Partilha o mesmo ADN das consolas caseiras: gameplay e ideias interessantes mas componente técnica a desejar.

Quando Resident Evil: Revelations se estreou na Nintendo 3DS, foi aclamado por ser uma lufada de ar fresco na série. Repleta de controvérsia e quase constantemente abaixo do seu potencial, a Capcom perdeu a confiança dos seus fãs e deixou a série de Chris e Jill entregue aos melhores momentos de nostalgia. Revelations veio contrariar essa tendência e mostrou como se podia combinar na perfeição os conceitos aclamados do passado com as tendências quase imperativas da actualidade. Existiam fundamentos no gameplay base de Resident Evil que não mais faziam sentido mas ao mesmo tempo era preciso respeitar o legado.

Revelations fez, ao contrário de jogos como Resident Evil 5 ou 6, uma ponte entre o passado e o futuro que rapidamente conquistou a admiração dos adeptos. Por um lado pegou no que de melhor os originais haviam apresentado e pelo outro mostrou como as tais desejadas novidades podiam melhorar a experiência. Os fãs desejavam terror, medo, sensação de pânico e aquela constante preocupação com o escuro, com os inimigos, com a escassez de recursos e de incessante desafio. Isto sem os elementos arcaicos como não poder movimentar o personagem enquanto disparamos, sermos forçados a gravar em máquinas de escrever ou termos um enredo que nos transporta para locais banhados pelo sol e aquela sensação que apenas faltavam as pipocas.

As novidades e melhorias implementadas no gameplay de Revelations foram todas nesse sentido. Jill surgia num barco perdido no meio do alto mar, rodeada pela noite e por uma única certeza: eventos estranhos estavam a decorrer. Ao contrário de Resident Evil 5 não mais parecia um super-soldado repleto de armas e munição, os recursos eram escassos. Este molde de gameplay foi a base para a sequela que nos chegou no início deste ano de 2015, Resident Evil: Revelations 2. Além de manter as bases do original, a sequela procurou aquele respeito aos originais mas com vontade de implementar mais melhorias actuais, apresentou também dois incríveis regressos: Claire Redfield e Barry Burton.

Nas consolas caseiras Revelations 2 surpreendeu por ser um jogo divertido cujo planeamento episódico deixava vontade de conhecer mais pois além de parecer que estávamos perante uma série de TV, o gameplay cativou. Especialmente com o sistema de quatro personagens, dois lados de uma história. No entanto, as origens humildes na Nintendo 3DS e a conversão levada a cabo com o motor MTFramework da Capcom demonstraram um título que a nível técnico está demasiado simples para os padrões actuais. Especialmente para quem estava habituado às grandiosidades Hollywoodescas dos mais recentes jogos numerados na série. Agora, é hora de ver como foi o jogo convertido para a PlayStation Vita e se vale a pena ser jogado.

"Se não fosse a fraca componente visual seria um título bem melhor."

Revelations 2 coloca-nos na pele de claire Redfield, veterana de Resident Evil 2, e Barry Burton, veterano de Resident Evil 1. Cada um deles irá viver uma experiência diferente e enquanto Claire terá a ajuda de Moira Burton (filha de Barry), o agente S.T.A.R.S. terá a assistência de Natalia Korda. Enquanto a primeira dupla foi raptada para uma ilha isolada e exposta a um terrível e sádico jogo de sobrevivência, a segunda combina um homem à procura da sua filha em parceria com uma menina que incrivelmente estava perdida naquela ilha. Aqui somente a esperança parece ter recebido um barco para fugir.

Isto resulta num gameplay no qual controlamos duas personagens. Enquanto Claire e Barry são ágeis, fortes e sabem usar armas de fogo, Moira e Natalia não. No entanto, também conseguem executar tarefas específicas que aprofundam o gameplay tradicional de Resident Evil. Claire e Barry permitem que a qualquer momento o jogador deixe de os controlar e passe a controlar Moira ou Natalia, respectivamente, o que será essencial para resolver, principalmente, os quebra-cabeças espalhados pelo jogo. Com recursos limitados, personagens mais frágeis e constantes situações de pânico, conseguem imaginar o tipo de personalidade que Revelations 2 conseguiu captar.

Natalia tem o incrível dom de ver os "monstros" pelas paredes e de avisar Barry onde eles estão e as suas rotas de movimentos, permitindo ao velho agente eliminar de forma furtiva as aberrações. Poupam munição e evitam confrontos de maior escala. Moira já combate os ambientes mais escuros que esta dupla percorre com uma lanterna e ainda um pé-de-cabra para abrir baús com tesouros ou mesmo portas. Será a constante necessidade de alternar entre personagens para recorrer ao seu leque específico de acções que incutirá a Revelations 2 a sensação de um gameplay dinâmico, provido de imensa energia com capacidade de assustar e nos tirar o sossego. Poderá ser a melhor ponte entre passado e futuro jamais realizada na série Resident Evil.

Revelations 2 apresenta-nos um gameplay que é veloz mas sem personagens super, capaz de nos desafiar e punir se formos irresponsáveis a utilizar os recursos. Obriga-nos a utilizar diferentes personagens com diferentes pesos no gameplay em si. O enredo consegue cativar e mesmo a dada altura até se pode tornar no elemento mais importante. Pena algumas boss battles não conseguirem o desejado efeito de nos marcarem mas quando derem por ela estão agarrados ao jogo e com sede de dominar todos os detalhes do gameplay. É o principal poder do título da Capcom, a diversão que nos dá e que faz esquecer as debilidades técnicas e gráficas.

Tecnicamente, a versão Vita encontra-se inferior em praticamente todos os aspectos mas ainda assim corre bem na portátil e após algum tempo até começam a perdoar a queda gráfica. Fluído quanto baste e com comandos que respondem bem, certamente vão acabar por valorizar mais a prestação da performance do que propriamente desejar que fosse graficamente melhor. Posso dizer que é competente no que diz respeito a jogos de acção e aventura nesta plataforma específica mas se querem aquela sensação de imersão e terror, nem sequer pensem na versão Vita. É pena que tenha sofrido um corte tão severo nos visuais pois ocasionalmente chega a ser cómico o quanto sofreu.

Como referido, os comandos foram bem adaptados e tendo em conta que comparado com os comandos das consolas caseiras temos menos quatro botões aqui na Vita, a forma como a Capcom geriu a adaptação foi eficaz. Recorrendo ao ecrã táctil, a companhia Japonesa assegurou que algumas acções se tornam acessíveis e imediatas ao pressionar um canto específico do ecrã. Tendo em conta a posição das mãos em redor desse mesmo ecrã, basta movimentar um dedo e temos acesso imediato a esses movimentos, algo que até acaba por tornar mais intuitivas algumas acções que temos que executar com relativa frequência na aventura.

O modo RAID é uma das principais componentes desta experiência. Para uns será uma decente alternativa à campanha que até pode terminar rapidamente, para outros tantos correrá o "risco" de ser o prato principal. Altamente energético e divertido, este modo RAID coloca os jogadores em partidas nas quais tem que completar um percurso no tempo disponível obtendo pelo caminho a melhor pontuação possível. Rapidamente torna-se num vício e encaixa bem nos moldes da PlayStation Vita. Sessões curtas de jogo com alta dinâmica nas quais nos pedem para sermos cada vez melhores. São mais de 200 missões de acção rápida que tornam o modo RAID numa das grandes atracções de Revelations 2 na Vita pois é o modo que encaixa na perfeição numa portátil.

Uma coisa é certa, a PlayStation Vita recebe finalmente um Resident Evil e olhando para a génese do primeiro na Nintendo 3DS, é fácil entender porque é que Revelations 2 funciona tão bem a portátil. Foi bem adaptado aos controlos táteis, consegue divertir tanto quanto nas consolas caseiras e tirando os severos mas expectáveis cortes gráficos, é interessante na mesma. É principalmente dedicado a todos os que compraram uma PlayStation Vita e procuram títulos que relembram os AAA de consola caseira e claro, a todos os fãs de Resident Evil que querem um título que combina o passado com o que poderá ser o futuro desta série.

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Sobre o Autor

Bruno Galvão

Bruno Galvão

Redator

O Bruno tem um gosto requintado. Para ele os videojogos são mais que um entretenimento e gosta de discutir sobre formas e arte. Para além disso consome tudo que seja Japonês, principalmente JRPG. Nós só agradecemos.

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