrar o porquê desta série ser tão respeitada.

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Sobre o Autor

Bruno Galvão

Bruno Galvão

Redator

O Bruno tem um gosto requintado. Para ele os videojogos são mais que um entretenimento e gosta de discutir sobre formas e arte. Para além disso consome tudo que seja Japonês, principalmente JRPG. Nós só agradecemos.

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