A Gamescom já lá vai e, apesar do notório crescimento ao longo dos anos, a maior feira europeia de video jogos continua a não conseguir ombrear com a E3. A esmagadora maioria do que foi mostrado já era conhecido da feira de Los Angeles e as duas maiores histórias acabaram por ser os anúncios de dois exclusivos third party de peso.

O primeiro caiu que nem uma bomba: Rise of the Tomb Raider só poderá ser jogado na Xbox One. Pela primeira vez em 18 anos, uma nova aventura de Lara Croft não vai sair numa consola da Sony, pelo menos não nos primeiros tempos. Foi uma grande jogada por parte da Microsoft e Phil Spencer está de parabéns por ter conseguido convencer a Square Enix a apostar na sua plataforma.

A resposta da Sony chegou sob a forma de P.T., um jogo de terror(que viemos a saber tratar-se de Silent Hills) com Hideo Kojima e Guillermo del Toro aos comandos e que promete inundar o YouTube de vídeos com a reacção dos jogadores, como aconteceu com Amnesia e Slender Man. Um Silent Hill exclusivo numa altura em que o survival horror atravessa uma fase revival é igualmente uma excelente aposta por parte da Sony mas, tal como Rise of the Tomb Raider, parece ser um exclusivo temporário.

Exclusivos comprados vs exclusivos financiados

Nos tempos da PlayStation 2, Xbox e Gamecube, ninguém estranharia o anúncio de exclusivos third party mas a geração passada alterou esse paradigma de tal forma que, em vez de indiferença, somos presenteados com reacções infantis de uma minoria que nos envergonha a todos enquanto jogadores e que os mass media infelizmente acabam por tomar como um todo. Apesar disso, compreendo em parte o desagrado devido ao facto de Rise of the Tomb Raider ser um exclusivo comprado, ou seja, a Microsoft pagou à Square Enix para que o jogo não saia na PlayStation 4.

Medidos os interesses, podemos argumentar que a compra de exclusivos third party prejudica a generalidade dos jogadores, já que não vão receber jogos que correriam perfeitamente na sua máquina apenas porque a empresa que com ela concorre abriu os cordões à bolsa.

Na geração passada tivemos alguns desses casos. Tales of Vesperia e Star Ocean: The Last Hope foram originalmente lançados na Xbox 360 para incentivar o mercado japonês a comprar a consola da Microsoft, tendo sido apenas mais tarde lançados na PlayStation 3(embora nunca tenha existido uma versão ocidental do fantástico jogo da Namco Bandai).

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Parece mentira mas Tales of Vesperia levou a uma ruptura de stock da Xbox 360 no Japão.

Do lado da Sony, temos os casos de Valkyria Chronicles, Ni No Kuni e Metal Gear Solid 4, títulos que a Xbox 360 aceitaria de bom grado mas que não foram lá lançados(apesar de Kojima argumentar que seriam precisos vários DVDs para Metal Gear Solid 4, a compressão dos muitos vídeos contornariam essa situação).

Casos diferentes e que não deveriam chatear ninguém são aqueles em que um jogo third party só existe porque alguém o decide financiar, como aconteceu com o primeiro Mass Effect na Xbox 360, Heavy Rain na PlayStation 3 ou The Wonderful 101 e Bayonetta 2 na Wii U. Apesar das vozes dessa tal minoria que nos envergonha ainda se ouvirem, especialmente no caso de Bayonetta 2, a realidade é que só temos que estar gratos à Sony, Microsoft ou Nintendo em tais situações, caso contrário não teríamos sequer a oportunidade de jogar alguns dos melhores títulos dos últimos tempos.

Os exclusivos influenciam a compra de uma consola?

É claro que sim mas provavelmente não tanto quanto pensam. Numa sondagem realizada no EGX 2013, 34% dos 2.450 jogadores hardcore inquiridos apontam os jogos exclusivos como o principal factor de peso na compra de uma nova consola. 29% indicou ser o preço da consola o mais importante, 11% compra por ser leal à marca e 10% respondeu que o mais importante era ter uma consola igual à dos amigos. Outros indicaram o serviço online ou as capacidades multimédia mas aquelas são as razões mais importantes que levam um consumidor a optar pela consola X em detrimento da Y(por aqui se vê a terrível estratégia de Don Mattrick em querer agradar, antes de tudo, a uma minoria extremamente reduzida do mercado).

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Fora das consolas da Nintendo, são poucas as séries exclusivas que vendem hardware em massa.

Segundo esta sondagem, 2 em cada 3 jogadores não liga sequer a exclusivos quando pondera comprar uma consola e a realidade é que os números o comprovam: tirando a excepção da Nintendo, os jogos mais vendidos de cada geração são sempre multi plataformas. A realidade é que Call of Duty, Assassin's Creed ou Grand Theft Auto lideram os tops de software nas semanas do ano em que se vendem mais consolas. Os picos registados no lançamento de exclusivos é mais moderado, tirando as excepções de Halo, Gears of War ou Gran Turismo e, obviamente, os grandes exclusivos da Nintendo como Mario, Mario Kart e Zelda.

As consolas da Nintendo são mesmo a excepção a esta regra de que os multi movem hardware. Quem comprou uma Wii U, não o fez porque Assassin's Creed tem aí uma maior resolução ou porque a comunidade de Call of Duty está toda lá. Desde a Nintendo 64 que as pessoas compram consolas da Nintendo para jogarem jogos da Nintendo.

Basta olharmos para o attach rate das principais franchises na Wii U para vermos a elevada lealdade dos seus consumidores(mais de metade dos possuidores da Wii U comprou Mario Kart 8 e cerca de 70% tem o New Super Mario Bros. U).

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Apesar de ter vendido muitas unidades, Mario Kart 8 não vendeu muitas consolas. Pode ser que Super Smash Bros. inverta esse cenário.

Nova geração, diferentes filosofias

Apesar da Xbox 360 ter começado a geração passada com um catálogo de exclusivos muito forte, é inegável que, feitas as contas, foi a Sony quem mais apostou em jogos exclusivos na PlayStation 3. Os anos foram passando e a Microsoft preferiu fazer a diferença através de conteúdo temporariamente exclusivo, tal como os muito populares map packs de Call of Duty ou as expansões de Grand Theft Auto IV.

Os resultados foram visíveis: a “falta” de títulos exclusivos não significou a migração em massa dos jogadores para a PlayStation 3, tendo a Xbox 360 vendido sempre muito bem ao longo da geração, e assegurado a liderança no mercado norte-americano. Só muito recentemente foi ultrapassada pela PlayStation 3 a nível global.

Esta medida foi eficaz e poupou à Microsoft bastante dinheiro em desenvolvimento de jogos exclusivos(apesar de terem gasto boa parte dessa poupança no Kinect).

Na verdade, esta filosofia foi tão eficaz que a Sony parece decidida em segui-la na nova geração: apesar de o único AAA exclusivo previsto para este ano ser DriveClub, a Sony já assegurou conteúdo exclusivo para Destiny ou Arkham Knight, como o tinha já feito com Watch Dogs e Assassin's Creed 4.

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O conteúdo exclusivo é uma opção modesta mas que pode fazer a diferença.

Apesar de parecer uma vantagem marginal, a exclusividade deste conteúdo pode ser muito relevante quando se trata de jogos com uma forte componente social(lembram-se que os amigos são uma forte influência na compra de uma consola?). A Microsoft aprendeu isso com Call of Duty e, na minha opinião, a Sony fez um excelente trabalho em conseguir a exclusividade dos conteúdos de Destiny, a nova IP com mais pré-reservas de sempre. Apesar da base de fãs da Bungie estar na Xbox One, com certeza muitos optarão pela versão PlayStation 4 por trazer mais conteúdo.

Os tempos dos third party completamente exclusivos já lá vão: é cada vez mais caro produzir um jogo e lança-lo numa só plataforma é um risco tremendo e desnecessário. A via passa, pois, por conteúdo exclusivo, uma opção certamente mais modesta mas que, feitas as contas, pode fazer toda a diferença.

E para vocês, qual é o peso de um jogo exclusivo na decisão de comprar uma nova consola?

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Sobre o Autor

Joel Monteiro

Joel Monteiro

Colaborador

Amante de design de videojogos nos poucos tempos livres. Escreve quinzenalmente na Eurogamer Portugal sobre a indústria e criatividade.

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