Alien: Isolation - Análise

Como é bom voltar aos anos 80.

Um dos filmes que marcou a minha infância foi Alien - O 8º Passageiro, um marco histórico no cinema de ficção cientifica, realizado por Ridley Scott. Alien marcou também pois foi produzido no ano em que nasci, tornando-se atualmente numa das minhas mais saudosas memórias cinéfilas. Sei que não tinha a idade dita oficial para ver o filme, mas foi por intermédio deste filme, entre poucos outros, que a minha paixão por filmes de ficção-terror começou.

Por esta razão foi com enorme alegria que recebi a notícia da produção de um videojogo que pega no ambiente do primeiro filme e o tenta recriar. Alien: Isolation é um hino ao que foi feito em 1979, principalmente pelo recriar de um todo ambiente de suspense misturado com pequenas pepitas de horror e ação. Este tem sido um dos problemas dos últimos Aliens, demasiado focados na ação. Quem conhece os filmes a seguir ao primeiro, sabe que essa foi a onda na altura (apesar de gostar muito do segundo), o filme passou para algo com mais ação, mais armamento e destruição. Mas o primeiro filme era algo mais calmo, onde a figura de Alien era mais individualizada, quase como que tendo uma personalidade, gostos e objetivos. Ou seja, era algo que podíamos ter uma ligação, era algo humanizado e não um bicho para ser morto.

O Alien é duro de roer, não se consegue matar assim de uma hora para a outra. Como no primeiro filme, foi preciso algo mais especifico, algo mais direto e preparado e não durante umas rajadas de tiros. Esta forma de lidar com o Alien está muito presente em Alien: Isolation. Não se queiram meter à frente dela, pois o mais certo é morte imediata.

O trabalho artístico em volta de Alien: Isolation revela um carinho enorme que o estúdio Creative Assembly tem pelo primeiro filme. Desde a introdução do estúdio produtor, 20th Century Fox, ao uso de K7s, ao uso de um lettering mais pixelizado e grande, ao uso de uma grainha de filtro no ecrã, ao uso de sons quase que primários, que tornam toda a experiência visual e sonora numa verdadeira delícia. Este é o segredo de Alien: Isolation, cativa-nos desde o primeiro segundo.

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Tens apenas duas hipóteses...

É obvio que aqueles que quiserem um jogo mais "violento", com explosões, ação non-stop, recurso a um armamento digno de um Rambo, não irão encontrar aqui. Alien: Isolation é sobre a percurso, sobre o isolamento, o estarmos sós e sem que tenhamos alguém para partilhar o nosso stress e medo do que vem a seguir. O medo é algo inerente ao jogo desde o início. Às vezes não sabemos bem de que temos medo, pois os encontros com Alien são escassos e pautados por ocasiões especificas.

Aqui somos Amanda Ripley, a filha de Ellen Ripley, protagonizada pela famosa atriz Sigourney Weaver. Amanda continua a pensar que poderá encontrar a sua mãe e não se conforma que o assunto esteja encerrado, mesmo após 15 anos do desaparecimento da nave Nostromo, onde viajava sua mãe. Para sua surpresa numa nave ou plataforma chamada Sevastopol, encontra-se o registo digital da nave Nostromo, algo como uma caixa preta que contem os registos do que se passou. Por essa razão Amanda é chamada a participar numa viagem a Sevastopol, e é aqui que as coisas se tornam bem diferentes do que estava à espera.

Sevastopol está em estado de sítio, onde a anarquia, a destruição dos sistemas de segurança e energético colocaram a nave numa situação caótica pela sobrevivência do mais forte. Depois de alguns acontecimentos, que não poderei especificar para não estragar a história, Amanda fica só, em busca dos seus colegas de viagem que iriam investigar o que se passava em Sevastopol. Amanda tem que aprender a sobreviver, pois logo desde o início não tem nada em seu poder para que possa lutar. Por isso, esconder-se, andar de vagar e encontrar algum objeto ou arma que a ajude a sobreviver será um dos objetivos iniciais.

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Um dos gadgets mais importantes. Em termos estéticos está simplesmente genial. A opção de foco do radar e foco no ambiente está muito bem conseguido.

O estúdio Creative Assembly usou muito bem o comando da PS4 (versão testada), bem como dos restantes, para dar uso a todas as funcionalidades do jogo. Podemos aceder a uma roda de objetos por pressionar o Círculo. Aqui temos acesso a gadgets que iremos construir com determinados objetos e peças que encontrarmos. Para termos acesso por exemplo a um gadget que emite um ruído quando ativado no chão, que funcionará como distração, temos que encontrar primeiro os desenhos ou planta desse gadget e saber como o produzir. Só depois temos que recolher os objetos, peças e baterias para o produzir. É um sistema simples, direto, mas que ajuda a criar o ambiente de produção manual e sobrevivência.

O Alien é no início o inimigo que não deveremos muito nos preocupar. Outros humanos, que tentam sobreviver ao caos e os sintéticos, ou androids, serão as "pessoas" a evitar. No fundo o confronto com qualquer personagem é altamente evitável em Alien: Isolation. Cometi o erro de achar que poderia simplesmente com um revolver resolver o assunto, e não é bem assim com os sintéticos. Apesar de não serem rápidos, são persistentes e depois de nos descobrirem não descansam até nos matarem, sempre com deixas sarcásticas tais como "Estás muito stressada, tens que te acalmar", isto enquanto me aperta o pescoço.

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Os Saves estão em locais estratégicos. Usem bem para que possam estar perto donde irão morrer. É um facto.

Estes sintéticos pertencem à empresa Seegson, que controla Sevastopol através de uma IA chamada Apollo. Este é um assunto não resolvido, e a busca pelos nossos colegas, por mais respostas sobre o acidente, levarão Amanda Ripley a confrontos que certamente não desejaria. Vamos conhecendo a história de Sevastopol por intermédio de logs de texto e áudio deixados nos terminais que podemos aceder. É altamente recomendado que leiamos estes logs, pois são peças importantes para o jogo e também darão pistas necessárias para a sua progressão.

Dois dos gadgets que iremos encontrar e que mais gozo dá usar é o muito conhecido sistema de radar e o decodificador rádio para hackear diversas portas. O primeiro é um ícone do filme Alien, e traz memórias a cada bip. Mais ainda, o som do bip está presente no comando da PS4 e não nas colunas de som. É super stressante e agradável ao mesmo tempo, trazendo para mais de perto o ambiente do jogo. Outra particularidade a este respeito é quando ligarmos a PlayStation Eye ao jogo, pois ela capta o som da sala onde estamos a jogar e se houver barulho o Alien irá detectar a fonte e atacar. Tão simples mas ao mesmo tempo tão bem colocado.

Sevastopol é uma nave cheia de recantos e extremamente bem detalhada. O ambiente escuro, desprovido de luz natural coloca uma enorme tensão no jogador. Alien: Isolation está fantástico a nível gráfico e na construção dos níveis, salas e recantos. É de ficar admirar certas zonas, principalmente aquelas onde conseguimos ver para o espaço, onde a luz da estrela penetra nas janelas. Houve uma enorme preocupação ao nível do detalhe dos ambientes, desde às salas, condutas, corredores e tudo que torna o ambiente real e vivo. De realçar os efeitos de luz, partículas e o fumo das condutas. Já o Alien é uma criatura enorme, esguia, rápida e letal, mas muito bem detalhada.

"Alien: Isolation é um jogo lento por natureza, é de proposito que assim seja e é assim que é fantástico."

Depois desta toda tensão, de todo este poder gráfico, chega o que chamamos de jogabilidade pura e crua. Estaremos de forma constante e muito tempo a fazer quase sempre as mesmas coisas. Ativar esta porta, encontrar esta chave para a porta, passar pelas condutas, esperar calmamente que os inimigos passem, e no fundo ter muita mas mesmo muita calma. Alien: Isolation é um jogo lento por natureza, é de proposito que assim seja e é assim que é um jogo fantástico. Mas também é algo que pode cansar e colocar de lado alguns jogadores.

Pessoalmente gostaria que existisse maior ligação com outras personagens. O filme Alien tem um equilíbrio perfeito entre o terror e suspense e as ações onde as personagens criaram uma ligação entre si. É óbvio que aqui o isolamento é a razão primária deste jogo, mas ficava bem algo mais humano. Amanda Ripley nem sempre é a personagem que queríamos que substituísse Ellen Ripley como figura central.

Temos no disco os diversos desafios de sobrevivência com objetivos específicos a cumprir numa determinada área do jogo. Aqui temos que cumprir o desafio no menos tempo possível, havendo tabelas classificativas a nível mundial sobre quem conseguiu em menor tempo. É um extra, mas que depois de andarmos a fazer isso imensas vezes em cada cena do jogo, não é algo que atrai, por apenas fazer mais do mesmo.

Alien: Isolation é uma aposta segura para os fãs da série. É o jogo que todos esperávamos, com todo o carinho demonstrado pelo estúdio em recriar fielmente muitas das cenas da nossa infância, que atualmente já se encontram no nosso imaginário. É um videojogo obrigatório para os fãs, mas que deverá ser levado com cautela por aqueles que gostam algo mais direto, com confrontos onde as balas são mais importantes que os segundos perdidos escondidos em condutas de ar.

8 /10

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Sobre o Autor

Jorge Soares

Jorge Soares

EG.pt Master of Puppets

Sempre ocupado e cheio de trabalho, é ele quem comanda e gere a Eurogamer Portugal. Queixa-se que raramente arranja tempo para jogar, mas quando está mesmo interessado num jogo, lá consegue arranjar uns minutos. Tem mau perder e arranja sempre alguma desculpa para a sua derrota, mas no fundo, é o que todos fazemos.

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