Mirror's Edge Catalyst - Análise

É preciso ter fé.

Apesar de toda a sua competência técnica e design artístico, Catalyst não é um jogo divertido.

Quando pegamos no disco de um jogo como este Mirror's Edge: Catalyst para jogar, estamos longe de pensar que algo pode correr mal. Estamos perante uma acarinhada e inovadora propriedade intelectual, cujo regresso foi pedido durante largos anos, temos um dos mais espantosos motores gráficos desta geração, um estúdio talentoso, uma personagem carismática, e um gameplay singular com uma estética engenhosa que diversifica um género altamente popular. No entanto, o maior feito deste Catalyst será provavelmente a forma como desperdiça todas as oportunidades para se tornar numa referência.

A carismática Faith está de volta mas não é propriamente a mesma que viram no original. Ao invés de optar por uma sequela, a Electronic Arts e o estúdio DICE decidiram reiniciar a propriedade intelectual. A protagonista mantém a sua essência e Mirror's Edge está muito idêntico a si mesmo mas tudo o resto é novo. O contexto, o passado de Faith, as pessoas à sua volta, os antagonistas, e o enredo são originais e diferentes do que vimos. Apesar de não ser propriamente empolgante, o enredo de Catalyst consegue cativar e apesar de se tornar previsível, é talvez um dos seus melhores pontos.

No entanto, pouco consegue fazer para esconder a sensação que Mirror's Edge: Catalyst nada mais é do que um recreio glorificado em que tudo está feito para que o jogador possa utilizar o parkour. Optando por uma espécie de mundo aberto, uma cidade aberta diga-se, tudo está feito para que o jogador encadeie movimentos acrobáticos de forma sucessiva para progredir pelos diferentes distritos. Descartando as habituais setas que indicam o caminho, Catalyst opta antes pela Visão de Corredor que, contextualizado com a estética e essência do parkour em Mirror's Edge, é mais elegante.

"Catalyst aposta num gameplay e estética singulares, capturando toda a essência que nos apaixonou no original."

Mirror's Edge Catalyst não é um jogo propriamente longo, para chegarem ao final da história precisam de aproximadamente umas dez horas, e estando inserido num espaço aberto, não podiam faltar as tarefas adicionais. Depois de um bom início, rapidamente o jogo perde o fulgor, ou então somos nós que nos cansamos do mesmo. Percorrer a cidade consegue ser divertido e até somos convidados a explorar caminhos diferentes, mas é nas missões de história que Catalyst brilha com verdadeiro esplendor. São nelas que encontramos os maiores desafios e são nestes momentos que os visuais mais conseguem impressionar. Quando não estiverem nas missões, podem desfrutar do já banal conceito de mundo aberto da actualidade: diversas tarefas secundárias e coleccionáveis para recolher com pouco interesse e que apenas foram inseridos para que este recreio dure mais tempo.

Como referido, percorrer esta cidade com um gameplay focado no parkour e nos seus movimentos acrobáticos consegue relembrar-nos porque nos apaixonamos por Faith no original. Apesar de alguns erros de colisão aqui e ali, o jogo é dinâmico e fluído o necessário para capturar a essência de Mirror's Edge e nos convencer. Rapidamente descobrimos que é por isto que continuamos a jogar já que o interesse em conseguir cumprir percursos em contra-relógio para enviar os tempos para os servidores da EA e desafiar amigos não é assim tão apelativo. Ao cumprir as missões principais ou secundárias, Faith recebe a devida XP e podemos desbloquear melhorias dividas em três partes: equipamento, parkour e combates.

É precisamente esta última vertente do gameplay que prova ser controversa, e praticamente inútil para a experiência. Todos os jogos precisam de um malfeitor e para um jogo tão focado na liberdade, obviamente teria que ser uma corporação de segurança focada no controlo da sociedade. A Kruger Securities causou imensos danos à vida de Faith e esta não os vai deixar em paz. Inevitavelmente os seus caminhos cruzam-se e isso significa que teremos imensas patrulhas espalhadas pelos telhados desta utópica metrópole futurista. Dificilmente alguém conseguirá explicar como é que acharam que seria divertido colocar combates no jogo e a implementação em si também deixa imenso a desejar.

Não se sentem naturais, justos ou até credíveis. Existem para incutir variedade no ritmo de jogo mas consegue tornar-se intoleráveis. Em algumas missões, estão harmonizados com o parkour e o fluir do jogo é impecável, no entanto, na grande maioria das ocasiões Faith fica "fechada" no que se poderiam chamar quase de arenas para eliminar diversos inimigos. Alguns deles têm armas mas todos eles parecem robôs que até podem ficar presos no cenário. Faith tem alguns movimentos específicos ao seu dispor, como a capacidade de se desviar, dar socos ou pontapé. Mas este sistema de combates é muito mau, causa imensas frustrações e quebra frequentemente a fluidez do jogo. Sendo um elemento ruinoso para a experiência.

"O fulgor desaparece e os combates arrepiam. Pena que todo o potencial não tenha dado origem a algo mais divertido."

Como referido, o grande problema de Mirror's Edge Catalyst é não conseguir ser mais do que um jogo competente. Os apaixonados pela propriedade intelectual vão gostar de reencontrar Faith mas pedia-se mais. O pior é que Catalyst não é um jogo mau e até se podem divertir muito com ele, simplesmente não consegue estar à altura do potencial que Mirror's Edge e Faith mereciam. Não há nenhum outro jogo no mercado que ofereça um gameplay parkour tão gratificante, uma estética que usa de forma tão engenhosa as cores na constituição dos seus cenários e na manipulação dos elementos visuais para tornar simplificada a leitura dos cenários, mas é pena que não tenha mais para oferecer. Mais em termos de enredo, de design de níveis, mais em termos de diversão, melhor aproveitamento do seu mundo.

Provavelmente será mesmo Faith que nos vai prender ao jogo e nos conseguir entreter. As cutscenes que contam a história estão muito bem feitas e no geral os personagens são interessantes. Faith é tão envolvente quando no original e quando estamos a explorar a cidade conseguimos apreciar a sua singularidade. Pena que os seus elementos não tenham sido aproveitados com melhor qualidade e pena que tenham insistido em tornar os combates num segundo elemento em Mirror's Edge.

Mesmo em termos visuais, o jogador vai-se deparar com um Frostbite que não está no seu melhor. A estética minimalista e o design artístico de Mirror's Edge eram um par perfeito para o motor do estúdio DICE mas algumas coisas reflectem a inexperiência do estúdio em jogos de mundo aberto. Vários elementos, principalmente os personagens, estão demasiado desprovidos de detalhe e nem parecem pertencer a esta geração de consolas. Apesar de altamente fluído e de não ter sentido quaisquer quebras, Mirror's Edge Catalyst tanto está pronto para surpreender pela positiva como pela negativa.

É estranho e até confuso olhar para um jogo com as bases deste Mirror's Edge: Catalyst e descobrir que não é nem de longe tão divertido quanto o conceito sugere. Os saudosistas que pediram anos a fio uma sequela vão conseguir apreciar o seu tempo aqui nesta cidade mas Mirror's Edge: Catalyst é "apenas" um título competente no qual passamos mais tempo a fazer de tudo para gostarmos do jogo. É uma sensação altamente ingrata, a de estar perante um jogo do qual até queremos gostar mas que nos dá mais motivos para o contrário. Com a excepção dos horríveis e escusados combates, o DICE conseguiu um jogo que até pode ser singular, mas que precisa de muito mais para se poder afirmar.

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Sobre o Autor

Bruno Galvão

Bruno Galvão

Redator

O Bruno tem um gosto requintado. Para ele os videojogos são mais que um entretenimento e gosta de discutir sobre formas e arte. Para além disso consome tudo que seja Japonês, principalmente JRPG. Nós só agradecemos.

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