Setembro foi um dos meses mais importantes da vida da Xbox One. A consola chegou a 29 novos mercados, nos quais se inclui o nosso, e as reacções foram...bem...mistas. Ainda não existirem números oficiais mas tudo indica que por cá a consola foi bem recebida(os bundles são bastante atractivos) mas a Oriente, apesar da boa recepção que a Xbox One teve na China, as coisas parecem estar bastante complicadas para a Microsoft.

É do conhecimento geral que o Japão, outrora o maior mercado de video jogos do mundo, sempre foi um território complicado para as consolas da Microsoft mas os números do lançamento da Xbox One são especialmente desanimadores: com apenas 23.562 unidades vendidas em 4 dias, teve o pior lançamento de uma consola desde 1998. Nas semanas que se seguiram, este número baixou ainda mais, tendo vendido pouco mais de 1.000 unidades na semana passada. Na Coreia do Sul, a situação foi ainda mais catastrófica, com apenas 200 unidades vendidas durante o evento de lançamento.

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Este jogador levou para casa uma raridade.

Se o público japonês não quer saber da Xbox One e a Microsoft não quer saber do público japonês(ao ponto de nem fazer publicidade na televisão), porque é que a empresa insiste em marcar presença no território?

Uma realidade muito diferente.

Um dos melhores artigos sobre video jogos que li nos últimos anos foi o “Why Xbox failed in Japan”, publicado a 14 de Dezembro de 2012 no Eurogamer.net. O texto fala sobre as várias razões que levaram ao fracasso da Xbox original no território japonês, entrevistam-se alguns dos protagonistas da história e chega-se à conclusão que são, sobretudo, problemas culturais(e até filosóficos) que impediram a marca Xbox de alcançar sucesso no Japão.

A Microsoft foi “jogar a casa” da Sony, Sega e Nintendo com uma consola gigantesca, recheada de géneros adorados apenas pelos ocidentais e cujo nome, aparentemente, começa com uma letra associada à morte no Japão. Tinha tudo para dar certo, não era?

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Murica

Durante o desenvolvimento da primeira Xbox, o peso do Japão no mercado dos video jogos era enorme e, como tal, não podia ser uma região que a Microsoft pudesse ignorar. O Japão representava 30% de todo o mercado de consolas domésticas do mundo(se contarmos com portáteis, seria mais de 50% de todo o mercado) e no ocidente toda a gente jogava em consolas japonesas porque, verdade seja dita, não tínhamos alternativa.

A Xbox era baseada em tecnologia do PC(Direct X, daí o nome Xbox), uma plataforma que sempre foi obscura no Japão e nada familiar para os developers locais que praticamente prestavam vassalagem à Sony depois do estrondoso sucesso da PlayStation.

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A lista de exclusivos Sega na Xbox original foi assombrosa. Parecia uma Dreamcast 2.

Talvez por ter sido a Sony uma das grandes responsáveis pelo seu fim, a Sega foi uma das raras excepções que apoiou em força a Xbox original(a Dreamcast também já tinha usado uma versão do Windows CE) mas convencer mais developers a fazerem o mesmo iria requerer muito tempo e, sobretudo, muito dinheiro. O artigo que mencionei explora bem a posição de Shinji Mikami em querer levar a série Resident Evil para longe da PlayStation mas em não abraçar a Xbox porque a marca, ao contrário dos fabricantes japoneses, não tinha uma filosofia definida. A solução passou por gastar muito dinheiro para comprar títulos exclusivos durante a era da Xbox 360 que permitissem à consola ganhar terreno. Vendeu pouco mais de 1.6M de unidades, quase 10% das vendas obtidas pela PlayStation 3.

Em 2010, o peso do mercado japonês nos video jogos caía para 10% e hoje em dia é praticamente anedótico. A 3DS é a única plataforma que ainda consegue fazer frente ao domínio avassalador dos jogos para smartphones e redes sociais e as consolas domésticas parecem pertencer a um passado onde ainda havia tempo para jogar em casa. Até Dragon Quest saltou para as portáteis e smartphones enquanto Star Ocean ou Breath of Fire seguiram o caminho das redes sociais. O Japão de hoje em dia é um mercado radicalmente diferente daquele que existia quando alguém em Seattle se lembrou de criar uma consola com base no Direct X. Nem as japonesas PlayStation 4 ou a Wii U têm conseguido inverter esta tendência por isso não foi surpresa para ninguém a estreia desastrosa da Xbox One no Japão.

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Nem uma grande quantidade de JRPGs foi capaz de inverter a sorte da Xbox 360 no Japão.

É um mercado que abandonou em massa as consolas domésticas e já nem é uma questão de não haver conteúdo de qualidade para elas. Veja-se o caso da Xbox 360 onde havia JRPGs com fartura. Lost Odyssey foi o melhor Final Fantasy da geração passada(mesmo não tendo o nome Final Fantasy no título) e Tales of Vesperia uma das melhores entradas na série. The Last Remnant e Star Ocean 4 tiveram os seus fãs e, apesar de eu não ter gostado nada do jogo, Blue Dragon foi um título sólido. Todos eles foram os grandes responsáveis por picos de vendas da Xbox 360 mas esse ritmo abrandou muito depressa. Recentemente, aconteceu o mesmo com Bayonetta 2, na Wii U. A realidade é uma: não é por falta de bons jogos que os japoneses já não jogam em casa.

Porquê a insistência?

Muitos questionam-se sobre esta “teimosia” de continuar a apostar no Japão em vez de apoiar antes outros territórios com mais consumidores. No Reino Unido, a Xbox One conseguiu, finalmente, ultrapassar a PlayStation 4 em vendas semanais mas nos países periféricos da Europa, PlayStation ainda é praticamente sinónimo de video jogos. Não faria mais sentido investir aí(na verdade, aqui) do que no Japão, onde o mercado é averso a produtos ocidentais e não pára de encolher?

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Ainda há muito a fazer pela marca Xbox em Portugal.

A resposta não é assim tão simples. Com margens de lucro tão baixas, é muito difícil que o dinheiro das vendas de tão poucas consolas e jogos no Japão chegue para cobrir custos publicitários, logísticos e encargos com o pessoal da divisão Xbox. Apesar de apenas ter sido lançada há três semanas atrás, neste momento não passa sequer publicidade à Xbox One na televisão japonesa, algo bastante demonstrativo da falta de interesse da empresa naquele mercado.

No entanto, não é para fazer dinheiro com os consumidores japoneses que a Microsoft insiste em manter a marca Xbox no Japão. Apesar de continuar a perder bastante dinheiro, estar no Japão é um “mal necessário” para a empresa atrair developers do país do sol nascente porque, apesar dos consumidores japoneses serem poucos, a quantidade de estúdios japoneses é bastante grande. Resident Evil, Metal Gear Solid, Kingdom Hearts ou Devil May Cry são algumas das séries que sozinhas são capazes convencer muitos jogadores a comprarem uma consola. Veja-se a quantidade de jogadores que vão comprar uma PlayStation 4 para jogar Bloodborne, uma Wii U com o Bayonetta 2 ou uma Xbox One para o Scalebound da Platinum Games.

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No artigo que mencionei, aprendi que para os japoneses, as relações de proximidade são cruciais nos negócios. Ao contrário do que acontece aqui, não basta apresentar uma proposta e assinar um contrato para se porem mãos ao trabalho. Jantares, copos e karaoke são descritos como essenciais para criar uma relação de proximidade. Se a Microsoft sair do Japão, essa proximidade com os developers vai à vida e a Xbox perde todos os exclusivos third party japoneses para a Sony e a Nintendo, um cenário pelo qual já tiveram a infelicidade de passar com a primeira Xbox.

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Sobre o Autor

Joel Monteiro

Joel Monteiro

Colaborador

Amante de design de videojogos nos poucos tempos livres. Escreve quinzenalmente na Eurogamer Portugal sobre a indústria e criatividade.

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