Star Wars Battlefront - Análise

O lado cinzento da Força.

Battlefront é divertido, mas o gameplay mostra desequilíbrio na força e poderá assumir um ritmo frustrante.

Com a chegada de Star Wars Episódio VII: O Despertar da Força, o universo Star Wars está ao rubro, e como não podia deixar de ser, a indústria dos videojogos precisa estar envolvida. Graças a um acordo com a Disney, a Electronic Arts conseguiu entregar ao estúdio DICE a possibilidade de combinar a sua incrível tecnologia Frostbite 3 com o espantoso universo imaginado por George Lucas. É provavelmente o maior sonho possível de concretizar neste actual estado da indústria dos videojogos, e desde o primeiro instante que Star Wars Battlefront tem surpreendido em termos visuais. A espectacularidade visual desta magistral jornada de emoção e aventura, repleta de conceitos morais escondidos entre tiros de laser, é uma das suas maiores riquezas, e em todos os instantes sentimos que foi impresso imenso cuidado e dedicação para maximizar a fidelidade.

Desde logo soube que analisar um título como este seria algo extremamente sensível dada a magnitude da propriedade. É fácil visualizar apenas o que gostámos e deixar de lado o que de menos bom tem para oferecer. No entanto, desde a beta que Star Wars Battlefront parece ser uma espécie de lado cinzento da Força. Um meio termo que facilmente dividirá opiniões, independente do seu gosto pelas obras que encantaram gerações de crianças e adultos. Desde os primeiros instantes que fica algo aparente em Battlefront, que o DICE seguiu os conselhos dos mais sábios mestres Jedi e optou por uma postura de: "fazer ou não fazer...não existe tentar." A mítica frase de Yoda em Dagobah durante o Império Contra-Ataca (e isto foi só aquele momento desnecessário para provar a quem lê que sou fã da obra e que já vi os filmes mais vezes do que gostaria de admitir ao lado dos tipos fixes lá do café) parece ter sido o lema para o estúdio Sueco.

Numa fase da indústria em que os principais estúdios dedicados aos jogos de acção investem o seu tempo em campanhas de imponente escala com acção repleta de fogos-de-artifício, o DICE preferiu não tentar sequer desenvolver uma vertente a solo nesses moldes e preferiu atribuir ao multi-jogador competitivo todo o peso da experiência. É fácil sentir frustração e até revolta quando pensamos em como o Frostbite 3 poderia ter patrocinado a melhor campanha de sempre num videojogo de Star Wars, mas não podemos seguir por esse tão frágil caminho que nos leva para o lado negro da força. No entanto, tal ausência marca definitivamente o título, e por muito que queiram sentir a calma e tranquilidade de espírito dignos de um Jedi, quase se torna impossível olhar para Battlefront sem ver o que tem, o que não tem, e qual o peso de cada decisão.

Facilmente criticados pelas suas anteriores campanhas, o DICE provavelmente cedeu ao peso da responsabilidade e preferiu não arriscar sequer. A alternativa é acreditar que de forma a capitalizar ao máximo com o lançamento do novo filme, o estúdio não teve tempo para desenvolver uma campanha e preferiu lançar o jogo assim para estar nas lojas no timing mais oportuno, mas isso são outras contas. Claro que não podem movimentar a mão e dizer aos jogadores 'esse não é o modo que procuras' pois inevitavelmente, iremos perguntar o que temos antes de entrar nos servidores.

Desde os primeiros instantes que os mais acérrimos jogadores dos jogos de acção, seja na primeira ou na terceira pessoa, já que Battlefront permite jogar nas duas perspectivas, vão sentir que o jogo nos trata como se esta fosse a primeira vez. Talvez seja o peso do nome, saberem que muitos jogadores seriam aliciados a viajar para esta galáxia tão distante. Depois de um breve tutorial que vos explica como correr, apontar, disparar, que não existe recoil, que os itens azuis espalhados pelos cenários são power-ups que nos deixam entrar em Tie Fighters, A-Wings, ou até sermos Luke Skywalker, dependendo do modo de jogo, ficamos com a possibilidade de entrar em três vertentes diferentes da experiência a solo ou cooperativa, para até dois jogadores.

O modo Treino permite aceder a 5 níveis diferentes, todos eles feitos para ensinar ao jogador todos os parâmetros da experiência. O Beggar's Canyon é onde iremos voar pelos céus e aprender a utilizar uma X-Wing para o modo Fighter Squadron onde lutam duas equipas de 10 jogadores cada. O Endor Chase é mesmo uma prenda que recria o segmento de perseguição em O Regresso de Jedi, Overpower prepara-vos para os modos Supremacy e Walker Assault, The Dark Side permite que sejam Darth Vader ou Darth Sidius e limpem a base rebelde em Hoth, enquanto Invasion é uma recriação dos instantes iniciais em O Império Contra-Ataca onde temos que defender os geradores dos AT-STs e Walkers, usando até os cabos para prender as suas pernas metálicas.

As batalhas permitem que escolham os rebeldes ou imperiais para se enfrentarem num dos quatro planetas disponíveis. Alternativamente, podem seleccionar um Herói e jogar com ou sem esquadrão de suporte contra sucessivas vagas de adversários até alcançarem 100 pontos. Por fim, temos o modo survival que apelará ao cooperativo, já que teremos que enfrentar sucessivas vagas de adversários que vão ficando cada vez mais fortes. Estes são então os modos a solo, ou cooperativos, que Star Wars Battlefront tem para oferecer. São meros tutoriais, meras alternativas de pálida qualidade para quando os servidores falharem e que vos ensinam a controlar os personagens, e vos prepara para o competitivo multijogador. Num jogo cuja maior crítica está na escassez de conteúdos, Battlefront não faz nenhum favor a si mesmo quando nos apresenta uma vertente a solo que dura pouco mais de uma hora. Depois será uma questão de encontrarem, ou não, vontade para completar todos os objectivos opcionais e amealhar todos os créditos que dão. Poucos vão sentir esse apelo.

"Num jogo cuja maior crítica está na escassez de conteúdos, Battlefront não faz nenhum favor a si mesmo quando nos apresenta uma vertente a solo que dura pouco mais de uma hora."

Nesta tentativa de apresentar a maior fantasia de sempre aos fãs de videojogos e de Star Wars, o DICE focou-se no multijogador competitivo para recriar alguns dos momentos mais icónicos da trilogia original. Estabelecendo uma ponte entre passado, presente e futuro, já que temos os três primeiros filmes e teremos novidades da próxima trilogia, sem nada que relembre a segunda, tudo foi feito para afastar a sensação de uma ameaça fantasma que pairava sobre a eterna questão de quantidade vs. qualidade. Ao todo temos 9 modos de jogo, de diferente escala e número total de jogadores, ao longo de quatro planetas: Tatooine, Endor, Sullust e Hoth. Existem aqui modos banais como Blast (todos contra todos), Drop Zone e Droid Run (captura e defesa de pontos específicos), e Cargo (o captura a bandeira versão Star Wars), que conseguem cativar graças à pintura Star Wars. No entanto, a magia estará em outros modos feitos a pensar nesta icónica serie.

Modos como Supremacy ou Walker Assault são os modos que dão razão de existir a este Battlefront. Ao todo podem estar 40 jogadores, divididos em duas equipas de 20, em que um lado tentará impedir que o outro avance e cumpra o seu objectivo. Inevitavelmente, temos os rebeldes de um lado à procura de adiar a incursão imperial, que tenta desactivar postos de controlo para que os seus Walkers e Tie Fighters invadam os planetas. Se os rebeldes conseguirem aguentar até o tempo terminar ou se conseguirem a proeza de destruir os Walkers, então vencerão. São estes dois modos, com toda a sua imponente escala, que vão facilmente impressionar os jogadores. No entanto, existem mais três modos que usufruem das potencialidades desta propriedade.

Hero Hunt coloca uma facção frente a uma conhecida figura da facção oposta, enquanto Heroes vs. Villains permite que um esquadrão liderado por Han Solo, Leia ou Luke enfrente um esquadrão liderado por Sidius, Vader ou Fett. Por fim, temos o fantástico Fighter Squadron que nos deixa voar pelos céus (não pelo espaço infelizmente) em confrontos de 10 contra 10 em que os Interceptors e os X-Wings partilham os céus em furiosas batalhas. Comum a praticamente todos os modos de jogo, são power-ups que nos permitem transformar em heróis e enquanto a vida durar, subir o tom da acção e varrer os adversários. São dos melhores momentos que podem ter, seja qual for o modo de jogo em que estão a investir o vosso tempo.

A escassez de conteúdos é evidente e a sombra do Passe de Temporada parece gritar que foram cortados conteúdos para vender mais tarde. Procurando não ceder ao lado negro da força, prefiro acreditar que as restrições de tempo prejudicaram a inclusão de mais planetas ou modos de jogo. Ainda assim, quando temos 9 modos de jogo, alguns deles colossais, em quatro planetas vestidos à Star Wars, é impossível não ficar entusiasmado. Mesmo depois de poucas horas de jogo já ter descoberto todos os mapas e de os repetir vezes sem conta, não senti fadiga em termos de conteúdos, o que me surpreendeu pela positiva. O verdadeiro peso da experiência não está na quantidade dos seus conteúdos mas sim na qualidade dos mesmos. No entanto, existe um elemento mais importante que é o gameplay.

Rapidamente vão descobrir que em Star Wars Battlefront, disparar na perspectiva normal ou pelo cano da arma é o mesmo. Apenas trocam tempo de reacção por uma perspectiva aproximada do inimigo. É algo importante, já que estamos perante um jogo de impulsos no qual o alto ritmo dita que temos que ser precisos nos disparos. Em muito ajuda o facto de não existir recoil e podermos disparar à vontade. O único elemento que incute alguma gestão será o sistema de aquecimento/arrefecimento da arma, que é variável, que vos mostra que se continuarem vão ficar algum tempo sem poder disparar. É um dos elementos mais importantes da jogabilidade, mas que ainda assim, tal como tudo em Star Wars Battlefront, facilmente poderá tornar-se secundário e sem o peso desejado.

Como se a frágil questão dos conteúdos não fosse suficiente para afectar Battlefront, a jogabilidade poderá facilmente afastar-vos do jogo, e nem sempre o gozo de jogar só porque é Star Wars conseguirá triunfar. Rapidamente podem ficar perante uma experiência frustrante em que o ritmo de jogo é constantemente quebrado e o prazer dilui. Confesso que, apesar de perceber o impacto da sua ausência, abracei em pleno o tom quase exclusivo do multijogador competitivo e consegui divertir-me em espaços. Isto porque rapidamente Battlefront poderá enxovalhar o jogador e este sentir-se-á imponente quando perceber que a sua habilidade conta pouco. Esta foi a pior sensação que Battlefront me deu, a que não importa o quanto jogam e o quanto se dedicam à aprendizagem dos mapas ou armas, a jogabilidade está feita para banalizar a experiência e equilibrar os mais dedicados com os casuais.

Armas especiais que matam com um só tiro, nascer com inimigos nas costas, granadas por todo o lado e o ritmo horrível no modo Drop, são alguns dos elementos que mais afectam este Battlefront. Será altamente difícil conseguirem um rácio de mortes positivo. Nem interessa se o adversário está a jogar bem, apenas vão sentir há quem tenha melhor equipamento que o vosso ou então que o jogo está mesmo chateado convosco. Aliás, se quiserem escapar a maiores frustrações, não hesitem em jogar Battlefront num grupo de amigos para através da comunicação facilitar. Isto é comum a praticamente todos os jogos multijogador, mas aqui é imperial. A sensação de que alguns mapas em Supremacy e Walker Assault por pré-definição favorecem um dos lados não ajuda em nada. A sensação que o teu skill não importa perante as tácticas sujas que o jogo permite, será o pior.

Nascer a 170 metros do objectivo, correr para pelo caminho ser abatido apenas com um tiro por um inimigo que nasceu atrás de ti, sistematicamente e até à exaustão, não é bonito. Jogar Walker Assault e sentir que és apenas carne para canhão, e que por muito que tentes jogar com cabeça tal não importa, danifica o valor da experiência. Seria sempre difícil gerir batalhas destas, mas ainda assim, existem ajustes que precisam ser feitos e qualquer jogador os vê no primeiro minuto. A sensação de que as cartas dão demasiado poder e que demasiadas mortes com um tiro estão a decorrer por todo o lado, não só retiram toda a skill da equação, como também banalizam por completo qualquer valor estratégico que pudesse existir.

"A escassez de conteúdos é real, mas quando nos estamos a divertir é algo que até passa ao lado."

Star Wars: Battlefront é um jogo divertido na mesma e muito em parte devido à pele Star Wars. Podemos utilizar Leia a meio de um Supremacy para ajudar com o seu escudo os rebeldes a segurar um posto de controlo, usar Luke Skywalker para abrir caminho com o seu sabre de luz, ou então dar ímpeto aos Stormtroopers com Vader eliminando os rebeldes que teimosamente seguravam aquela trincheira. Star Wars Battlefront está repleto de pequenos grandes momentos que aumentam a nossa capacidade de tolerar a sua jogabilidade frustrante. São esses pequenos momentos que vos deixarão deliciados. mas depois será preciso gerir muito bem na balança a forma como se sentem perante o tratamento que o jogo vos dá.

A grande questão que prefiro colocar é: se este jogo não tivesse o manto Star Wars, serias capaz de tolerar todos estes parâmetros que inevitavelmente fragilizam a jogabilidade? A componente visual e sonora, aliada ao nosso encanto por este universo, tornam a experiência muito mais apelativa do que na verdade é. A escassez de conteúdos é real, mas quando nos estamos a divertir é algo que até passa ao lado. Depois de jogarem várias vezes o mesmo modo nos mesmos mapas, podem enganar a vossa paciência saltando para outros modos de jogo, e a escala épica de Supremacy ou Walker Assault cria mesmo sensações diferentes. No entanto, passadas algumas horas podem começar a sentir cansaço, e o pior nem é pelo volume dos conteúdos, mas sim pela jogabilidade. O péssimo sistema de spawn, a real sensação que a nossa skill não conta para nada, e que estamos num festival de mortes com um tiro, poderá danificar gravemente o valor de Star Wars Battlefront. Será preciso gerir a diversão com a frustração, o que é uma pena.

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Sobre o Autor

Bruno Galvão

Bruno Galvão

Redator

O Bruno tem um gosto requintado. Para ele os videojogos são mais que um entretenimento e gosta de discutir sobre formas e arte. Para além disso consome tudo que seja Japonês, principalmente JRPG. Nós só agradecemos.

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