Transformers Devastation sofre de um lançamento prematuro. O potencial está lá, mas as falhas acentuadas impedem-no de voar mais alto.

Transformers Devastation tinha tudo para triunfar. De um lado temos a licença de Transformers, ainda pouco explorada nos videojogos para além das terríveis adaptações dos filmes (a única excepção é a série War For Cybertron da High Moon Studios), e do outro lado a Platinum Games, uma produtora japonesa conhecida pelos seus jogos de muita ação. Foi este o mesmo estúdio que nos trouxe Bayonetta, Vanquish, Wonderful 101 e Metal Gear Rising: Revengeance, portanto, os fãs de Transformers tinham todas as razões necessárias para estarem entusiasmados com este novo jogo. Contribuindo para euforia, Devastation é baseado na primeira geração dos Transformers, a mais popular de todas as gerações.

O que correu mal? A maior agravante é que Transformers Devastation parece ter sido feito à pressa, dando pouco tempo à Platinum Games para aprimorar o conceito e limar as arestas. Não é a primeira vez que vemos uma licença da Activision a sofrer este triste destino. Assim de repente recordo-me de Deadpool (2013), outro jogo com potencial desperdiçado e que claramente teria beneficiado imenso se tivesse ficado mais uns meses no forno. Transformers Devastation não é um jogo mau, mas havia claramente espaço para ser muito melhor. Quanto a vocês não sei, mas no papel de fã fico extremamente irritado quando um produto podia ser melhor e não o é porque simplesmente foram feitos compromissos na concepção.

Este novo jogo desenvolvido pela Platinum Games é completamente diferente de Transformers: War For Cybetron (e os outros que lhe seguiram), que era um shooter na terceira pessoa. Transformers Devastation é um hack and slash. Embora ainda seja possível disparar, é um mecânica secundária. No cerne da jogabilidade estão os combos e o desvio atempado, bem ao estilo do que Bayonetta e Vanquish nos habituaram. Se se desviarem de um ataque no último segundo, o tempo abranda por vários segundos deixando que ataquem os oponentes sem impedimentos. Esta mecânica já faz parte da marca "Platinum Games", mas seria preferível que tivesse sido desenvolvida outra mecânica que fizesse mais sentido dentro do universo Transformers. No desenho animado original nunca houve abrandamento do tempo nos combates, só mesmo nos momentos dramáticos dos filmes realizados por Michael Bay.

Tirando o facto de que não faz muito sentido dentro do universo Transformers, é fácil conviver com esta mecânica. Abrandar o tempo torna sempre tudo mais espetacular e dá jeito para pausar, nem que seja por apenas alguns segundos, a ação frenética para a qual o jogo nos atira. Estamos constantemente a combater contra vários Decepticons em simultâneo, pelo que necessitam de reflexos rápidos e um par extra de olhos para reagirem atempadamente, e isto é no modo de dificuldade normal, se aumentarem a parada para a dificuldade difícil, fica ainda mais complicado. Infelizmente a câmera não se aguenta nos momentos de maior ação, pelo que se torna num desafio adicional tentar controlá-la.

A Platinum Games é conhecida pela jogabilidade divinal dos seus jogos, e sendo Transformers Devastation um hack and slash, o seu coração está aí. O problema é que, comparativamente a outros jogos deste estúdio, a jogabilidade é um tanto limitada. As possibilidades de combos esgotam-se rapidamente, e apesar da existência de mecânicas avançadas como o parry de ataques, que permite bloquear um ataque se apontarem o analógico direito na direção do ataque no momento certo, os combates tornam-se rapidamente repetitivos. A jogabilidade é fluída e o que existe está bem conseguido, mas sei que a Platinum Games era capaz de algo mais profundo e com maior variedade, basta olhar para os outros jogos do mesmo género que lançaram.

"Infelizmente a câmera não se aguenta nos momentos de maior ação"

O número de personagens jogáveis também desilude, pelo facto de que podemos apenas controlar Autobots. Uma das melhores partes de War For Cybertron era jogar com personagens dos dois lados. Aqui tal não é possível. Decepticons como o Megatron, Starscream e Soundwave aparecem e são adversários durante a história, mas não podemos jogar com eles. Da parte dos Autobots podemos jogar contra Optimus Prime, Bumblebee, Grimlock, Sideswipe e Wheeljack. Cada personagem conta com as suas forças e fraquezas, até porque variam nas estatísticas de ataque, defesa, velocidade e outros parâmetros. Além disso, cada personagem tem uma habilidade especial e um super-ataque único. Ter cinco personagens jogáveis não é propriamente mau, na realidade até é um número elevado para um jogo deste género, mas já que foram ao ponto de tornar jogáveis vários autobots, poderiam ter dado o mesmo tratamento aos Decepticons.

À medida que vamos jogando, as personagens ficam mais fortes. Também existe um sistema de loot algo simples através do qual ganhámos melhores armas (desde armas de fogo até espadas, martelos e machados). As melhores armas estão num modo separado da campanha, chamado "Challenge Mode". Este modo atira-nos para várias zonas fechadas que já visitamos durante a campanha e diz-nos para derrotar ondas cada vez mais difíceis de inimigos. No final, dependendo do vosso desempenho, recebem uma classificação. As classificações vão desde o D ao SS e cada uma desbloqueia uma nova arma. A campanha é curta e não dura mais do que 4 ou 5 horas, pelo que o modo de desafios é ideal para prolongar a longevidade, existindo dezenas deles para completar.

Embora para chegar ao fim da campanha na dificuldade normal seja possível ignorar o sistema de loot, para concluir os desafios mais difíceis terão que dar-lhe alguma atenção. As armas ganhas podem ter habilidades únicas, e podem inclusive fundi-las com outras armas para torná-las mais fortes e adicionarem-lhes mais habilidades. Não é tudo. As armas que equipam às personagens alteram a jogabilidade. Quando equipei um grande martelo a Optimus, reparei que os seus ataques ficaram muito mais lentos, mas se trocasse para a espada (é possível trocar de armas em tempo real) já ficava muito mais rápido.

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As personagens parecem ter sido levantadas do desenho animado original.

A história vai de encontro àquilo que seria de esperar de um jogo de Transformers. Megatron encontrou uma nova forma de transformar a Terra num planeta semelhante a Cybertron e não hesita em colocar um plano maléfico em prática, mesmo que isso signifique a extinção dos humanos e das outras formas de vida que habitam o nosso o planeta. Mas não se preocupem, os Autobots estão aqui para salvar o dia!

"A campanha é curta e não dura mais do que 4 ou 5 horas"

Se por um lado a história não desilude, pelo outro, os níveis são básicos e quase sempre iguais. As missões secundárias, que são desafios adicionais, e a existência de alguns baús com loot, dão algum encorajamento para explorarem um pouco, se bem que o loot que oferecem não recompense o esforço. Os momentos altos da campanha são, naturalmente num jogo como este, os encontros com os bosses. É nestes momentos que Transformers Devastation dá o seu melhor, colocando como adversários robôs do tamanho de arranha-céus e Decepticons populares.

Tal como em tudo resto, graficamente Transformers Devastation causa um misto de sensações. Tem coisas a seu favor como o visual de desenho animado e uma recriação perfeita dos Autobots e Decepticons, algo que vai deixar os fãs da primeira geração completamente doidos, todavia, os fracos cenários causam um contraste negativo. Com um melhor plano de fundo e níveis mais elaborados, Transformers Devastation seria delirante. É precisamente de situações como esta que falava no início da análise. O jogo tem várias coisas a ser favor, mas também tem falhas acentuadas, que parecem ter sido resultado de um curto período de desenvolvimento.

Em resumo, Transformers Devastation não é uma experiência consistente. É divertido na primeira hora, mas repetitivo durante as restantes três. Gostamos que seja baseado na primeira geração dos desenhos animados, da jogabilidade fluída, ainda que um tanto limitada, e das batalhas frenéticas contra os bosses, que vêm acompanhadas de uma banda sonora Rock / Metal capaz de vos por a abanar a cabeça. Do lado negativo está uma campanha muito curta, níveis básicos, impossibilidade de jogar com os Decepticons, e uma falta de lustro geral em todos os aspectos. Mesmo para fãs de Transformers, é um investimento que requer cautela, pois podem sair desiludidos. Pior ainda é preço. Devastation custa tanto quase um título AAA, mas não tem a envergadura, escala e qualidade dessas propostas.

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Sobre o Autor

Jorge Loureiro

Jorge Loureiro

Editor

É o editor do Eurogamer Portugal e supervisiona todos os conteúdos publicados diariamente, mas faz um pouco de tudo, desde notícias, análises a vídeos para o nosso canal do Youtube. Gosta de experimentar todo o tipo de jogos, mas prefere acção, mundos abertos e jogos online com longa longevidade.

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