Uma produção da Milestone que deixa muitos sinais positivos, mas ainda carece de afinação na jogabilidade e mais polimento gráfico.

O estúdio Milestone, que está na origem de Sébastien Loeb Rally Evo, é daqueles que melhor evidenciam a paixão e motivação pela produção de certos jogos, mesmo quando os orçamentos disponíveis ficam muito aquém dos facultados por outras editoras e os resultados nem sempre são os melhores. Começou como um pequeno estúdio, durante anos a fabricar experiências que oscilavam entre as duas e as quatro rodas. Há pouco tempo mudaram de instalações. Permanecem em Milão, num edifício maior e com melhores condições, mas permanecem fieis ao desporto motorizado, não devendo daí descolar. A presente geração de consolas e a evolução do PC levou-os a contratar mais pessoal e a subir a parada nas novas produções. Sébastien Loeb é o espelho desse interesse e fasquia estabelecidos, bem patente na contratação do piloto nove vezes campeão do WRC para dar nome ao jogo. Mas será este o jogo capaz de deixar os fãs dos ralis à beira da felicidade, como outros estúdios conseguiram?

Screamer Rally (1997) é um dos jogos oriundos da Milestone que recordo particularmente, integrado numa primeira vaga de jogos do estúdio. Uma produção marcadamente arcade que nem ficava a dever muito relativamente a Sega Rally. Depois, vieram os nomes de pilotos e com eles experiências mais demarcadas e apaixonantes: Colin McRae Rally, Richard Burns Rally (ainda hoje uma das melhores simulações), embora com tropeções comoTommy Makkinen Rally. A recuperação de Sébastien Loeb representa claramente um virar de página por parte da Milestone, uma tentativa de se imiscuir entre os grandes (Dirt: Rally) e de abrir uma série mais sua e menos dependente das licenças, depois de um "stint" cumprido na geração passada a fazer jogos com o selo WRC.

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Os quase vinte quilómetros de Pikes Peak são um verdadeiro desafio à concentração.

Sébastien Loeb Rally Evo é como um novo começo, um jogo que garante mais liberdade, ao percorrer carros de diferentes gerações de ralis, abraçando categorias específicas como Ralicrosse e Pikes Peak, penetrando na carreira do piloto francês que dá nome ao jogo, como alternativa ao modo carreira, contando com o seu contributo em termos de transmissão de conhecimento. Como sucedera nas duas rodas, em Ride, também aqui é perceptível um sentido de evolução. Em termos de valores de produção, apresentação e cuidado, Sébastien Loeb Rally Evo é um jogo mais limpo, mais "next-gen", com uma oferta muito grande de conteúdos, marcada por abranger diferentes modalidades mas também um conjunto forte de carros e troços, bem desenhados e bastante realistas.

Claramente mais maturado e desenvolvido, fica desde logo patente na passagem pelos menus o cuidado que os produtores tiveram em fornecer uma espécie de "briefings" sobre os modos, alertando o jogador para aspectos cruciais. O ponto de partida é francamente positivo, ilustrado no progressivo modo carreira, constituído por diferentes categorias, organizadas com base nos carros menos potentes e fáceis de conduzir, até aos monstros sagrados dos anos oitenta. O melhor das diferentes décadas da história dos ralis está aqui. O jogador é levado a experimentar carros como o Alpine A110, Audi Sport Quattro, Lancia Stratos, Peugeot 205 Turbo, Renault 5 Maxi Turbo, sem esquecer o Ford RS200, o Peugeot 206 WRC, Subaru Impreza WRC, entre muitos outros, em particular muitos dos carros guiados pelo astro francês Loeb, o piloto com mais títulos do WRC.

Em termos de veículos as opções são fortíssimas e encontramos carros para todos os gostos. É difícil encontrar algum rival à altura de Sébastien Loeb Rally Evo quando somos convidados a seleccionar um carro. Naturalmente, não se encontram todos disponíveis na primeira fase. Alguns são obtidos depois de superados certos desafios, enquanto que outros podem ser comprados com base nos créditos ganhos com o alcance dos melhores resultados, num modo carreira que nos deixa progredir numa espécie de "ranking" mundial.

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É possível ajustar o momento do dia para correr numa especial.

Por outro lado, cumpre elogiar mais do que a quantidade, a qualidade dos troços cronometrados. Para lá das especiais que compõem alguns ralis do campeonato do mundo, encontramos percursos de ralicrosse, com destaque para o circuito montado em Los Angeles, mesmo junto ao Staples Center. E depois ainda temos o percurso completo em Pikes Peak, com todas as curvas e altimetrias descritos com todo o rigor. Em termos de ralis temos: Monte Carlo, Suécia, México, Alsácia, Finlândia, Sanremo, Austrália e Gales. Logicamente que gostaríamos de ver o rali de Portugal incluído, com as especiais do norte, particularmente em Fafe ou então o circuito de Montalegre ou Lousada, para o ralicrosse, mas isso terá de ficar para uma próxima oportunidade. Pese embora a ausência de ralis que integram o WRC, como o rali de Portugal ou de Espanha, as especiais presentes no jogo beneficiam de uma descrição muito fiel e assertiva, equiparando-se por completo aos percursos reais.

Algumas das especiais mais bonitas estão no Monte Carlo, em Sanremo e na Finlândia. No Mónaco sente-se a ondulação do asfalto, nalguns pontos com irregularidades, com destaque para as altimetrias e contorno à volta das casas, que na realidade estão lá, naquele ponto. O jogo tem algumas das especiais mais bonitas de sempre.

"Algumas das especiais mais bonitas estão no Monte Carlo, em Sanremo e na Finlândia"

Isso representa um acréscimo de interesse, desafio e dificuldade pois não só encontramos zonas muito estreitas e apertadas, repletas de perigos, como encontramos rampas (por vezes largas e com boa visibilidade) onde podemos arriscar um pouco mais. As especiais do rali da Finlândia são particularmente interessantes, uma espécie de Suécia sem neve e secções muito apertadas onde o mínimo descuido não é tolerado. O próprio desenho das pistas oferece imensos desafios para quem conduz e aqui cumpre destacar a importância das notas do navegador, cruciais para se obter um melhor desempenho. Prestação essa que está longe de se conseguir com base em "drifts". A melhor condução é a mais eficiente e a melhor forma de perder menos tempo numa curva é evitar derrapagens. Descrever a trajectória correcta, assegurando uma entrada e saída de curvas rápida garante quase sempre luz verde no sector e uma quase certa vitória no troço.

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Mesmo sendo menos potentes, alguns carros provocam emoções fortes.

Por vezes acontecem alguns despistes ou embates fortes numa rocha ou separador que nos deixa com um pneu furado ou com problemas de suspensão. Nada é assinalado no ecrã e ficámos sem conhecer a gravidade dos danos. Podemos prosseguir até ao final, se estes não forem graves, ou então fazemos "rewind", puxando o tempo para trás, evitando o percalço. Trata-se de uma funcionalidade algo transversal à maioria dos jogos de condução, ficando como critério do jogador a sua utilização ou não.

A juntar ao extenso modo carreira, organizado por categorias e imensas provas, acresce a carreira de Sébastien Loeb, um périplo organizado pelos momentos altos da sua carreira, desde a sua estreia no troféu Citroen Saxo, passando pelo primeiro título no mundial de ralis, até às últimas participações no WRC. Destaque para a participação do francês em Pikes Peak, numa prova que levará o jogador a fazer os quase 20 km de distância a bordo do Peugeot 208 T16. Os comentários de Loeb, sobre os momentos altos da sua carreira complementam com sucesso uma opção do jogo muito apetecível.

"Destaque para a participação do francês em Pikes Peak, numa prova que levará o jogador a fazer os quase 20 km de distância a bordo do Peugeot 208 T16"

Mas nem tudo são rosas naquela que é a produção mais desenvolvida pela Milestone. A condução é o ponto que impede o jogo de ombrear taco a taco com Dirt Rally, que depois da estreia no PC, já ganhou luz verde da Codemasters para chegar às consolas, trazendo consigo uma física melhor e mais estabilidade. É verdade que há coisas que o jogo da Milestone faz muito bem, mas no tocante à física e contacto do carro com os pisos ainda há bastante trabalho a efectuar. A condução apresenta alguns tropeções e irregularidades e uma tendência para apontar o carro facilmente para um lado e para o outro, enquanto que o cumprimento das leis da física devia ser mais exímio. Por vezes fica a sensação de carros demasiado leves, com pouca aderência, de uma tendência quase desmesurada para se perder a frente do carro mesmo a pouca velocidade, e de menos colagem ao asfalto.

A isso juntam-se alguns problemas em termos gráficos e a pouca aptidão de algumas perspectivas, como as exteriores, com as quais se verifica uma perda notória da sensação de velocidade e um controlo dos carros não muito sedutor. A perspectiva interior não se perfila como melhor. Só a perspectiva sobre o capôt nos deixa mais seguros a conduzir, com mais abertura sobre a pista e melhor audição do motor (podia estar mais sonoro). É verdade que o jogo contempla belas especiais e fundos agradáveis, diferentes tonalidades de cor consoante a hora do dia, mas depois também encontramos falta de texturas e um "pop up" algo persistente. Nas repetições é demasiado óbvia a quebra de "frame rate". Podemos tirar uma boa chapa para mostrar aos amigos, mas em movimento algo não bate muito certo, faltando fluidez.

Estas irregularidades e sobressaltos na condução afectam o desempenho e performance do jogo, se o colocarmos diante de um Dirt: Rally, capaz de uma condução mais sólida e gratificante. Sébastien Loeb Rally Evo é claramente um passo em frente na Milestone e haverá quem fique satisfeito pelo grau de evolução verificado e por contar com especiais belíssimas, muitos carros e um modo carreira e experiência Loeb que outros jogos do género deviam ter em conta, mas falta-lhe aquela condução mais apaixonante e desafiante. É um jogo ainda ligado a uma certa dificuldade em encontrar o equilíbrio, tal como em muitos jogos do passado, sem conseguir uma condução consistente e atractiva. Talvez numa sequela a Milestone possa colmatar este ponto e fazer da sua nova série um valor seguro na vertente dos simuladores.

Capaz de proporcionar duas faces, vemos em Sébastien Loeb Rally Evo o melhor e o pior. Ficámos agradados com a quantidade de conteúdos, modos de jogo, rigor no desenho das especiais, como se toda a envolvente dos ralis estivesse lá, para depois nos deixar um sabor a desilusão no tocante à condução e uma produção gráfica que apesar de boa ainda não está isenta de falhas, claramente os maiores obstáculos ao sucesso do jogo. Sem a consistência e coesão que encontramos noutras produções do mesmo género, ainda não é desta que a Milestone consegue chegar à frente da concorrência.

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Sobre o Autor

Vítor Alexandre

Vítor Alexandre

Redator

Adepto de automóveis é assim por direito o nosso piloto de serviço. Mas o Vítor é outro que não falha um bom old school e é adepto ferrenho das novas produções criativas. Para além de que é corredor de Maratona. Mas não esquece os pastéis de Fão.

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