Code Name S.T.E.A.M. - Análise

O exército de Abraham Lincoln.

A Intelligent Systems é uma das mais antigas produtoras da Nintendo. Qualquer utilizador regular das consolas da fabricante de Quioto terá jogado uma produção da sua autoria. Os fãs hardcore tendem a eleger Fire Emblem, Advance Wars e Paper Mario como trabalhos maiores, apurados e detentores de sistemas de combate por turnos inconfundíveis. Outros reconhecerão a sua veia criativa em títulos mais recentes como Pullblox e Fallblox. Talvez lhe esteja a faltar um grande jogo para uma plataforma doméstica da Nintendo. Depois de Super Paper Mario para a Wii só Game & Wario trouxe alguma frescura, embora sem a profundidade que habitualmente concretiza numa portátil. Chegados a 2015, volta a ser a 3DS a plataforma eleita para um novo rpg de acção táctica e combate por turnos. Code Name S.T.E.A.M. (doravante Code Name por uma questão prática) é seguramente o jogo mais arriscado dos trabalhos recentes da Intelligent Systems dentro do género estratégia.

Desde o primeiro instante que me pareceu um jogo com chama e identidade próprias, ancorado num novo quadro narrativo, com uma componente estética próxima da banda desenhada (a influência de Jack Kirby, autor de uma acentuada produção de comics), numa Londres vitoriana "steampunk" onde encontramos algumas das personagens mais fortes, alinhadas pelo estúdio japonês, pensando desde logo no protagonista Henry Flemming. Num primeiro compromisso com o jogo, há sensivelmente um mês e meio, uma das comparações imediatas que dei comigo a fazer foi justamente a relação com Valkyria Chronicles, o jogo editado pela Sega, para a PS3. O avanço limitado das personagens dentro de um mapa, o alcance limitado do armamento e a organização por turnos, assim como a apresentação, eclodiram como pontos de contacto, pese embora a herança de Fire Emblem e sobretudo Advance Wars. No entanto e depois de mergulharmos no jogo, vislumbramos imediatamente a sua identidade, os méritos logrados e riscos ultrapassados, até que encontramos uma significativa transformação operada no contexto da batalha, a ausência de um mapa. Pode parecer um pormenor irrelevante numa primeira abordagem, mas a seu tempo verificamos tratar-se de uma opção que veio baralhar por completo aquela toada mais previsível e calculista dos confrontos por turnos.

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Tom Sawyer é a personagem que toma conta dos novos aparelhos.

Code Name consegue ser um jogo mais desafiante, por vezes castigador e demasiado punitivo à custa de algumas armadilhas que nos escapam num primeiro avanço, mas que depois de superadas e estabelecida uma melhor coordenação táctica entre a equipa, produz autênticas reviravoltas e o derrube de poderosos adversários, os bosses. Aliás, um dos pontos centrais do jogo é precisamente a introdução de mais alguma dificuldade no campo dos combates por turnos. Os inimigos movimentam-se rapidamente, não sabemos para onde vão porque não temos uma perspectiva superior que nos dê essa indicação e à custa disso avançamos na direcção menos certa, o que não quer dizer que estejamos a caminhar para um ponto sem retorno.

Essa impetuosidade é mitigada com a colocação de alguns pontos de reabastecimento de vapor das máquinas que garantem a movimentação das nossas personagens, assim como o equipamento bélico que transportam, também ele sujeito a unidades de vapor, sempre disponível na sua máxima extensão quando iniciamos um mapa. A nossa primeira personagem, central nesta trama da qual renasce Abraham Lincoln como salvador do confronto entre humanos e alienígenas, é Henry Flamming um norte-americano inspirado numa das personagens do livro Red Badge of Courage. Os primeiros mapas, entretanto disponibilizados numa demonstração presente na eShop, integram-se na fase de aprendizagem, fase essa que se estende por quase uma meia dezena de capítulos. Começando por perceber o funcionamento básico do jogo, assim como as regras elementares, o destaque vai, como já referimos, para a ausência de um mapa e perspectiva isométrica, contrariando, por exemplo, Fire Emblem Awakening. Em vez disso, a perspectiva na terceira pessoa, como nos shooters e sempre nas costas da personagem, oferece um campo de visão limitado e que quase sempre vos impede de observar mais do que um curto espaço à frente, movendo o analógico (se jogarem numa 3DS normal poderão usar um botão direccional no ecrã táctil).

As coisas começam a ficar mais interessantes quando progridem na história. Ao começarem o primeiro capítulo sabem que não haverá espectáculo na "steamgate bridge" e que os alienígenas ocuparam o palácio da Rainha e fizeram-na refém, pelo que teremos de avançar até Bunckingham, antes de fugirmos, de modo a resgatar, com vida, a rainha Victoria. Nessa altura já teremos mais dois camaradas de campanha ao nosso lado: John Henry e Lion (do Feiticeiro de Oz). Curioso como o jogo começa a abrir o leque de opções e esquemas tácticos a partir desse momento, recorrendo às granadas de John para derrubar pesadas e enormes caixas, assim como concentrações de inimigos enquanto que Lion, é capaz de projectar-se para áreas superiores. Com estas personagens poderemos alcançar lugares cimeiros e gerir a partir dessa posição a ofensiva, contemplando a movimentação dos adversários.

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Não há um número limite de turnos. Tanto podem completar um mapa em 10 minutos ou numa hora.

Entre as regras elementares, o destaque vai para o consumo de unidades de vapor, o tão famigerado "steam", propalado em piadas e registos cómicos pelas personagens, com um trabalho de vozes realmente impecável. Uma personagem tem uma margem de progressão, dentro do seu turno, dependente da quantidade de vapor disponível (essa quantidade pode ser aumentada com um melhor boiler). Ao avançarem, essas unidades são consumidas. Se quiserem alvejar um adversário ou acertar num inimigo vulnerável, irão consumir ainda mais "steam". Depois há o factor surpresa. Alguns inimigos detectam a nossa presença e disparam imediatamente, deixando-nos muitas vezes temporariamente aturdidos enquanto que outros reagem em força, causando mais danos, dentro do seu turno. É por isso que o jogo é muito diferente de outras incursões. Sem um campo de visão para o avanço dos inimigos, não podemos reagir tão depressa às suas movimentações e muitas vezes acabamos presos na sua malha e totalmente vulneráveis.

Contudo, os mapas são suficientemente vastos e se são complicados para nós também o são para os adversários, se organizarmos bem a equipa. Depois, podemos tirar proveito de pontos de gravação e que aqui funcionam como "checkpoints", possibilitando a gravação do jogo a troco de uma quantia monetária, renovando as unidades de vapor, numa espécie de turno extra. Existem de resto imensos itens que podemos recuperar. Não só moedas dentro das caixas que rebentámos, como peças (roldanas) que permitem à equipa de Abraham Lincoln trabalhar em novos "boilers", uma espécie de mochilas a vapor que melhoram os movimentos da nossa personagem. Isso e armamento. Existem ainda carregadores de steam, úteis para encher o medidor e continuar a movimentação por mais um bocado.

Nos mapas encontram uma espécie de "placards" com dicas e informações relevantes sobre como eventualmente derrubar um inimigo poderoso ou realizar uma jogada especial. Clicando no botão L, acedem à informação e ficam com a barra de vapor recarregada. Estas concessões são úteis e garantem algum equilíbrio face à brutalidade dos ataques realizados pelos inimigos. Se avançarem isolados correrão alguns riscos. Ainda que os pontos de gravação e postos de informação retirem alguma beleza aos mapas pelo seu tom verde e intrusivo, funcionam como pontos de "check in" inevitáveis, garantindo muitas vezes a sobrevivência da equipa, pois mesmo os colegas derrotados em combate voltarão assim que gravarmos a posição e pagarmos pela sua reentrada em jogo.

Dentro de um mapa o objectivo está normalmente assinalado a verde e, ainda que tenham diversas metas para atingir, pré estabelecidas a bordo da Lady Liberty, uma aeronave comandada por Abraham Lincoln, é lá que irão personalizar a equipa, escolher o armamento e preparar a descida ao confronto. Alguns capítulos oferecem dois mapas, em vez dos três, naquele caso com uma área maior e eventualmente um "boss" na parte final. Avançando, irão encontrar mais personagens e assistentes, todos a coberto da operação levada a cabo pelo presidente dos Estados Unidos, em modo salvação do planeta. Lily (Peter Pan) e Tom Sawyer vertem especialidades. Lily é a assistente médica do grupo, enquanto que Tom, com o sotaque do Missouri (já disse como as vozes estão excelentes?) serve-se de uma luva de boxe disparada pelos canos de uma arma, a longa distância dos inimigos, enquanto vai montando minas por onde passa.

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Algumas das principais personagens.

A partir daqui poderão constituir a equipa de quatro personagens ao vosso critério, escolhendo os elementos que melhor garantem o assalto ao mapa ou a defesa de algum ponto, com peso decisivo na arma principal de uma personagem e numa série de habilidades secundárias. Ao longo da jornada vão encontrar mais de dez personagens e é mais para o final do jogo que o impacto da formação da equipa dentro do mapa se faz sentir. A diversidade de movimentos joga a favor do jogador, mitigando a dificuldade. Existem momentos de alguma frustração, pelo desconhecimento do mapa e ataque brutal dos inimigos, deixando-vos por vezes com uma personagem viva ao fim do primeiro turno.

Mas valerá a pena apostar em tácticas sobre como enviar por exemplo dois grupos por caminhos diferentes de modo a surpreender e encurralar o inimigo, dispersando as atenções. À medida que evoluem as personagens e adquirem novo equipamento, aumentam as chances de derrubar certos inimigos consumindo pouco "steam". O jogo é lento no ritmo, com uma curva de aprendizagem muito grande antes de nos sentirmos confortáveis dentro de um mapa, talvez o ponto que mais distingue Code Name de um Fire Emblem ou Advance Wars.

Findo o nosso turno, o computador concede ao adversário a movimentação das suas tropas. Inicialmente este processo era um pouco demorado e nalguns mapas exagerado o compasso de espera. Entretanto uma actualização minorou esse problema, pelo que poderão optar por acelerar o ritmo, como que em modo rápido, para que a os turnos sejam mais rápidos. Há no entanto algum interesse em tentar seguir as movimentações do adversário, nem que seja passando de personagem em personagem até se encontrar o ângulo que nos deixa ver o posicionamento inimigo. Se não nos expusermos demasiado, evitando a identificação, podemos até anular alguns inimigos com um tiro mais distante ou um ataque surpresa, aliviando a carga do adversário no turno seguinte. Aliás, se deixarmos algum "steam" na reserva poderemos contra-atacar, evitando danos maiores.

As criaturas alienígenas geladas revelam-se durante a campanha sob as mais variadas formas e capacidades. As mais resistentes tendem a apresentar o ponto mais vulnerável numa zona normalmente protegida. Concedo que o design dos inimigos podia estar melhor e que o mesmo esforço que os produtores fizeram para modelar as personagens comandadas por Lincoln deveria ter sido replicado nestas estranhas criaturas, similares a aranhas e moluscos. No terreno, o 3D é rei e senhor. Alguns mapas apresentam-se relativamente detalhados mas se estão à espera de cenários com o nível de detalhe e design de um Valkyria Chronicles moderem as expectativas. De resto, os mapas sobressaem pelas possibilidades de exploração, caminhos alternativos e irregularidades, com imensos obstáculos dos quais poderão tirar proveito, embora possam proporcionar entraves adicionais no percurso até à meta. Cada mapa novo é um desafio por completo, e para lá do combate com os inimigos perfila-se uma autêntica caça ao tesouro, com pilhas de moedas dentro de caixas de madeira assim como outros valiosos itens. Mas para tudo há um custo e muitas vezes a caça ao tesouro pode redundar num fracasso, numa total chacina aplicada pelos inimigos. Daí que a gestão e poder de decisão sejam fulcrais, assim como avançar para a meta quando necessário de ser sob pena de serem surpreendidos por reforços.

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Sr. Presidente e o projecto STEAM.

Depois há que contar com a multiplicidade de aparelhos ao vosso dispor. Neutralizando os adversários colados a metralhadoras e canhões colocados em pontos elevados, com ângulos privilegiados sobre o terreno, poderão ajudar outra personagem a chegar mais depressa ao objectivo. Tomar de assalto um tanque e movimentá-lo com as mesmas restrições aplicadas às personagens é outra alternativa. Isto oferece mais diversidade de ataque e situações de alguma tranquilidade e superioridade.

Quanto ao conteúdo reservado para a experiência multiplayer, o destaque vai para o online entre dois jogadores ou modo batalha local, com a particularidade dos 60 segundos de limite por turno. Esta regra adiciona um factor de imprevisibilidade e eficácia nas decisões, especialmente se optarmos por um mapa relativamente grande. Jogar ao ataque e avançar directamente na direcção do adversário pode ser um perigo, uma potencial exposição perante o adversário. Por outro lado, o jogo defensivo permite gerir melhor os contra-ataques. Depois de uma fase de alguma cautela e natural receio mútuo, o combate cresce e passa a pender para um dos lados da batalha. Tentar manter as quatro personagens o maior tempo possível é o segredo para levar de vencida a batalha. Convocar as melhores também ajuda.

As opções disponíveis abrangem o tradicional "deathmatch" e "medal match". Há um incentivo em torno dos coleccionáveis já que a dado momento e com um determinado número de medalhas alcançado ficará disponível uma personagem extra, uma criatura robótica, pronta para combates mano a mano. É dada compatibilidade com figuras Amiibo da série Fire Emblem, mais concretamente Marth, Lucina e Robin.

Code Name S.T.E.A.M. é mais um trabalho interessante e bem conseguido de uma produtora que nos habituou a produções complexas, sólidas e muito vincadas no campo da estratégia e combate por turnos. Bebendo influência de uma série de comics, com relevo para os trabalhos de Jack Kirby, este jogo exibe singularidades, mesmo correndo alguns riscos nas mecânicas. Com uma excelente direcção de vozes e uma turma de improváveis sob o mesmo holofote, coordenados por Lincoln, ainda que sem um circuito narrativo exponencial, dá um corpo muito grande aos nomes envolvidos, os combates por turnos, adicionando mais imprevisibilidade e uma exposição maior do jogador relativamente ao erro, sem deixar de mencionar as partidas entre dois jogadores, sempre desafiantes. A 3DS ganha mais um jogo com peso e substância.

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Sobre o Autor

Vítor Alexandre

Vítor Alexandre

Redator

Adepto de automóveis é assim por direito o nosso piloto de serviço. Mas o Vítor é outro que não falha um bom old school e é adepto ferrenho das novas produções criativas. Para além de que é corredor de Maratona. Mas não esquece os pastéis de Fão.

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