Rare Replay - Análise

Clássicos de culto.

Uma colectânea rica em conteúdos, forte em qualidade e magra no preço. É difícil encontrar outra melhor.

Quanto mais não seja, a colectânea Rare Replay, composta por 30 jogos de um dos mais famosos estúdios britânicos - nesta altura a comemorar o seu trigésimo aniversário -, pode ser vista como uma espécie de penso rápido, colocado sobre uma ferida para a qual os fãs têm vindo a alertar desde que a Microsoft meteu o estúdio a desenvolver os avatares e jogos para o Kinect, o acessório de comandos por movimentos desenhado para a Xbox 360. Na verdade, Rare Replay é uma excelente colectânea, uma das melhores, uma compra feita quase de olhos fechados. É difícil encontrar tantos jogos juntos, de comprovada qualidade e alinhados cronologicamente. A laborar há mais de trinta anos numa indústria pautada por uma certa volatilidade, a fasquia lançada pela Microsoft testa os limites de outros estúdios, igualmente ambiciosos na meta mas nem sempre com a mesma consistência.

Apesar do bom acervo de jogos, faltam mais, ainda que por diferentes razões. Não só dos jogos cujo licenciamento e propriedade intelectual está nas mãos da Nintendo (Donkey Kong Country para a SNES, por exemplo) e até 007 GoldenEye, da Nintendo 64, neste caso nas mãos da Activision. A ausência de Kinect Sports, lançado em 2010, como jogo baseado em movimentos para o acessório mais caro da Xbox, o Kinect, dando origem a um rompimento claro ao que era a marca e tradição do estúdio e que por seu turno correspondeu a uma saída de numerosos e valiosos trabalhadores que laboravam no estúdio desde o começo, poderá ser analisada como um sinal da Microsoft em colocar a Rare de volta aos eixos e à sua matriz.

É o que os fãs mais querem, sabendo do historial e conhecendo as dezenas de produções lançadas para diferentes formatos. O último grande jogo da Rare é muito seguramente Banjo-Kazooie: Nuts and Bolts e data de 2008. Sete pesados anos de sentida ausência, originalidade, criatividade, inconfundível humor, personagens icónicas, momentos delirantes e esmagadores, agora retomados nesta valiosíssima colecção, a tempo de estancar uma decisão errada da Microsoft. Não é seguro que o lançamento de Rare Replay seja uma fonte segura do regresso da Rare ao seu melhor, retomando as personagens que durante várias gerações de plataformas polvilharam e enriqueceram ainda mais as nossas experiências interactivas. É uma incógnita para a qual a compilação não oferece uma resposta clara, mas parece pelo menos alertar para a necessidade de retomar a melhor tradição do estúdio e voltar às personagens entretanto adormecidas.

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Aliás, um dos traços distintivos da Rare, na sua melhor fase, era precisamente a capacidade para se distinguir da maioria dos estúdios ocidentais, ao mesmo tempo que retirava vantagens das plataformas da Nintendo, com inúmeros coelhos saídos da cartola, onde aliás viveu o seu melhor período, antes da transferência para a Microsoft, no seguimento de um belo negócio para os cofres da Nintendo. Depois, por alguns anos a Rare ainda deu continuidade ao ímpeto positivo, diferenciador e pioneiro nalguns conceitos, mas quando foi incumbida da difícil missão de catapultar para o sucesso o acessório Kinect, o encanto como que se esfumou.

Rare Raplay parece reacender a chama do velho estúdio britânico e é nisso que queremos acreditar. A apresentação é fantástica, animada e próxima de uma espécie de passeio da fama ou museu interactivo. Nesta colectânea não encontram só 30 diferentes jogos. Existem inúmeras surpresas como uma galeria onde podem observar segmentos vídeos relativos à produção de cada um dos jogos (lançados e abortados), conversas com os criadores, ilustrações, entre muitas outras curiosidades. Para desbloquearem estes conteúdos é necessário que passem algum tempo a jogar os diferentes títulos, pois estes conteúdos requerem selos e estes são atribuídos, por exemplo, ao abrirem um jogo pela primeira vez.

Isto vem adicionar um valor ainda maior à colecção, não se aproximando sequer de outras do mesmo género que se limitam a oferecer os jogos, tantas vezes sem mais, sem nenhum envolvimento, extras ou desafio. Existem muitas coisas para descobrir e surpresas, tudo isto acompanhado por uma disposição, design e apresentação deveras convincentes. Nos jogos mais antigos, para o ZX Spectrum, uma vez que a sua jogabilidade é um pouco mais limitada e repetitiva, os produtores acrescentaram uma série de desafios, "snapshots" pequenas provas que visam a pontuação máxima e a realização de certos objectivos, como alternativa ao usufruto do jogo nos moldes mais tradicionais. Bastante aliciante

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Os títulos mais antigos correspondem em grande parte a produções para computadores, nomeadamente o ZX Spectrum, entre outras plataformas, as primeiras máquinas alvo da dedicação do estúdio antes de começar a desenvolver exclusivamente para a Nintendo. O seu bom trabalho nessa fase e posteriormente com o desenvolvimento dos primeiros jogos para a NES como R.C. Pro-AM e Cobra Triangle, estreitaram ainda mais a relação com a gigante de Quioto. Mas todos os jogos apresentam-se com a mesma jogabilidade de há 25 ou 30 anos. Nada foi mudado, com excepção para uma série de extras, principalmente para os mais antigos, que anteriormente não existiam. Embora sem efeitos na jogabilidade, os extras incluem uma série de selecções manuais como "scanlines", possibilidade de retroceder alguns segundos enquanto se joga, gravar o jogo a todo o instante e usar até uma "batota" para desbloquear vidas infinitas.

A Rare foi um pouco mais longe e até eliminou um erro muito badalado em Battletoads, que no modo cooperativo tornava a missão mais complexa para o segundo jogador, a partir da missão 11. No que toca aos jogos para a Nintendo 64, como Conker's Bad Fur Day (uma das das melhores produções do estúdio), a resolução e a frame rate foram melhoradas, tornando a experiência um pouco mais suave e mais aceitável para os olhos (relembramos que estes foram os primeiros jogos de aventura em três dimensões). Contemporâneos de Super Mario 64, as aventuras 3D da Rare como Banjo-Kazooie, Banjo-Tooie e Perfect Dark permanecem como títulos obrigatórios, para conhecer ou revisitar, ainda que com alguns constrangimentos, e nas versões para a Xbox, ao contrário de Conker, que aqui corresponde à versão original da Nintendo 64.

Algumas excepções neste circuito de jogos da consola de 64 bit da Nintendo são, por exemplo 007 GoldenEye, um importante "shooter" pela projecção dos combates na primeira pessoa, numa consola e Donkey Kong 64. Por causa da impossibilidade de licenciamento (a série está na posse da Activision), o jogo não integra a colecção, assim como os clássicos Donkey Kong, para a SNES, porquanto a propriedade intelectual da personagem e da série pertencem à Nintendo.

No que respeita aos jogos criados para a Xbox 360 como, Perfect Dark Zero, KAMEO: Elements of Power, os dois Viva Piñata e Banjo-Kazooie, Nuts and Bolts, todos requerem instalação em separado, correndo nas versões originais lançadas para a 360, com todos os achievements, requisitando por isso um espaço adicional no disco da Xbox One. Perfect Dark Zero mantém a componente online, nos combates para vários jogadores ligados através do Live.

Concluindo, Rare Replay é uma preciosidade que merece ser jogada por qualquer pessoa. É certo que muitos jogos ficaram de fora desta extensa lista, alguns deles de grande qualidade, e ainda existem inclusões curiosas como Blast Corps, mas o melhor é que a esmagadora maioria dos principais deste diferente e marcante estúdio britânico, está disponível e por um preço especial (num cálculo simples dá cerca de 1 euro por cada jogo, uma bagatela, menos de metade de um jogo comum). Além disso os extras e os pequenos desafios para os clássicos, revelam esmero e dedicação, cativando os jogadores mais novos, visando um contacto caloroso e uma série de importantes informações, detalhes e complementos que ajudam a uma melhor definição. Os jogadores mais velhos por seu turno poderão voltar ao passado mais recente da companhia e, caso ainda não tenham experimentado, descobrir o engenho de Banjo-Kazooie: Nuts and Bolts ou deixarem-se levar pelo humor corrosivo de Conker.

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Sobre o Autor

Vítor Alexandre

Vítor Alexandre

Redator

Adepto de automóveis é assim por direito o nosso piloto de serviço. Mas o Vítor é outro que não falha um bom old school e é adepto ferrenho das novas produções criativas. Para além de que é corredor de Maratona. Mas não esquece os pastéis de Fão.

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