Arslan: The Warriors of Legend - Análise

E que bela lenda.

Arslan é uma lenda que encaixa bem com a experiência Musou, mas é pena a sua curta longevidade e poucos incentivos para repetir.

Depois de Dragon Quest Heroes, One Piece: Pirate Warriors 3 e Dynasty Warriors 8: Empires, o ano de 2015 foi bem recheado no que diz respeito a experiências Musou aqui por casa. Este Arslan Musou, na verdade Arslan: The Warriors of Legend, foi outra das propostas do ano anterior mas que só agora chega à Europa e, tal como as outras colaborações do estúdio Omega Force da Koei Tecmo, vem reforçar a ideia que é nestas produções que o género mais diverte ao apresentar maior diversidade nas suas mecânicas de jogo. Enquanto a série principal se continua a focar na incessante e frustrante captura de zonas, as colaborações bebem do material fonte para ramificar as potencialidades.

Arslan é um perfeito exemplo de como uma fórmula tão gasta, que teima em apresentar inúmeros lançamentos anuais, consegue ostentar poder para cativar as multidões de jogadores que jogo após jogo ainda continuam a jogar mais um Musou. Repetida até à exaustão, a experiência Musou encontrou sinais de revitalização nestas colaborações e depois de Dragon Quest Heroes ou Hyrule Warriors, o ritmo continua em alta com mais uma estreia, inspirada na obra Yoshiki Tanaka, adapta para manga pela mão de Hiromu Arakawa. As suas incríveis e épicas batalhas facilmente encaixam na experiência Musou, afinal de contas os personagens imponentes com capacidades especiais já estão presentes no material fonte, tal como os momentos em que um enfrenta imensos.

Basta relembrar os momentos em que Daryun investe sobre grupos de soldados ou quando Kubard derrota formações inteiras, e temos a perfeita noção que tem tudo para dar certo. Assim sendo, navegando na crista da onda criada por um ritmo de colaborações bem sucedidas, o Omega Force repete a dose com uma aposta nos mesmos valores. Concilia a sua experiência Musou com um incrível respeito e conhecimento pelo material fonte que deixará os fãs de qualquer um dos lados convencidos que precisa jogar este jogo. Pelo menos é o que Arslan: The Warriors of Legend pretende e apesar de facilmente ficarmos com a sensação que é mais um entre muitos outros, uma mão cheia de devotos fãs vão conseguir apreciar o sabor desta experiência.

Arslan: The Warriors of Legend é somente o quarto jogo Musou do Omega Force em menos de um ano por isso é fácil compreender porque se tornou numa série tão caricata e sensível aos olhos da indústria. No entanto, será no apreço pela colaboração com a qual se une que a experiência conquistará maior apelo. Afinal de contas, de que vale toda a controvérsia da internet, se jogo após jogos a editora continua a conseguir o interesse dos fãs e vendas satisfatórias.

Um conto das Arábias

Arslan Senki é uma história de tramas políticas e sociais, numa era em que a guerra era o meio de conquistar a razão. Andragoras é o rei de Pars, um reino que conquistou o respeito das nações vizinhas devido ao seu incrível poder bélico, especialmente devido aos seus Marzbān, comandantes dotados com incríveis capacidades físicas e mentais. Ecbatana, a capital de Pars, é o local onde iremos encontrar Arslan, um jovem príncipe que nada tem haver com o seu pai, Andragoras. Humilde, gentil e preocupado com o bem estar dos outros, Arslan é o protagonista desta trama que mesmo para os que não acompanharam a anime, será altamente interessante. Mesmo que não aborde em pleno todos os instantes vistos na televisão, o final até é ligeiramente diferente, faz um excelente trabalho para mostrar a sua profundidade e apelo.

Ecbatana, cidade que existiu onde agora é o Irã já que Pars é uma das antigas zonas desse país, é casa para incríveis soldados cuja honra é o seu maior valor. No entanto, de nada lhes valem esses valores quando os soldados de Lusitania, os Europeus invasores que partiram para o Médio Oriente para apregoar a sua religião, invadem Pars e derrotam Andragoras na batalha de Atropatene. Quando no meio dos invasores surge uma misteriosa figura que diz ser o verdadeiro herdeiro do trono de Pars, a vida de Arslan muda radicalmente. Este é o ponto de partida para a incrível jornada do jovem Arslan e de todos os bravos guerreiros que se vão juntar à sua causa. Uma incrível história de traição, usurpação, religião, política, debates sociais, e até moralidade.

O trabalho do Omega Force engloba toda a temporada da anime e oferece a oportunidade de jogar uma versão Musou de todas as principais batalhas, ou duelos, que vimos ao longo de Arslan Senki. Quer isto dizer que teremos a oportunidade de jogar com Arslan mas também com Daryun, Narsus, Elam, Alfrid, Faranguis, Gieve, Jaswant e outros Marzbān que após a batalha em Atropatene permaneceram fiéis a Arslan. A luta pelo futuro de Pars e pela identidade de Arslan começa aqui.

Musou versão Arslan Senki

Quando pensamos nas situações que presenciamos ao longo da anime ou manga, Arslan Senki já era uma espécie de Musou. Um só personagem dotado de capacidades atléticas incríveis e habilidades especiais, frente a uma enorme quantidade de adversários, foram momentos que vimos ao longo da primeira temporada. No entanto, existia uma incrível sensação táctica, especialmente com a presença de Narsus que se assegura que uma batalha era muito mais do que um infindável embate de espadas. Arslan Musou tenta oferecer uma sensação diferente ao molde padrão graças a estes valores e à constante necessidade de respeitarmos uma estratégia superior.

Na grande maioria dos níveis, o jogador terá objectivos para respeitar e terá que eliminar alvos ou ser rápido o suficiente a chegar a um determinado local. O maior prazer que tive com este Arslan Musou foi mesmo constatar que não se foca na repetida captura de zonas, que obrigam jogador a percorrer duas vezes o mapa, passando pelos mesmos locais, apenas para prolongar a longevidade. Aqui, a fórmula Musou procura recriar com todo o brio o que vimos na anime e isto significa um bom ritmo nos níveis, uma progressão que, não sendo de forma alguma linear ou apressada, nos faz sentir que o combate decorre num rumo credível. Não andámos às voltas pelos cenários.

Outras mecânicas que ajudam a imprimir um tom diferente ao gameplay, dentro do possível sem perder a essência Musou, é o sistema de combos, ou "Chain" como lhe chamam aqui. O jogador tem uma arma ao seu dispor, de três possíveis que vai desbloqueando ao subir de nível, e pode alternar entre elas em tempo real. A dada altura, terá até nível suficiente para lhes atribuir dano por elemento, como fogo ou vento. Apesar de envergar uma arma que pode trocar quando quiser, estes personagens permitem que ao terminar um combo com um ataque forte, o jogador possa activar um golpe que troca de arma automaticamente e continua os ataques para depois automaticamente voltar à arma original.

Se conseguir, o jogador entra num jogo de ritmo no qual começará a ver o número de golpes ascender às centenas. É uma mecânica interessante que oferece uma sensação pessoal a esta experiência e encaixa bem no universo Arslan. Além de diversificar os combos e permitir momentos visuais espectaculares sem complicação nos comandos, é outro meio para envolver o jogador e pedir que aumente a sua habilidade no domínio do jogo. Obriga a um maior foco e evita um martelar aleatório dos botões pois se o jogador quiser encadear um grande número de golpes, terá que saber o que está a fazer.

Duas mecânicas específicas de Arslan Musou são as Marzbān Rush e as avaliações por desafio. As Marzbān Rush são activadas em locais específicos de cada cenário, contextualizado com a história da qual foram recriados, onde o jogador poderá iniciar uma investida fulgurante com o apoio de um grande número de soldados do seu exército. Desta forma, pode abrir novos caminhos no cenário ou despachar rapidamente um grande número de inimigos. Não está ao seu dispor sempre que pretende, terá que encontrar essas zonas nos cenários em fases específicas, mas é aconselhado tirar o máximo proveito delas quando surgem.

As avaliações por desafios são outro dos factores que conseguem imprimir uma sensação extra de dificuldade em tempo real. Tal como visto na anime, uma batalha não é como uma seta que segue firme na tua trajectória. Existem diversas fases e teremos que corresponder a cada uma delas. O jogador recebe uma missão, que recria momentos da anime, e se a completar dentro do tempo apresentado, receberá uma avaliação e consequente recompensa. Poderá ser uma carta de habilidade especial ou então um livro de receitas. Estes livros podem ser usados para melhorar certos atributos antes de iniciarmos um nível no modo Free e as cartas de habilidade melhoram as estatísticas do personagem. Quando o jogador dá por ela, sente aquele desejo de ter a melhor pontuação e quando vê uma Marzbān Rush, sabe desde logo que está em Arslan Musou.

Cartas de Habilidades

Em cada colaboração, o Omega Force pega em elementos que caracterizam o material fonte e combina-os com a sua experiência Musou, criando um título que sem deixar de ser um Musou, é decididamente capaz de espelhar os valores dessa propriedade. Visto de uma forma soberba em Dragon Quest Heroes, o Omega Force volta a recorrer a esses mesmos valores para tornar Arslan Musou num título com a sua personalidade, mesmo tendo quase tudo em comum com os demais jogos que vai desenvolvendo. Nesta luta entre Marzbān e príncipes, o jogador terá a oportunidade de aumentar as suas probabilidades de vitória e até personalizar, de certa forma, o tipo de experiência que terá pela sua frente. Para isso, precisará de equipar ou sintetizar cartas de habilidades.

Enquanto vão combatendo, os personagens vão ganhando experiência e sobem de nível. Sempre que o fazem, melhoram os seus atributos ou a arte no manusear de diferentes armas. Entre as estatísticas que temos à nossa disposição, como força ou defesa, existem ainda outros parâmetros que podem ser aumentados com o recurso a cartas de habilidade. A probabilidade de encontrar tesouros ou obter mais ataque em troca de menor defesa são algumas das possibilidades. Estas cartas são largadas por alguns inimigos mais fortes ou então podem ser criadas. Escolhendo três que reforçam os valores que mais considera importantes, o jogador melhora os seus personagens.

Existem cartas de diferentes classificações, de "C" a "S", e se não encontrar a que gosta, pode sintetizar uma através de várias. Será preciso pagar dinheiro e poderá não ter o resultado desejado mas sempre podem arriscar. Estas cartas parecem insignificantes quando jogamos em modo Normal mas se quiserem enfrentar as dificuldades superiores, será necessário um bom leque de cartas. É um belo toque que no fundo poderá ser quase uma mera curiosidade mas até funciona para dar um toque de singularidade a esta experiência Musou.

Visuais que respeitam a anime

Existem momentos em que o Omega Force quer mesmo impressionar e demonstrar como os visuais, os dos personagens principalmente, estão altamente próximos do que vimos na anime. Arslan, Farangis, Gieve, Daryun e todo o elenco deste Arslan Senki surgem com uma qualidade brilhante e nitidamente superior à qualidade dos cenários, que alternam entre o agradável e o razoável. O destaque está mesmo nos personagens que recuperam com grane qualidade os modelos vistos na amime e nas transições de cutscene para gameplay que conseguem espantar. O motor de jogo nos títulos Musou tem revelado uma satisfatória versatilidade e em Arslan volta a reafirmar esses valores.

Estes valores ficam ainda mais fortes pois se quiserem, podem jogar todo o modo história sem ecrãs de carregamento. Enquanto o jogo grava os dados ou carrega o próximo nível, vamos assistindo a cenas da anime que nos contam todos os acontecimentos necessários para contextualizar a próxima batalha. Pelo meio, vamos conhecendo as personagens, vamos conhecendo os dramas e motivações de Arslan com uma direcção que se foca no importante. Não vão ficar a par de todos os acontecimentos da anime, nem tão pouco terão cenas inéditas à excepção do final ligeiramente alterado, mas o resultado é satisfatório. Para os que não viram a anime, o jogo consegue apresentar uma boa narrativa e identificar os principais valores de Arslan Senki, convertidos para um videojogo.

O jogo corre na sua grande maioria sem soluços ou quaisquer problemas, apesar do elevado número de inimigos no ecrã, e todos os golpes especiais são executados com grande estilo visual. É um departamento no qual o Omega Force não falhou e conseguiu um resultado que vai apaixonar todos os adeptos da anime. Será certamente um dos maiores valores para qualquer pessoa que jogue este Musou.

O que sobra em Pars?

No que diz respeito a longevidade e tarefas que incentivam o jogador a regressar aos palcos de combate, Dragon Quest Heroes e One Piece: Pirate Warriors 3 foram fascinantes. Não porque te obrigam de forma descarada a repetir o mesmo capítulo para aumentar artificialmente o número de horas registadas no teu save, mas sim porque ofereciam incentivos genuínos que nos deixavam com vontade de enfrentar diversas vezes o mesmo cenário. A criação de itens, missões adicionais, melhor ranking, obter mais dinheiro para comprar melhores armas, seja o que for, estes dois jogos conseguem ser bons exemplos de como incentivar o jogador a permanecer mais tempo à sua volta.

Arslan é um jogo altamente divertido e com uma história que nos envolve mas em termos de duração consegue desanimar. Para terminar o modo história, em Normal já que as outras duas dificuldades superiores são desbloqueadas depois, o jogador precisará algo como 15 horas, o que poderá ser pouco para um jogo Musou. Os incentivos a repetir os níveis não são muitos e a única alternativa é o Free Mode. Aqui podem escolher qualquer um dos personagens, escolher qualquer um dos cenários e jogar à vontade.

É a tradicional ferramenta para apresentar situações diferentes ao jogador e permitir que jogue certos níveis com outros personagens que de outra forma não seria possível. No entanto, não disfarça a curta longevidade da experiência. O único incentivo a passar mais tempo com o jogo estará lá apenas para os mais acérrimos que queiram levar ao máximo o seu investimento. Após melhorarem o nível dos vossos personagens no modo Free, podem regressar ao modo Story e com um personagem mais forte procurar obter melhor pontuação nos diversos desafios espalhados pelos níveis.

Para os olhos do mundo, as experiências Musou são um frenesim incessante de botões que são martelados sem que o jogador faça mais nada. No entanto, para uma mão cheia de adeptos, os trabalhos do Omega Force estão a crescer, estão a ramificar a experiência, que outrora foi rudimentar, e estão a aproveitar com belo estilo os materiais que recebem nestas colaborações. Arslan: The Warriors of Legend é um jogo visualmente apelativo e na sua essência um Musou simples mas com alguns encantos seus. Os visuais e a história são um brinde entregue pela anime Arslan Senki e o sistema de cartas ajuda a aprofundar um pouco mais o gameplay. Pena não terem sido criadas outras formas de explorar a série e reforçar o valor geral deste Musou.

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Sobre o Autor

Bruno Galvão

Bruno Galvão

Redator

O Bruno tem um gosto requintado. Para ele os videojogos são mais que um entretenimento e gosta de discutir sobre formas e arte. Para além disso consome tudo que seja Japonês, principalmente JRPG. Nós só agradecemos.

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