Depressão pós-Bloodborne

A obra do From Software elevou a fasquia.

Provavelmente já ouviram falar de Bloodborne, o primeiro jogo a receber o selo de obrigatório aqui no Eurogamer Portugal e um jogo que sem dúvida está entre os melhores desta geração. Provavelmente arriscaria a dizer que Bloodborne é, até o momento, o melhor jogo desta geração e que foi bem resumido pelo Jorge Loureiro quando nos escreveu que é "difícil, desafiante mas capaz de levar qualquer um ao êxtase e euforia." É mesmo. Claro que tudo não passa de uma questão de gosto pessoal mas na verdade, Bloodborne é o primeiro jogo em largos anos, em gerações de consolas até, a fazer-me sentir uma forma de pensar e estar que há muito não via.

Bloodborne faz-me pensar na indústria dos videojogos durante as décadas de 80 e 90, quando eram feitos para durar e desafiar, quando eram feitos para serem algo que atirasse o jogador ao chão para que este aprendesse a limpar o pó da cara e erguer-se. Bloodborne é um jogo que consegue mesmo elevar o jogador a níveis de entusiasmo que não acreditava mais serem possíveis nesta indústria e consegue conquistar todo o respeito de uma nova geração de jogadores. Ao longo de várias semanas, dei por mim completamente capturado por esta obra magnífica do estúdio From Software, encontrando-me enquanto jogador para depois ficar perdido, estando agora nesta situação. Depois destas semanas de intensa actividade em Yharnam, sinto-me abandonado, sem saber para onde me virar, sem saber o que jogar pois Bloodborne providenciou-me um momento mágico na minha vida enquanto jogador. Algo que acontece raras vezes.

Depois de mais de 34 horas em Yharnam, caçando monstros e descobrindo segredos que ninguém merece que sejam estragados, depois de voltar a jogar e estar agora com cerca de 70% dos Troféus, dou por mim a desfrutar de um New Game Plus com enorme agrado. De um nível que raramente sinto a jogar a grande maioria dos jogos pela primeira vez. Bloodborne é assim tão especial. Passar quase quatro semanas a gerir todo o tempo, altamente limitado, para conseguir jogar o máximo de tempo possível (dormindo 5/6 horas por noite apenas para jogar mais), revela bem como fiquei/estou completamente agarrado ao jogo. Agarrado a este mundo macabro e perverso onde um caçador entra de forma inocente para se erguer triunfante e imponente. Apenas me falta um boss, faltam-me algumas masmorras e meia dúzia de troféus específicos que pretendo usar como desculpa para me ir mantendo neste universo estranhamente atraente. Como se a sede incessante por Yharnam não fosse suficiente.

Bloodborne é sem dúvida um jogo mágico que irá perdurar no imaginário de muitos jogadores por longos anos mas antes que o continue a elogiar de uma forma que muitos vão criticar como atitude fanboy (acreditem que se pode elogiar um jogo sem olhar para a plataforma em que é lançado) vou primeiro mencionar um elemento muito importante: aqueles horríveis ecrãs de loading! Podem não acreditar mas grande parte do medo e gestão que Bloodborne incute nos jogadores, moldando a nossa estratégia e forma de jogar, provém daqueles horríveis e demorados ecrãs de loading. Esqueçam aquela piada de ir tirar um fino ou beber uma mini, dá para ir ao supermercado comprar três grades e voltar a tempo de entrar novamente em Yharnam. Ó coisa temível.

Relembrando as primeiras horas em Bloodborne, sinto que fui exactamente aquilo que Miyazaki e companhia queriam: um caçador inocente sem qualquer conhecimento do que o espera e lançado para a chacina sem qualquer aviso. Com uma experiência altamente limitada de Demon's Souls, Dark Souls e sequela passaram ao lado, o estilo gótico de Yharnam e a falta de jogos de peso na PlayStation 4 fizeram-me pré-reservar Bloodborne e entrar no jogo à primeira hora do dia de lançamento (optei pelo formato digital). Após pouco mais de uma hora mergulhado no receio de um simples acto quanto dar um passo em frente num mundo digital onde apenas basta pressionar um botão e tudo desaparece, decidi desistir do jogo no meu primeiro acto de RAGE QUIT!

Na manhã seguinte voltei ao jogo motivado pela curiosidade e teimosia, li relatos de como jogadores mais experientes iam progredindo incrivelmente. Explorando a cidade com a ajuda de outros jogadores, fui aprimorando a forma de jogar. A incríveis lutas contra os bosses iam-se sucedendo e a cada novo desespero seguia-se um momento mágico que fez com que o jogo fosse crescendo dentro de mim até não mais o conseguir largar. Cada nova área de Yharnam era fascinante e cativante como não acreditei ser possível. Bloodborne tornou-se precisamente naquilo que mais desejava quando o escolhi para jogo mais aguardado de 2015: uma experiência fresca e nova (gameplay mais dinâmico) que ao mesmo tempo enverga todo o ADN dos produtos From Software.

As mecânicas cooperativas escaparam-me inicialmente e sofri em alguns bosses mas depois lá consegui encontrar a sua utilidade e forma de usar. Sistema arcaico mas completamente enquadrado no espírito do jogo. Conquistei novas batalhas graças a este elemento e ajudei outros jogadores, farmei até à exaustão e descobri que apesar de incrivelmente assustador e imponente, Bloodborne permite que o jogador personalize a sua experiência. Que seja capaz de gerir a sua progressão. Descobri que apesar de estar a farmar experiência para subir de nível de uma forma muito mais exaustiva que uma fatia de jogadores, estava ainda assim a fazê-lo menos do que outros. Muitos, tal como eu, entraram em Yharnam sem conhecer o percurso anterior deste estúdio e foi fantástico descobrir tudo aos poucos e ajudar/ter ajuda de uma comunidade.

Bloodborne é implacável, perder 70,000 Ecos de Sangue sem poder fazer nada é mesmo doloroso, mas também é um motor incessante que gera adrenalina até ao infinito. Quando deslizas pela sala de estar após eliminar o Blood-Starved Beast como se fosses um goleador em noite de Liga dos Campeões é porque o jogo está a fazer algo de magnífico. Bloodborne é implacável, conquista o teu respeito através do teu medo. É implacável porque não te dá a mão, tira-te essas muletas que tantas companhias te deram ao longo destes 10 anos e sem as quais muitos de nós já nem sabe jogar. Implacável porque não se importa de cuspir na tua cara e dizer-te sarcasticamente que a culpa é tua. Fizesses melhor.

A cada erro que damos, a cada desespero e grito de raiva, sabemos que a culpa foi nossa e que deveríamos ter sido mais cautelosos na nossa gestão. O sistema de combate, os diversos elementos gameplay são tão coesos e precisos que qualquer jogador os vai respeitar. O ritmo do jogo, a forma como temos que gerir os ataques e a barra de vitalidade, o sistema Regain que nos permite recuperar uma parte da energia perdida e força nos procedimentos um ritmo mais dinâmico focado no ataque, são elementos preciosos que ditam a incontestável elegância das frases "Morreste" que me acompanharam ao longo de várias semanas.

Senti-me tão recompensado, tão respeitado, tão desafiado e tão divertido a jogar Bloodborne como não me sentia há talvez uns dez ou doze anos. Está desenvolvido de uma forma tão coesa e delicada que a sintonia com que se encaixam todas as suas peças é de uma graciosidade inacreditável. Suportar aqueles malvados ecrãs de carregamento, morrer vezes sem conta enquanto exploramos novas áreas para voltar novamente ao ataque, gritar de euforia quando abrimos um simples portão que nos abre um fantástico atalho e perceber que os videojogos apenas precisam ser isso mesmo, produtos de entretenimento sem grandiosidades intelectuais, é gratificante.

Obrigado From Software e obrigado Bloodborne. Espero que mais jogos e estúdios percebam que bons gráficos são muito bem-vindos, são bons chamarizes, mas a essência é algo mais importante. A criatividade e o engenho artístico devem ser divididos de forma igual por todos os elementos pois só assim iremos seguir em frente. Obrigado por me teres entretido e por não me teres tratado como um imbecil que apenas fará o que pretendes que eu faça. Obrigado por me desafiares, por não me fazeres sentir como um pseudo-intelectual que se esqueceu que videojogos é diversão, e por me fazeres sentir grato por passar o meu tempo encantado com esta indústria.

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Sobre o Autor

Bruno Galvão

Bruno Galvão

Redator

O Bruno tem um gosto requintado. Para ele os videojogos são mais que um entretenimento e gosta de discutir sobre formas e arte. Para além disso consome tudo que seja Japonês, principalmente JRPG. Nós só agradecemos.

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