O que têm em comum The Last of Us, Beyond: Two Souls e Grand Theft Auto V? São todos jogos com um ano ou menos de idade com direito a tratamento de next-gen. Não foram planeados como cross-gen, sendo antes remasterizações de jogos da geração passada. A moda começou com Tomb Raider (outro do ano passado), pegou e parece não ter fim.

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O principal culpado, porque 720p faz mal aos olhos.

Segundo a Sony, metade dos possuidores de uma PlayStation 4 não tiveram uma PlayStation 3, números dos quais duvido seriamente mas que estão a ser usados para justificar a avalanche de remasters e remakes que encobre a crua realidade do início de vida das novas consolas: a falta de conteúdo original.

Descubram as diferenças

Quem viu o antes e o depois de The Last of Us certamente reparou que as diferenças são negligenciáveis. É natural: The Last of Us é um dos jogos com melhor aspecto da geração passada e a indústria não avançou assim tanto visualmente(até porque só passou um ano) que se justifique uma remasterização do material original. O mesmo vai valer para Beyond: Two Souls, outro jogo com óptimo aspecto na PlayStation 3 e que, dificilmente, terá melhorias notórias na PlayStation 4.

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Se olharem com atenção reparam que a principal diferença está no preço.

Nem mesmo em Grand Theft Auto V veremos muitas diferenças, mesmo sendo em mundo aberto. Dar o devido tratamento a veículos e personagens seria um trabalho imenso num jogo que já vendeu mais de 35 milhões de unidades e continua no top 10 dos mais vendidos semana após semana. Não vale a pena perder mais tempo num produto que, como está, já vende imenso. A Sony até pode argumentar o contrário mas são muito, muito poucos os jogadores hardcore que tenham deixado de jogar GTA V na PS3 e XBox 360 com a esperança que fosse lançado numa consola da nova geração. Tal como aconteceu com Tomb Raider, as diferenças são e vão continuar a ser negligenciáveis porque, além dos jogos serem bastante recentes, aproveitaram vários anos de desenvolvimento das suas consolas originais, podendo ser considerados o pico técnico e visual das mesmas.

Quando é que se justifica um remake/remaster?

Apesar de ser contra o relançamento de jogos que estão há “meia dúzia de dias” no mercado, considero muito bem-vindas as remasterizações e remakes de títulos mais antigos que passaram ao lado de gerações inteiras de jogadores que dificilmente os jogarão porque não conseguem ultrapassar a barreira gráfica.

Grim Fandango HD, apresentado na conferência da Sony na E3, é um excelente exemplo disso, embora a barreira gráfica aqui não esteja em causa por causa do visual singular do jogo. Apesar do original ser uma das melhores aventuras gráficas de sempre e um exemplo raro de humor em videojogos, vendeu muito poucas cópias e é preciso alguma ginástica para o correr num sistema operativo acima do Windows XP, pelo que este remaster é mais do que bem-vindo.

O mesmo vale para o recente Duck Tales remastered (o original era da NES), Super Street Fighter II Turbo HD Remix (SNES e Mega Drive) ou The Legend of Zelda: Ocarina of Time 3D. Todos eles são marcos importantes na história dos videojogos nos quais dificilmente os “putos” de hoje em dia pegariam porque os gráficos não são “bonitos”. Se não fosse o remake de Resident Evil para a Gamecube, o original continuaria a ser um clássico praticamente inacessível, com gráficos e jogabilidade da idade da pedra.

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O melhor remake de todos os tempos.

Por fim, também não tenho nada contra remakes comemorativos e que, realmente, são mais do que uma nova caixa, um menu mais bonito e um punhado de texturas trabalhadas. The Legend of Zelda: Wind Waker HD para a Wii U e Halo: Combat Evolved Anniversary são comemorativos dos 10 anos dos jogos originais e tiram completo proveito do novo hardware onde foram relançados. Também Final Fantasy X/X-2 HD e Kingdom Hearts 1.5 são mais do que meros remasters de jogos com mais de 10 anos de idade, com vários elementos trabalhados de raiz e, no caso de Kingdom Hearts, vários títulos incluídos no mesmo pacote.

Em todos estes casos, o remaster/remake não parece uma forma rápida de sacar dinheiro aos fãs. Antes pelo contrário, comemora um legado importante deixado por títulos muito especiais e que marcaram uma época. Nas outras indústrias criativas, tal farta-se de acontecer: ainda recentemente foram comemorados os 20 anos de dois dos mais importantes álbuns dos anos 90, In Utero, dos Nirvana, e Definitely Maybe, dos Oasis, com edições remasterizadas dos mesmos. É uma homenagem mais do que merecida mas se fizessem o mesmo com o AM, dos Arctic Monkeys (lançado o ano passado), soaria a aproveitamento, por muito bom que o álbum seja.

Só compra quem quer

“Só compra quem quer” é o argumento de quem não quer sequer discutir o assunto, muito provavelmente porque nem sequer deu o salto para a nova geração. Aqueles que já o fizeram certamente prefeririam ver o seu investimento de várias centenas de Euros justificado com mais jogos next gen criados de raiz e menos remasterizações de títulos do “longínquo” ano de 2013.

Com o adiamento de The Order 1886 para 2015, a já magra oferta de exclusivos AAA para 2014 da PlayStation 4 ficou reduzida a Driveclub. Não é de admirar que seja a Sony quem mais anda a pescar no “best of” da geração passada de forma a remediar um primeiro ano de vida da PlayStation 4 com um ponto alto sob a forma de inFamous: Second Son, e um futuro próximo que parece ser composto apenas pelo novo jogo do estúdio de Santa Monica. Depois de The Last of Us e Beyond: Two Souls, já se fala em Uncharted e God of War (série que, por sinal, já teve mais colectâneas do que o Sporting teve campeonatos ganhos nos últimos 30 anos) mas duvido que a coisa fique por aqui.

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Onde não falta conteúdo exclusivo e original é na Wii U.

Apesar da Microsoft estar melhor servida de exclusivos para os próximos tempos, o grande lançamento de 2014 é, também, uma jóia do passado: Halo: Master Chief Collection. Não é um “cash grab” tão escandaloso quanto os da Sony, incluindo mais de uma centena de mapas e um remake completo de Halo 2 mas, ainda assim, seria preferível que o grande lançamento do ano não vivesse tanto do passado.

Enquanto a Microsoft e a Sony ainda parecem presas ao passado, a Wii U é a única consola que já entrou, definitivamente, na nova geração. Com o recente Mario Kart 8 a juntar-se a Mario 3D World e Hyrule Warriors, Super Smash Bros. e Bayonetta 2 a chegarem até ao final do ano, falta de conteúdo original é o que menos falta na Wii U. Além disso, 2015 promete ser um ano brilhante para a consola, com Devil's Third, Splatoon, Xenoblade Chronicles X e, quem sabe, Zelda.

Se querem que compremos consolas da nova geração, façam como a Nintendo e dêem-nos razões para isso em vez de jogos que já terminámos. A não ser que seja um remake de Final Fantasy VII.

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Sobre o Autor

Joel Monteiro

Joel Monteiro

Colaborador

Amante de design de videojogos nos poucos tempos livres. Escreve quinzenalmente na Eurogamer Portugal sobre a indústria e criatividade.

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