A palavra mais importante na análise a qualquer trabalho deste estúdio é o nome do próprio estúdio, Insomniac Games. O nome já é suficiente para explicar o tipo de atributos característicos das suas experiências. Jogos com gráficos impressionantes, muita cor, bom humor, gameplay simples mas eficaz, ferramentas de destruição verdadeiramente loucas e originais, sem esquecer uma vontade de afinar e ajustar que mais do que brio profissional, transparece quase como obsessão. Depois de 10 jogos ao longo de 14 anos, a série Ratchet and Clank está pronta para viajar no tempo até ao ponto de partida, sem a momento algum esquecer tudo o que aprendeu pelo caminho e dedicado a homenagear as suas origens.

Ratchet and Clank aterra na PlayStation 4 não como um título novo mas sim com o que é descrito de uma forma muito divertida como, "o Jogo do Filme do Jogo". Muito verdade. Quando o Insomniac encontrou a oportunidade de levar a sua propriedade intelectual para o mundo do cinema, descobriu que era praticamente impossível fazê-lo sem apresentar um videojogo para acompanhar. No entanto, não é propriamente um novo jogo, é uma espécie de remake do original, readaptado à imagem com que o filme ficou do jogo, mas transformado de tal forma que se vão questionar constantemente se conhecem ou não o que estão a ver. Existem alterações radicais, novidades, ajustes, afinamentos, e sensação de novidade envolta em familiaridade.

Foi precisamente isso que o estúdio procurou alcançar e após terminar duas vezes a campanha de Ratchet and Clank, uma delas no Modo Desafio em Normal, na terceira será em Desafio Difícil, posso afirmar que o conseguiram com todo o brilhantismo. Esta versão de 2016 do clássico PlayStation 2 consegue parecer tão fresca e tão actual, atestando toda a validade da propriedade intelectual, que vão sentir estar perante um jogo novo mas que ao mesmo tempo respeita o material original. O estúdio assegurou que de forma alguma poderia lançar o filme sem o apoiar com um jogo e prova que não o fez só porque sim. Fez porque sabia o que poderia fazer e a qualidade.

A vida do Capitão Qwark nunca foi muito fácil. Ao contrário do que a grande maioria pensa, ele não é um mero charlatão. É um fala barato com muito estilo que está sempre a caminhar naquela delicada linha em que não escapa do perigo mas nada faz para ir ter com ele. No entanto, agora que chegou a hora de apresentarem um Holo-Filme sobre a história de como o pequeno Ratchet e o ainda mais pequeno Clank conseguiram entrar para os Rangers da Galáxia e salvar o universo, ele tem uma palavra a dizer. Está na hora de contar a verdadeira história no jogo do filme do jogo. Precisamente o que temos aqui com este Ratchet and Clank que em 2016 faz uma viagem no tempo e regressa ao primeiro jogo, de 2002, para acompanhar a visão adaptada por Hollywood.

"Ratchet and Clank é um jogo para toda a família que diverte desde o primeiro segundo."

Esta nova abordagem ao primeiro jogo da dupla galáctica, feito para encaixar nos moldes de uma produção cinematográfica, permite ao Insomniac contar de uma forma ligeiramente diferente, actualizada e melhorada, os eventos desse célebre primeiro jogo. Frequentemente considerada como a Pixar dos videojogos, chegou agora a hora de provar porque é que os fãs lhes concederam tamanha e prestigiosa referência. A forma como a dupla sempre viveu jornadas incríveis em mundos belos e coloridos, povoados por personagens adoráveis e cómicas capazes de deixar toda a família a sorrir, é agora elevada a um novo padrão e não se admirem se terminarem o jogo com a sensação que este é o melhor trabalho feito nesta série.

Isto porque o Insomniac olhou para esta oportunidade com garras e dentes. Primeiro porque precisa mostrar a força da série Ratchet and Clank e provar que tem todo o direito em chegar aos cinemas, e depois porque está na hora de mostrar à Sony que a dupla do pequeno robô e o Lombax tem popularidade suficiente para se afirmar como uma das faces da PlayStation. Para isso, arregaçou as mangas, percorreu todos os jogos da série à procura das melhores armas, melhores mecânicas, melhores momentos e entrega o que chamada de um "Best of" de Ratchet and Clank para que ninguém se esqueça das razões pelas quais nos apaixonámos por eles.

Nesta espécie de Pixar em formato videojogo, pelo qual o Insomniac ficou celebrizado, é importante ter em mente o termo Remake mas sem esquecer outro termo também importante, "Best of". Como referido, o estúdio não se limitou a criar um remake luxuoso em termos visuais, com mecânicas afinadas. O Insomniac alterou toda a experiência para se sentir actual, e garantiu que as melhores armas, ferramentas, engenhocas, habilidades, e funcionalidades da série, estariam aqui presentes. Quer isto dizer que, as armas mais icónicas, mais loucas e mais devastadoras que vimos ao longo dos 11 jogos da série, foram escolhidas para alegrarem a vida do jogador. Existem diversas funcionalidades e armas que não estavam presentes no original, e o estúdio percebeu que precisaria de recorrer aos jogos mais recentes, para dinamizar o original. Funcionou e bem.

Desde logo vão ficar impressionados pelos gráficos, o impacto visual é arrebatador e sem dúvida que ficam perante um dos mais belos jogos que já viram na PlayStation 4. Mas antes disso vou falar no gameplay, na intuitiva mecânica de interacção com o jogo e que nos permite percorrer esta aventura. Assim que o jogo nos dá o controlo de Ratchet, a facilidade com que controlamos o personagem e executamos as diversas acções é agradavelmente fácil. Entrar na pele do Lombax favorito da galáxia é tão rápido e intuitivo tanto para veteranos como para novatos que se torna aparente o desejo do estúdio: entregar uma experiência que pode ser desfrutada por toda a família.

Acertar com a chave inglesa, recolher parafusos, saltar entre os tiros dos extra-terrestres mais estranhos da galáxia, disparar sem parar para os abater, é o tradicional esquema que já conhecemos. Nada disto mudou desde o original e é o que vamos passar o tempo a fazer. No entanto, o Insomniac diferencia Ratchet and Clank com o uso de armas irreverentes e que testam os limites da sanidade. É uma das mais importantes partes da experiência Ratchet and Clank e que mais beneficia desta postura de incutir vigor a esta renovação do original.

Não queria estar a referir muita coisa em relação à história e aos mundos que vamos explorar pois a surpresa na descoberta é parte fundamental da experiência. No entanto, é impossível não referir a primeira vez que voltámos a Metropolis em Kerwan. Para esta nova versão, foram introduzidas secções completamente novas nas quais controlámos a nave de Ratchet e abatemos as imensas naves Blarg que atacam esta cidade. Relembrando Star Fox da Nintendo, o Insomniac conseguiu novos e espectaculares momentos que são sempre patrocinados por visuais incríveis. Existem poucos momentos "Star Fox" em Ratchet and Clank mas os poucos que foram criados conseguem deixar-nos a pedir mais para um próximo jogo.

Nesta visão renovada do clássico de 2002, tão importante quanto os sumptuosos visuais é a forma como conseguiram actualizar o gameplay simples para que se sinta tão dinâmico e atractivo quanto foi há 14 anos atrás. Sabemos que Ratchet and Clank se transforma quase numa espécie de bailado sci-fi cómico quando estamos imersos no calor da acção e quando não está a saltar entre carris ou a tentar alcançar um ponto mais elevado, Ratchet está a disparar para tudo o que mexe. Além de ajustar e afinar o gameplay, foram ainda introduzidos novos segmentos de jogo totalmente inéditos.

Estes momentos com Clank, o pequeno robô que geralmente permanece nas costas do Lombax, são totalmente novos e são bastante diferentes do ritmo explosivo tradicional. Aqui, a acção e plataformas dão lugar a quebra-cabeças que nos exigem algum pensamento. Clank terá que escapar de um malvado robô descobrindo como abrir acesso à próxima sala e a mudança no ritmo é bem-vinda. Oferece novidade e variedade à experiência Ratchet and Clank tradicional. Inicialmente tudo parece simples mas vão ficar a coçar a cabeça em alguns momentos e a perguntar como é que vão conseguir ultrapassar isto.

Parte importante da coesão deste gameplay divertido e acessível, é a forma como as suas armas definem a experiência ao ponto de se tornarem praticamente nos seus principais protagonistas. Célebres pelas suas loucas criações, o Insomniac faz aqui um apanhado das favoritas dos fãs, e tal como nos restantes elementos, introduz aqui algumas que nem sequer estavam presentes no original. É aquela tal faceta "Best of" a funcionar às mil maravilhas. Se são fãs do estúdio ou da série, sabem que são irreverentes e loucas as ferramentas de destruição que são colocadas ao nosso dispor.

Armas que enviam pequenos robôs sedentos de violência, armas que colocam os inimigos a dançar, armas que enviam mísseis numa quantidade inacreditável para o seu pequeno tamanho, ou simplesmente um lança-chamas que deixa os inimigos a vibrar com um vermelho vivo, são alguns dos meros exemplos do que temos. Escrever é uma coisa porque ver o caos desenrolar à nossa frente enquanto um mar de parafusos flutua na nossa direcção, é outra completamente diferente. Existem armas mais banais, como uma sniper toda sci-fi, mas quando recebes uma arma capaz de transformar em pixeis os inimigos, é tanto uma prova da genial mente dos programadores, como é altamente divertido.

Existem algumas que prefiro deixar sem referir pois são mesmo surpreendentes mas acreditem que, após 14 de jogo, encontrar uma RYNO e ainda conseguir rir com o que ela faz, é um atestado do talento deste estúdio para estas criações, e mais uma prova que Ratchet and Clank está em grande forma.

Uma das novidades neste jogo são as cartas que os inimigos deixam ou que encontrámos. Relacionadas com os planetas ou personagens, permitem que quando o jogador completa o conjunto de três, receba benefícios extra como mais parafusos ou raritanium (material utilizado para melhorar as armas). Se encontrar as três cartas de um arma, desbloqueia a versão Omega da mesma, usada no modo Desafio que desbloqueiam ao completar o jogo. Tão importante quanto as cartas, é mesmo o referido raritanium, já que nos permite aceder ao menu de melhoramento de armas, e numa grelha seleccionar as melhorias. Pelo caminho, desbloqueamos habilidades especiais que tornam as armas ainda mais poderosas.

Escusado será dizer que visualmente está um mimo. Aquela sensação de estarmos perante um filme interactivo da Pixar que moldamos a nosso gosto, é reforçada mais do que nunca nesta jornada na PlayStation 4. Facilmente ficará entre os melhores jogos em termos visuais, e mesmo quando regressam aos planetas, será difícil não ficar maravilhado com alguns cenários. Existem pequenos momentos, pequenos elementos dos cenários que glorificam de tal forma o todo, que se torna numa experiência magnífica. Claro que existe pequenas manchas aqui e ali que revelam uma qualidade inferior ao resto, mas no gera, o grande desafio é não ficarem impressionados com a qualidade dos gráficos e das animações. Neste requisito o Insomniac nunca desapontou e aqui, na sua entrada na PlayStation 4, revela-se mais firme do que nunca.

O motor que foi usado no impressionante Sunset Overdrive da Xbox One, diga-se um dos mais divertidos jogos desta geração, foi alvo de inúmeras melhorias e surge ainda mais espantoso. Todos sabemos que a componente gráfica é fulcral para o envolvimento do jogador numa jornada desta série, é algo com o qual nos habituamos, e não vão ficar desiludidos. Pelo contrário. Poderia estar aqui a referir vários episódios que me aconteceram, uma qualquer cutscene que vi, um qualquer inimigo que derrotei, ou um qualquer local que me espantou, mas prefiro deixar que descubram por vocês próprios.

"Aqueles momentos à Star Fox são fantásticos e deixaram-nos a pedir mais."

Um dos vértices mais importantes nos exclusivos PlayStation é a localização dos seus jogos para Português de Portugal. Se quiserem ouvir os actores originais em Inglês, precisam mudar a língua da consola no menu da própria, e estão lá, mas a presença de actores Portugueses que concedem ao jogo vozes que já conhecemos, permitem que todos os fãs tenham uma experiência autêntica. Se preferem os actores originais, podem desfrutar desse magnífico trabalho que rivaliza com muitos produtos cinematográficos, mas se quiserem, até porque os mais novos agradecem, a Sony mais uma vez apresenta vozes em Português. É um benefício que fica à nossa disposição, e assegura que o rótulo de videojogo para a família é real. Especialmente importante para quem vai ao cinema com os filhos e depois quer jogar o jogo, ou no sentido oposto.

Ratchet and Clank poderá demorar entre 10 a 12 horas para ser terminado. Mais um pouco de empenho para encontrar todos os Parafusos Dourados e conseguem aproximar-se das 14 horas. Isto se fizerem todas as tarefas adicionais nos vários planetas. Assim que terminam a jornada pela galáxia e salvam o dia, surge a oportunidade de entrar no Modo Desafio. Aqui, podem começar com todas as armas, cartas e melhorias que conseguiram na primeira sessão com o jogo. Os inimigos ficam mais fortes mas se dedicaram tempo a melhorar as armas mais devastadoras, como a Pacificador, não vão ter muita dificuldade. Pelo contrário, será uma brisa até. Se forem mais crescidos e veteranos na série, será aconselhado jogar sempre no modo mais difícil e no Modo Desafio, terá ainda maior prazer. Permitirá as cartas que ficaram em falta, comprar as versões Omega de todas as armas e ainda melhorar os últimos pontos das suas grelhas.

A jornada por esta galáxia não é propriamente pequena, mas acreditem que vão ficar com vontade de mais e a existência desta espécie de New Game Plus ajuda imenso a incentivar o jogador a repetir o jogo. Uma boa parte dos Troféus apenas podem ser obtidos com a ajuda desta segunda sessão em Modo Desafio e os mais dedicados à série não o vão querer largar. A vontade de reviver alguns dos melhores momentos é tanta que funciona também como um atestado da qualidade do trabalho do estúdio Insomniac. Por outro lado, a dificuldade e a presença deste modo e desafios adicionais, prova que o jogo pode ser jogado pelos mais novos mas também pelos mais graúdos que querem maior sensação de dificuldade.

Ratchet and Clank aterra na nova geração com uma jornada ao passado. Uma viagem na qual parte munido de todas as ferramentas de destruição que o tornaram numa referência popular entre os adeptos PlayStation. Será fácil terminarem este jogo com o sabor de que foi o melhor que já tiveram. É aquela tal postura de "Best of" do Insomniac que pegou em tudo o que gostamos e refinou ao ponto de tornar irresistível a experiência. Pena mesmo que a dificuldade seja demasiado acessível para os veteranos e que ao apresentar-se como um remake do original, por mais espantoso que seja, não consiga apresentar elementos gameplay que revolucionem a série. Mas isso é ser quase mesquinho pois a diversão que providencia e a qualidade que apresenta, é uma carta de amor aos fãs escrita com todo a mestria.

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Sobre o Autor

Bruno Galvão

Bruno Galvão

Redator

O Bruno tem um gosto requintado. Para ele os videojogos são mais que um entretenimento e gosta de discutir sobre formas e arte. Para além disso consome tudo que seja Japonês, principalmente JRPG. Nós só agradecemos.

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