Mortal Kombat: Duas gloriosas décadas de altos e baixos

O novo jogo está quase a chegar.

Alguém se lembra de Força Destruidora de Jean-Claude Van Damme? Este fantástico filme de 1988, Bloodsport no original, abre este artigo dedicado a Mortal Kombat porque é a razão pela sua existência. O novo Mortal Kombat X chega num ano em que a série comemora 23 anos de existência e no agora distante ano de 1992, o objectivo de Ed Boon e John Tobias era criar um videojogo brutal inspirado no mítico filme. Van Damme chegou mesmo a estar interessado no projecto mas a dada altura desistiu e optou por seguir por um outro mas a verdade é que a sua decisão acabou por dar a esta indústria uma das mais controversas séries que jamais conheceu. Mortal Kombat é agora um clássico dos videojogos e as intenções de Boon e Tobias não podiam ser mais claras: construir uma obra de luta visceral sem qualquer apreço pela dignidade.

JC acabou mesmo por ser o nome do personagem inicial, não de Jean-Claude mas sim de Johnny Cage e desta forma tivemos os primeiros passos em direcção a uma série que, por muitos altos e baixos que já tenha passado, ainda existe e está pronta para voltar às luzes da ribalta. Para celebrar a chegada do novo MKX, convidamos os nossos leitores a partirem connosco por uma jornada pela nostalgia e quem sabe até nos possam ajudar a perceber qual o Mortal Kombat mais respeitado pelos dedicados fãs. Percorrer os anos da série é uma viagem interessante e se o arranque foi bastante curioso, também o actual panorama é, basta pensar que ainda trabalha na sua paixão mas que Tobias está agora na Zynga.

Mas as curiosidades com celebridades e Mortal Kombat não se ficam por aqui. Apesar da sua origem estar centrada num actor muito conhecido, Ed Boon e companhia procuraram desde cedo a ajuda de actores para que os "bonecos" tivessem um aspecto mesmo real. Esta foi uma das mais aclamadas facetas de Mortal Kombat e um dos seus elementos chave. Apesar de uma parte do elenco se resumir a uma simples troca de cores (os ninjas), personagens como Sonya blade, Sub-Zero ou Sindel foram criadas a partir de figuras reais. Vários trabalhadores na Midway serviram como modelos para os personagens e ajudaram a criar um mito.

O primeiro Mortal Kombat foi lançado em 1992 mas acredito que uma grande maioria dos jogadores nem o conseguiu jogar. A sua extrema violência gráfica, os visuais de tom real, e especialmente aquelas fatalities ("spine rip"!) fizeram com que o original fosse um daqueles "jogos do forever". Para os pais era um autêntico atentado à decência e à moralidade enquanto para os putos era o jogo que todos queriam jogar, especialmente porque nenhum de nós tinha 18 anos. Cerca de 7 personagens, uma história um pouco confusa, um leque de lutadores construídos em prol de diferentes estilos de arte marcial, situações cómicas, e muita brutalidade fizeram com que Mortal Kombat fosse um jogo a respeitar.

"Um dos elementos mais consagrados de Mortal Kombat é a sua componente sonora. As vozes e sons do jogo, especialmente aquele riso e a voz a dizer Finish Him, acompanharam muitas infâncias."

Ed Boon, John Tobias, John Vogel e Dan Forden são "os quatro que trabalharam no original" e tinham a incrível tarefa de em apenas 10 meses criar um jogo à altura de Street Fighter II, altamente popular na altura. Um gameplay rápido e simples no qual alguns movimentos como o flying kick e os socos rápidos enquanto agachados se tornaram imensamente populares. Pelo outro lado, as fantásticas fatalities como a de Scorpion ou Johnny Cage deixavam qualquer um agarrado à espera de conseguir ridicularizar com brutalidade o seu amigo.

Mortal Kombat 2 chegou apenas um ano depois, em 1993, e foi para mim um dos pontos altos da série. Introduzindo diversos personagens novos que com os anos se tornaram figuras de destaque, MK2 foi um autêntico espectáculo. Foram cinco personagens novos, mais brutais finalizações e um gameplay aprimorado que consagrou a equipa de Boon. Tobias referiu que a história da sequela veio de A Guerra das Estrelas, da noção de um imperador que controlava toda uma galáxia. Ed Boon por seu lado, afirmou mesmo que nem tinham em mente criar uma sequela pois na altura a forma de pensar era diferente. Um estúdio criava um jogo e depois investia o seu tempo a pensar numa nova produção sem qualquer relação com a anterior. Felizmente a Aclaim não permitiu.

Enquanto o mundo estava envolto na loucura do original, os quatro pensavam em como melhorar a experiência, enriquecer o mundo, criar novos golpes brutais e demolidores, para que o jogo ficasse ainda melhor que o primeiro. Ambos primaram pela sua extrema violência e foram aclamados por irem onde ninguém ousaria ir naquela altura. Foram anos muito bons para quem tinha uma MegaDrive e passou uma boa parte deles a conhecer este estranho e caricato elenco. Passados dois anos, Mortal Kombat 3 chegou e estava dado mais um passo na consagração de uma fase de ouro para Ed e amigos.

"Recordo que em 1995, estava o filme a chegar às salas de cinema, Mortal Kombat era uma autêntica referência inabalável no mundo dos videojogos."

Recordo que em 1995, estava o filme a chegar às salas de cinema, Mortal Kombat era uma autêntica referência inabalável no mundo dos videojogos. Todos o conheciam e enquanto uns o detestavam, outros amavam-no. O terceiro jogo levou ainda mais além o nível de qualidade e poderá ser até hoje um dos preferidos de muitos dos fãs. Numa fase de transição para consolas como Sega Saturn ou Sony PlayStation, os visuais chegavam em tons mais ricos e mais controversos. Isto porque ao aumentar o tom realista dos personagens e dos mundos em seu redor, a violência gráfica ganhava mais impacto e maior capacidade para chocar.

Mortal Kombat 3 foi reconhecido em 2011 pelo Guinness World Records como o videojogo que recebeu a maior campanha promocional de todos os tempos e isto é boa forma de mostrar que MK era uma espécie de Call of Duty dos anos 90, se me permitirem tal. Muita da fama do jogo chegou com o passa palavra e se muito do primeiro se tornou mito porque uma grande maioria dos jogadores não o jogaram, apesar das boas vendas, o segundo e o terceiro foram claros passos em frente na evolução de uma série. Por esta altura estavam estabelecidos os padrões de gameplay, era sabido o que os fãs gostavam de fazer e até rumores tornavam-se realidade: as animalities começaram como uma fantasia dos fãs que foi incorporada nos videojogos. Como curiosidade, já na altura companhias como a Sony usavam os maiores lançamentos para aclamarem as suas máquinas: Mortal Kombat 3 na PlayStation original era a única forma de ter uma experiência caseira igual à das arcades.

No entanto, no pico da fama e no ponto mais alto da sua histeria, Mortal Kombat teve no seu terceiro capítulo um expoente que muitos provavelmente pensariam ser o fim da série. Para uma grande fatia dos fãs foi o melhor produto que nos poderia ter sido fornecido: novos personagens, gameplay afinado e aprimorado que crescia sobre as mecânicas dos dois anteriores, visuais ainda mais credíveis, basicamente toda a essência da série num produto mais refinado. Por outro lado, outros criticavam a série por caminhar para a saturação, incrível desgaste e falta de ideias, a ausência de personagens importantíssimos e basicamente um produto que era feito já quase em modo automático porque a sua fama se tornou demasiado para a própria aguentar. Não vos faz lembrar nada actual?

Se pensarem que entre o ano 1992 e o ano 2000 apenas em 1994 e 1998 não tivemos nenhum Mortal Kombat, ficamos a pensar o ritmo quase anual de lançamentos teria inevitavelmente que fazer das suas. Após a chegada do terceiro jogo, 1995 e 1996 foram "atacados" com versões de MK3 e Mortal Kombat Trilogy mais dedicado às consolas, neste caso a PlayStation, Saturn e Nintendo 64 já estabelecidas no mercado, e os alvos da Midway. O ano de 1997 foi provavelmente o ano mais controverso da história de Mortal Kombat e o golpe final para a grande maioria dos fãs que acompanharam cinco anos de violência.

Mortal Kombat 4 chegou em 1997 e com 15 personagens apresentou-nos o primeiro jogo completamente em 3D da série. Uma clara resposta aos sinais dos tempos, tentando competir com Tekken ou Soulcalibur, MK4 assentava nos mesmos moldes de gameplay mas com visuais e sistema de câmara diferente. Foram introduzidas armas no jogo, com uso limitado, um dano máximo possível e ainda a capacidade para contornar os adversários como nos tradicionais jogos do estilo na altura. Boon confessou que o desenvolvimento do quarto jogo não foi fácil, a equipa era muito grande e as batalhas com as limitações técnicas fizeram das suas. A Midway já havia feito um jogo em 3D e compreendia um pouco mais dos novos desafios mas os visuais não satisfaziam e os novos personagens não tiveram o impacto dos que vieram antes.

"Mythologies e Special Forces foram dois derivados da série principal que assentavam em géneros diferentes, focados num só personagem dentro da mitologia deste universo."

Mortal Kombat Mythologies: Sub-Zero e Mortal Kombat: Special Forces, de 1997 e 2000 respectivamente, foram provavelmente as duas maiores provas que a série estava a tornar-se demasiado grande para o seu próprio bem. Promovidos com toda a pompa e circunstância devido ao nome que envergam, Mythologies e Special Forces foram dois derivados da série principal que assentavam em géneros diferentes, focados num só personagem dentro da mitologia deste universo. Começava a estabelecer-se a ideia que queriam fazer demasiado com a série e que se estava a afastar dos padrões de qualidade e ambição dos primeiros jogos.

Mortal Kombat: Deadly Alliance chegou finalmente em 2002, passados cinco anos do anterior, na altura o maior período entre dois lançamentos na série. Lançado já para uma nova geração de consolas, DA chegou à PlayStation 2, GameCube, Xbox e GameBoy Advance. A incrível exposição da série começou a fazer das suas pois apesar de MK4 ter tido sucesso nas vendas, não deixou grandes impressões nos fãs e ao longo de cinco anos foi preciso reverter essa tendência. Deadly Alliance foi um jogo que tinha a tarefa de reverter a saturação que os fãs começavam a sentir sobre Mortal Kombat. As séries de TV não tiveram grande apelo e a sequela do filme não teve a prestação desejada. Os derivados medíocres provaram que não se pode atirar qualquer coisa só por causa do nome e esperar que venda.

Deadly Alliance foi na altura um jogo de transição, uma ponte entre o passado e o futuro (que entretanto já conhecemos e respeitamos). Este jogo que poderia ter sido chamado de Mortal Kombat 5 ou Mortal Kombat V: Vengeance, apresentava o que na altura podíamos considerar de maior competência gráfica que envolvia e impressionava mais os jogadores. Era a Midway a mostrar que estava focada em reverter a saturação em torno da série para provar a sua relevância. Mortal Kombat: Deadly Alliance recuperava alguns dos mais famosos personagens da série e introduzia alguns novos que, mais uma vez, provavelmente não ficaram na memória da maioria.

Enquanto Dead or Alive, Tekken, Soulcalibur e outras séries estavam já completamente implementadas no estilo 3D (onde nasceram diga-se), Mortal Kombat dava os primeiros passos mas Deadly Alliance conseguiu mesmo ressuscitar Mortal Kombat e devolver-lhe as luzes da ribalta. Melhorando todas as mecânicas de MK4, com um combate mais visceral dinâmico juntamente com cenários mais competentes e atractivos, MK:DA foi um passo certo numa perigosa e atribulada altura para esta série que corria rapidamente o risco de se tornar um clássico de uma outra era apenas procurado por um nicho.

Mortal Kombat: Deception chegou em 2004 e poderia ser considerado como MK6. A sequela de Deadly Alliance, mantinha todos os principais condimentos do anterior e mostrava a "nova face" de Mortal Kombat já plenamente integrado numa nova era. Agora, eram os jogos de luta a 3D que reinavam nas consolas caseiras. Deception procurou corrigir as principais falhas do anterior e procurou melhor um gameplay que havia encontrado o seu chão. Por outro lado, equilibrou a experiência para se reforçar e ainda continuou com o modo Konquest, uma espécie de RPG dentro do universo. A ideia foi criar um produto que fosse além da imaginação dos fãs, que surpreendesse com a sua profundidade e mecânicas. O uso do sistema de armas foi melhorado e os diferentes estilos de luta para cada personagem ganhou ainda melhor resposta.

"Armageddon foi uma espécie de compilação de tudo o que era de bom nos dois anteriores num só pacote mas sem acrescentar muito de importante ou relevante."

Mortal Kombat: Shaolin Monks foi lançado em 2005 para a Xbox e procurava ser o que Mythologies e Special Forces não foram: um derivado da série principal com qualidade suficiente para alimentar os fãs que exigiam mais deste universo. Foi uma pequena curiosidade que muitos fãs aceitaram e cuja qualidade deixou esperanças para o futuro. Voltando à série principal, olhamos para Deception como um jogo que pesar de aprimorando as funcionalidades online, foi apenas o ponto intermédio até à chegada de Mortal Kombat: Armageddon em 2006 para PlayStation 2, Xbox e Wii. Este Mortal Kombat 7 recorreu ao mesmo motor dos dois jogos anteriores, um motor de jogo com 4 anos na altura e que já mostrava os sinais da sua idade. Mortal Kombat: Armageddon foi uma espécie de best of para finalizar esta trilogia específica. Aplicava todas as mecânicas de jogo dos dois anteriores com melhorias, possibilitava a criação de um personagem nosso, ostentava um leque luxuoso de 62 lutadores e tentava ter toda a brutalidade gráfica conhecida da série. Armageddon foi uma espécie de compilação de tudo o que era de bom nos dois anteriores num só pacote mas sem acrescentar muito de importante ou relevante.

Mortal Kombat vs. DC Universe chegou em 2008 à Xbox 360 e PlayStation 3 sendo para muitos o principal responsável pela actual imagem e sensação que a série transmite. O último jogo da Midway não foi o Mortal Kombat 8 escuro e sujo focado num regresso às origens como inicialmente planeado, devido a um acordo com a Warner Bros. Interactive, tornou-se num crossover entre dois mundos. Devido ao uso da licença DC Comics, o tom violento do jogo foi altamente reduzido mas a sua qualidade gráfica, a qualidade da combinação dos dois mundos e a forma como personagens que nunca se haviam encontrado pareciam simplesmente encaixar, fascinaram fãs de todo o mundo que viam Mortal Kombat tornar-se num produto de destaque mais uma vez.

Esta combinação de dois mundos, o fecho da Midway e venda da série à Warner Bros. acabou por resultar no Mortal Kombat que temos hoje em dia, cujo novo título será lançado muito em breve para as mais recentes consolas. Mortal Kombat, também conhecido como Mortal Kombat 9, foi lançado para a Xbox 360, PC, PlayStation 3 e PlayStation Vita sendo um jogo que nos enviava verdadeiramente para as origens da série. Em 2011, utilizando a base e essência do confronto com a DC (motor de jogo incluído), Ed Boon no seu novo estúdio NetherRealm a cargo da Warner Bros. deu finalmente à série o jogo que esta merecia desde 1992.

Um produto que devolveu todo o estatuto e consagração à série, que a levou novamente para as tabelas dos mais vendidos e mais aclamados do seu ano, que combinava na perfeição todos os elementos clássicos estabelecidos no passado mas que respeitava as regras actuais para se actualizar e sentir-se fresco. O seu incrível modo história (lição estudada no crossover), os seus brutais visuais e a crescente sensação de maior estilo nos actos violentos, fizeram com que Mortal Kombat levasse os fãs ao delírio. Recontando todos os eventos da primeira trilogia, MK9 apresentou vários modos de jogo que assentavam que nem uma luva no ADN de Mortal Kombat.

Finalmente a série deixava de ser uma curiosidade para um pequeno nicho para ser um produto que todos deveriam experimentar. O passa a palavra voltava a funcionar, e as vendas ajudavam a manter a série na ribalta. Boon confirmou bem cedo o desejo de voltar à natureza sangrenta da série, de procurar um jogo maduro que representasse tudo o que gostamos em Mortal Kombat, não falhou. Tentando envergonhar todos e quaisquer jogos da série que chegaram antes, a equipa de desenvolvimento procurou criar um sistema de jogo que fosse desafiante o suficiente para os competidores mas que fosse acessível aos novatos que iriam com toda a certeza cativar.

"MK9 é sem dúvida um produto de excelência que respeita a série mas que a sabe levar para a direção que precisa."

Utilizando mais uma vez a fórmula 2.5D, MK9 é sem dúvidas um dos melhores em toda a série e um jogo que honra a natureza violenta da série com ainda maior impacto devido ao tom mais cinematográfico dos visuais. Toda a gameplay e mecânicas clássicas são actualizadas com o devido respeito e este é um jogo que a grande maioria dos jogadores deveria jogar pois condensa mais de 20 intensos anos a desenvolver jogos de luta mas agora com uma incrível qualidade. MK9 é sem dúvida um produto de excelência que respeita a série mas que a sabe levar para a direção que precisa. Para Boon é o jogo que recomeçou tudo e os fãs certamente não se atrevem a discordar.

Passados cerca de 23 anos desde o lançamento do primeiro, passados 4 anos depois do nono título na série principal, Mortal Kombat X está a chegar e apesar de tanto tempo já ter passado, a sua essência continua a mesma. Um jogo brutal de extrema violência mas que ao longo dos anos condensou toda a sua experiência para nos dar algo com mais estilo, mais profundidade e mais competência. Se são fãs de Mortal Kombat então sabem que esta é uma das melhores alturas para o ser, se não mesmo a melhor. Provavelmente poderemos discutir que a violência do original e a inocência da indústria em lidar com alguns temas em 1992 criaram um ambiente muito difícil de igualar mas a verdade é que em 2015, Mortal Kombat continua a ser diferente e original por todos os motivos que era há 23 anos.

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Sobre o Autor

Bruno Galvão

Bruno Galvão

Redator

O Bruno tem um gosto requintado. Para ele os videojogos são mais que um entretenimento e gosta de discutir sobre formas e arte. Para além disso consome tudo que seja Japonês, principalmente JRPG. Nós só agradecemos.

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