Uau, fará no próximo mês doze anos desde o lançamento de PES 4, um dos meus favoritos da Konami e que contou, na capa, com um dos melhores jogadores de sempre do futebol italiano e mundial: Francesco Totti, o eterno avançado romano. Reza a história que, em Roma, depois do Papa só Totti. O astro romano, que dedicou toda a vida futebolística ao clube onde se formou e conquistou o mundo, recusou pelo meio uma proposta galática do Real Madrid, permanecendo sempre junto dos seus fãs, colorindo os domingos com golos fenomenais e ainda hoje, já sem o fulgor explosivo doutros tempos, continua a jogar com os seus colegas (a última temporada), a marcar sempre que Spalletti lhe confia a oportunidade, transmitindo todo um saber de experiência feito.

Tal como o sucesso deste eterno avançado italiano que os campos da Europa e do mundo jamais esquecerão, também a série PES vem de longe, através de memórias que se fundem com a experiência futebolística, marcada pela acessibilidade e projecção de um realismo plausível que nunca deixou de estar em sintonia, independentemente da geração de plataformas. Imperial nos tempos da PlayStation 2, quando começou a conquista das legiões de fãs, a série PES viveu na geração seguinte uma fase mais disputada embora sem nunca abdicar das suas características nucleares, sem perder o seu ADN de produção marcadamente nipónica, apostando em primeiro lugar na experiência e no primeiro contacto com a bola como factores decisivos. Esta geração e após um ano de adaptação ao Fox Engine, o ano passado encontrámos um PES no bom caminho. O futebol proporcionado pela equipa de produtores japoneses era do mais fascinante, mesmo sendo perceptíveis sinais de evolução e progressão em torno de uma maior riqueza no domínio e controlo da bola.

Quando em Maio deste ano pudemos experimentar pela primeira vez a nova versão, ainda que sob uma forma de demonstração, o jogo que agora nos chegou às mãos dissipou as dúvidas. Mais dinâmico, fluído, e desafiante, a edição deste ano eleva ainda mais as qualidades de PES. Se há algo que os responsáveis da série na Europa enfatizam liminarmente é o destaque dado à equipa de produtores japoneses. PES nasceu no Japão, cresceu nas suas múltiplas edições sempre com base no mesmo estúdio e são muitos dos programadores de pretéritas evoluções que continuam a cuidar das bases e a curar o produto que retiram do Fox Engine. Cada vez mais adaptados a um motor gráfico que provou já estar na linha dianteira para esta geração de consolas, o aproveitamento nesta vertente futebolística é mais natural e dinâmico.

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Existe um maior controlo da bola.

É bom que os produtores tenham optado por conservar a fórmula do ano passado. Desde o primeiro instante percebe-se que é um jogo que melhora a partir do anterior, ao invés de partir para novas fórmulas e expansões que poderiam perigar os desígnios de uma produtora que continua a apostar mais na experiência do futebol em si, algures entre a simulação e as coordenadas arcade, como sejam; acessibilidade, divertimento e desafio. PES é um dos jogos da velha guarda que continua no activo. Vem do "retro" e consolida-se nesta edição 2017 como um jogo mais refinado fluído e dinâmico.

Controlar a bola é mais proveitoso, executar os passes (manuais ou dinâmicos) continua a ser um exercício de precisão quase de relógio Suíço e rematar à baliza, em boa posição, é uma oportunidade boa de golo que não se pode enjeitar. A gestão dos espaços, o alinhamento dos colegas em campo e as tentativas para furar a muralha adversária são mais factores cruciais visíveis quando subimos a dificuldade nos jogos contra o computador até ao nível máximo, o teste derradeiro às nossas capacidades. Detentor de uma camada fina capaz de ser aproveitada por qualquer um mas passível de ser explorado até limites incríveis, PES 2017 é um jogo profundo sem atolar quem pisa o seu relvado e simples e acessível sem nunca conceder de bandeja. É neste binómio (entre o simulador e o arcade) que a série se encontra, define a sua imagem e colhe a receita para o sucesso. Nesse ponto esta edição é mais consistente e avançada que qualquer uma das anteriores e os fãs vão notar isso desde o primeiro instante.

Por vezes não é preciso inventar muito: basta ser simples e natural. A fluidez com que trocamos os passes entre os colegas, ao primeiro toque, conjugada com uma sensação de movimento mais natural e fluido do jogador é a base de qualquer construção de jogada, pelo que podemos mais facilmente organizar melhor o jogo. Claro que temos sempre à nossa disposição uma série de tácticas e combinações de botões para furar o adversário quando a sua actuação é mais táctica e esclarecida em termos defensivos. A física da bola é melhor, pelo que intensidade do passe e qualidade do jogador são outros factores a ter em conta. Um jogador de nível 60 terá mais dificuldades em executar as manobras quando confinado a um espaço reduzido, mas se soltarem a bola para jogadores como Messi, Neymar, Ronaldo ou Ibrahimovic, cuja capacidade de execução é imediata e a tocar a perfeição, podem decidir a jogada num apagar de olhos, desde que aproveitem aquela fracção de oportunidade.

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Para quem prefira executar manuais a reacção é ainda melhor.

O controlo e a resposta em campo são como que perfeitos: não há atrasos, a bola não prende e solta-se mais facilmente. A resposta aos comandos é a melhor, seja a defender ou atacar, com bola ou sem bola. Por isso temos mais imprevisibilidade nos lances disputados, até porque a implementação das novas animações, especialmente nos confrontos corporais torna mais naturais e fluidos os movimentos. No fundo é um PES mais natural e fluído que temos nesta edição e isso enriquece a experiência, podendo originar mais desequilíbrios e oportunidades, através de um jogo mais atractivo (mesmo para quem assiste) e disputado.

"O controlo e a resposta em campo são como que perfeitos"

É um somatório de melhorias que torna a jogabilidade melhor e mais cativante. Quase como um regresso aos tempos distantes, quando nos divertíamos a jogar com os amigos em torneios fabricados no instante, naqueles domingos à tarde, em encontros depois do almoço (com um rádio nas proximidades ligado e sintonizado nos relatos de futebol). Parece que estamos diante da recuperação de uma antiga fórmula, mas com um controlo mais preciso e proveitoso. PES sempre se distinguiu pelo controlo da bola, sendo a edição 2017 um tributo a isso mesmo. E tanto falamos de bola corrida como parada. Apesar de sujeita à intensidade com que pressionamos um botão, alvejar a baliza através de livre é mais consistente, com uma sensação de força e impacto, mais manual e menos automático.

Claro que o nível de jogo sobe quando confrontamos os melhores do mundo, os jogadores com níveis acima de oitenta. Experimentem jogar na dificuldade máxima e vão observar melhor as mudanças que aqui referimos. Não se pode comparar um guarda-redes de nível 60 a um De Gea. O primeiro cometerá mais erros, atirar-se-á depois do remate, enquanto que o último fará melhor a mancha, sairá melhor aos cruzamentos e formará uma barreira sólida nos remates que hão de tirar tinta ao poste. O desempenho dos guarda-redes é mais assertivo e o sector defensivo actua de forma mais inteligente, especialmente se forçarem o ataque por uma das alas. No próximo ataque que fizerem, repetindo a incursão pelo mesmo ponto, os defesas actuarão com mais apoio, concentrados sobre os atacantes pelo que terão de circular a bola por outros espaços se quiserem penetrar na área adversária.

As opções para isolar os avançados, oferecendo um passe a rasgar a defesa não são tão válidas, uma vez que no momento do passe os adversários tendem a estar bem posicionados e a cercar o jogador que vai isolar-se de modo a conquistar a bola. O sector defensivo reage coeso e organizado, pelo que as oportunidades de golo surgem muito mais através de insistências e diferentes combinações entre os alas, criadores de jogo e avançados. Em cruzamentos ou lances de bola parada, quando realizados pelos melhores a bola continua a ir muito certa para a cabeça ou pé do receptor, quase como se fosse colocada automaticamente, mas no tempo de espera por causa do arco, se jogarmos na pele de um defesa, temos mais algum tempo até interceptar a bola.

Defrontar o computador na dificuldade máxima ou próximo disso é um óptimo teste às formações rivais e à forma como concretizam determinado estilo de jogo. Sendo o Barcelona um dos maiores clubes do mundo, detentor de um estilo único na posse de bola, o modelo praticado pelos catalães é especialmente robusto. Os jogadores aproveitam uma desatenção nossa para sacar a bola e fazê-la sua até concretizarem uma jogada ofensiva. Se defrontarem o Real Madrid, Ronaldo e Bale fazem da posse e velocidade um combinado complicado de anular. Não é tão tenebroso jogar contra estas equipas na dificuldade máxima mas as chances para obter golo são francamente reduzidas.

Saibam que após instalarem o jogo, o Real Madrid na liga espanhola é o MD White. Da liga inglesa já conhecemos os clubes não oficiais, mas sobre La Liga, este é o primeiro ano, na série PES, desde os últimos tempos, sem a liga espanhola oficialmente representada, à excepção do Barcelona e do Atlético de Madrid. É verdade que a história de PES mostra-nos que a representação das ligas oficiais nunca foi um ponto alto nos interesses da Konami. Nos tempos da PS2 poucas ligas eram oficiais, mas nota-se de há uns tempos para cá uma perda de clubes oficiais e estádios no panorama europeu. Fãs do FC Porto (como eu), ficarão desgostosos por verem o clube não representado oficialmente.

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Os guarda-redes foram alvo de melhorias. Não esperem que os mais cotados cedam facilmente.

A Konami parece por isso mais interessada em garantir acordos exclusivos com os clubes europeus dominantes, como acontece com o Barcelona, cuja representação em PES 2017 é grande: desde o estádio (em exclusivo), até ao hino e celebrações. O mesmo irá suceder em breve com o Liverpool. Em termos de competições oficiais relevantes permanecem a Liga dos Campeões Europeus, a Liga Europa, a Supertaça Europeia, o troféu dos clubes campeões da Ásia e agora uma série de ligas sul-americanas como o campeonato argentino e chileno, reforçando com novas licenças oficiais uma zona do globo habitualmente fora do radar do futebol virtual.

Contudo e como já referimos noutra instância, o jogo compreende um editor que simplifica a tarefa para quem deseje jogar com todos os clubes oficiais. Valioso trabalho das comunidades, é possível descarregar uma pasta para uma "pen drive", importando os equipamentos, emblemas e actualizações. O processo é simples na PS4. O jogo fica imediatamente mais bonito e atractivo, sobretudo para quem deseje jogar com equipas espanholas e inglesas com os seus equipamentos. Faltam os estádios oficiais de outros grandes clubes que não o Barcelona, pese embora o reforço de novas arenas, até um número global de 30 estádios.

No tocante aos modos de jogo a Konami apostou numa postura algo conservadora, renovando as três estruturas existentes no jogo anterior: My Club, Master League e Be a Legend. A primeira opção tem vindo a melhorar e perfila-se como valiosa para quem pretenda formar uma equipa do zero e jogar com ela tanto em partidas online como contra o computador. Formar correntes de passe e melhorar a articulação entre os jogadores visando uma pontuação alta em termos de colectivo é o primeiro objectivo. Os olheiros ocupam uma posição importante na procura de um atleta com determinados requisitos que temos em mente. É possível operar vários olheiros em simultâneo. O modo contém um pequeno segmento de aprendizagem explicativo das diferentes funções, útil para quem desfrute do My Club pela primeira vez.

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A inteligência artificial adapta-se melhor ao nosso estilo de jogo.

A Master League permanece como uma boa opção em termos de progressão individual. Dos campeonatos secundários até ao estrelato, a caminhada é longa, composta por múltiplas temporadas. Entre as principais alterações está a secção de transferências, através da qual é possível emprestar jogadores por curtos períodos de tempo. A janela de transferências ganha mais algum drama até à parte final, emulando um pouco aquela incerteza do fecho do mercado e das aquisições de última hora. O modo Be a Legend não dispensa a ligação online como suporte, embora seja a opção menos dada a alterações desde a temporada passada, na qual poderão criar um jogador novo ou assumir a posição de algum atleta existente, visando a conquista dos campos de futebol.

Ainda que estejamos numa fase precoce da temporada as ligações online funcionam bem. Poderão encontrar conexões mais demoradas mas por agora os servidores têm revelado estabilidade e eficiência. Desde o primeiro dia que existe uma actualização para os plantéis, tendo em conta as operações realizadas no mercado até ao dia 31 de Agosto, o que é um alívio face ao que sucedeu o ano passado. Em termos de comentários voltamos a contar com a dupla de portugueses Pedro Sousa (relatador) e Luís Freitas Lobo (comentário). O trabalho é apreciável mas por vezes não é tão natural e diversificado como seria desejável. Num lance perigoso o relatador chegou a gritar golo por ser uma situação eminente mas logo a tirada foi anulada e substituída por outra, num processo de sobreposição algo caricato.

No que respeita aos modelos dos jogadores a evolução não é tão notória. Nas repetições vemos em câmara lenta as novas animações, percebendo-se o esforço no sentido de superar ao máximo os movimentos robóticos mas quanto ao rosto e modelos dos jogadores a Konami poderia ter desenvolvido mais. Neste campo o jogo ainda está demasiado próximo do que vimos na temporada passada e cremos que para a actual geração, em termos visuais ainda é possível tornar o jogo mais atraente e bonito.

Apesar da dificuldade em adquirir mais licenças e mostrar um jogo capaz de reflectir esse desiderato, a Konami continua a fazer o que pode e sabe para tornar PES uma referência em termos de jogabilidade, no fundo as linhas pelas quais sempre fez o seu futebol e pelo qual se notabilizou. PES 2017 é uma fabulosa experiência futebolística. Um jogo equilibrado que parte da edição pretérita para consolidar um modelo situado algures entre a simulação e a vertente arcade, o que lhe vale profundidade mas também acessibilidade e simplicidade, sem esgotar o exagero. É um ponto óptimo difícil de apurar, curado pelo estúdio japonês que tem em mãos uma série com mais de vinte anos, mas que é talvez a via mais segura para conquistar todo o tipo de jogadores (fãs e principiantes) e proporcionar uma experiência convincente. É a Konami dos velhos tempos que ainda aqui está, capaz de enfrentar os novos desafios e gerir toda uma dificuldade proveniente da caça às licenças. Mas no relvado virtual eles são mesmo bons e ainda sabem fazer magníficos jogos de futebol.

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Sobre o Autor

Vítor Alexandre

Vítor Alexandre

Redator

Adepto de automóveis é assim por direito o nosso piloto de serviço. Mas o Vítor é outro que não falha um bom old school e é adepto ferrenho das novas produções criativas. Para além de que é corredor de Maratona. Mas não esquece os pastéis de Fão.