Nesta recente viagem ao Paris Games Week, tive a oportunidade de passar pelo espaço da Microsoft onde os principais destaques eram dois: Halo 5 Guardians e Rise of the Tomb Raider. De todos os jogos presentes no espaço Xbox, apenas o próximo jogo do Crystal Dynamics não foi ainda lançado e foi obviamente sobre este que me debrucei. Halo 5 havia chegado às lojas no segundo dia do evento por isso era normal ver curiosos que pretendiam experimentar antes de comprar mas o apelo de Lara era óbvio, poder jogar uma fatia do aguardado exclusivo Xbox One cerca de duas semanas antes do lançamento era fascinante. Rise of the Tomb Raider é um dos jogos mais badalados mas por aqui não acreditamos que é por ser exclusivo de uma consola, é mesmo por ter todos os traços de um grande jogo.

Primeiro deixo aqui algumas notas que precisam ser destacadas. A demonstração presente no evento demorava entre 15 a 20 minutos e nas consolas estava marcado Julho 15, sugerindo que o código de jogo ali presente já tinha cerca de três meses. Ainda assim, não vi nada que pudesse derrubar o jogo em termos de erros ou os tais bugs que infelizmente assolam de forma devastadora esta nossa adora indústria. Mesmo não sendo o local mais indicado para experimentar a aventura de Lara, o som à nossa volta era imenso e o headset não fazia lá grande serviço para nos isolar do resto do mundo, lá comecei eu repleto de curiosidade. Apenas para terem uma ideia, se viram aquele vídeo que coloquei do stand da Xbox em que os Franceses deliram ao som de "Ballader", joguei Rise of the Tomb Raider mesmo ao lado desse palco em que o som do MC Xbox era avassalador.

O reboot é um jogo espantoso. Uma jornada dura e cruel de uma menina cujo destino está traçado há muito. Lara Croft é uma menina inconsequente com um espírito livre e sonhador cuja inocência inicial se dissipará lentamente pois a sobrevivência falará mais alto. Se leram os comics oficiais, que contaram com a ajuda da escritora Rhianna Pratchett, conseguiram aprofundar ainda mais a protagonista. Por força dos eventos que sucederam em Yamatai, por força das perdas que sofreu na sua vida e deixando para trás a menina inocente para se render à sede por aventura, Lara Croft vai dar mais um passo para se erguer como a exploradora de túmulos que adoramos.

Parte do sucesso de Tomb Raider de 2013 foi a humanização de Lara Croft que se viu forçava a perder a sua timidez e inexperiência para sobreviver e ultrapassar as adversidades. A cada passo perdia-se mais um pouco de Lara para se ganhar um pouco mais da Tomb Raider. Esta exploração do seu lado humano, do seu sofrimento e o afastamento daquela imagem de super-heroína funcionou às mil maravilhas para nos aproximarmos mais da personagem mas pessoalmente acredito que muito partiu não do Crystal Dynamics mas sim de um outro estúdio, do Naughty Dog. A forma como o estúdio tornou Nathan Drake num tipo que tanto tinha de heróico como de banal, podia ser o mais próximo que os videojogos tinham de um Indiana Jones como parecia ser um amigo teu que se iria sentar ao teu lado no sofá, certamente moldou a forma como Lara foi apresentada.

Na verdade, diria que todo o Tomb Raider de 2013 foi buscar imensas inspirações à série Uncharted. A ideia de uma protagonista que não era super-poderosa mas que conseguia fazer o que precisava para sobreviver, que se magoava (no caso de Tomb Raider chegava a ser chocante em alguns momentos o quanto ela sofria) e que ia "conversando" com o jogador a passo e passo para aumentar a imersão no mundo. Adicionalmente, o gameplay também ostentava a suas inspirações, Tomb Raider parecia Uncharted e isso não foi nada mau. Aqueles momentos explosivos e altamente cinematográficos, as tais set-pieces que engrandeceram o Naughty Dog e a série Uncharted, e especialmente os diferentes ritmos de jogo.

No entanto, enquanto Drake é Indiana no primeiro Uncharted, nas sequelas mais parece Rambo e é aqui que encontro mais apelo na aventura da menina Croft. Sem quaisquer dúvidas, Tomb Raider pode ter ido buscar inspirações a outras séries mas o respeito prestado à personagem icónica é inegável. Não precisaram inventar uma protagonista, a Indiana Jones dos videojogos já estava aqui e só teve que ser aproveitada. Especialmente saboroso quando a experiência de jogo se focou mais na exploração e aventura para deixar de lado os tiroteios que tantas multidões conquistaram em Uncharted. Foi quando a experiência de Lara Croft pegou nas inspirações de Nathan Drake e a moldou para ritmos e gameplay personalizado que Tomb Raider se tornou numa autêntica estrela.

Esta demonstração que nos transporta para a Síria é um bom exemplo disso. Começa com aquela cinemática já tradicional na qual vemos Lara envolvida em situações de imenso perigo. Aquela ideia que simplesmente não consegue escapar às situações nas quais a sua vida fica em risco. Comprovando que o seu destino estava traçado e haveria de chegar às ruínas, Rise of the Tomb Raider mostra Lara a ler textos antigos quando chega a um templo e aqui atestámos logo um dos elementos fundamentais do gameplay que se destacam.

Tal como no anterior, Lara poderá melhorar os seus atributos ou as suas armas com a experiência que obtém ao completar tarefas, que podem ser mínimas até. Rise of the Tomb Raider, tal como o anterior, parece imprimir um ritmo mais variável em que os momentos de alta intensidade contrastam com aqueles momentos de isolada exploração nos quais podemos correr ou simplesmente explorar. O estúdio parece ter feito de tudo para motivar o jogador a explorar os cenários pois usando a visão especial de Lara podemos constatar vários pontos amarelados no cenário para obtermos itens que nos dão experiência. Seja ao encontrar mapas, seja ao encontrar tesouros ou até a melhorar o seu conhecimento de línguas antigas, Lara ganhará experiência para depois investir em si.

O estúdio diz que é uma forma de diferenciar Lara e de a integrar em pleno direito no seu papel singular de Tomb Raider. A demonstração mostrou claramente que o jogador terá liberdade para se definir enquanto explorador. Se quisermos, podemos ignorar tudo o que está à nossa volta excepto o que nos permite progredir. Usando a visão especial de Lara, podemos ignorar tudo o resto e furiosamente investir nas escaladas ou nos saltos e seguir pelo nível que pouco faz para disfarçar a sua linearidade. Pelo outro lado, se quiserem apreciar o que está escondido no jogo, encontrar os segredos e portarem-se como uma verdadeira exploradora de túmulos, terão os incentivos para tal e a própria experiência será mais gratificante. O Crystal Dynamics parece ter conseguido assegurar-se disso.

Antes da tradicional cutscene com o vilão e a perigosa corrida desenfreada pela sobrevivência, mais uma espécie de set-piece que nos relembra de imediato Uncharted, Lara terá que progressivamente enfrentar alguns quebra-cabeças contextualizados com o nível em si. Tal como nos jogos originais e em maior grau que no anterior, teremos que resolver alguns puzzles que variam de escala. Poderá ser uma simples armadilha que após activada abre caminho para seguir em frente, poderá ser uma alavanca que abre acesso a uma jangada em madeira para chegar mais alto, poderá ser a execução de movimentos encadeados para chegar dentro do tempo limite a um ponto mais alto. Seja o que for, o estúdio parece ter encontrado a dose certa para equilibrar uma experiência de jogo que não pode escapar a uma realidade na qual existe Nathan Drake sem a momento algum esquecer que esta é Lara Croft.

A demo que jogámos é aquela que podem ver no primeiro vídeo aqui na página mas foi editada para apresentar maior dinamismo e estilo cinematográfico. Jogar a demo em pleno confere uma sensação totalmente diferente daquela que temos ao ver o vídeo. Não perde nada em termos cinematográficos mas o ritmo, o ambiente, e toda aquela forma de absorver a experiência são muito mais ricos quando estamos a jogar. Podem acreditar que a personalidade do jogo nesta demo está fantástica e deixou-me rendido. Não contava ser surpreendido porque na verdade a fórmula está feita e é conhecida mas a forma como é progressivamente moldada e engrandecida, parece pronta para surpreender novamente.

De todos os jogos presentes no Paris Games Week, este foi aquele jogo que me fez sentir como nos tempos de menino, desesperado pelo dia de lançamento mas contente por já ser adulto e não ter que enfrentar a cruel espera pelo Natal. Lara está incrível e mesmo tendo tanto emprestado, mesmo não sendo uma experiência completamente fresca, Rise of the Tomb Raider promete ser melhor em tudo o que consagrou o original. Provavelmente não será uma revolução mas acredito que será altamente divertido e isso é do melhor que podemos ter. Aquela sensação de inquietação quando não conseguimos estar perto da consola para jogar, o desejo de vibrar com aqueles momentos cinematográficos mas também de dominar o gameplay focado na sobrevivência. Rise of the Tomb Raider tem tudo para ser o grande jogo deste Natal de 2015 e cá o espero.

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Sobre o Autor

Bruno Galvão

Bruno Galvão

Redator

O Bruno tem um gosto requintado. Para ele os videojogos são mais que um entretenimento e gosta de discutir sobre formas e arte. Para além disso consome tudo que seja Japonês, principalmente JRPG. Nós só agradecemos.