Dis-Kinect-ed

Sem atrelado, pode a Xbox One ganhar a corrida?

A era Phil Spencer começa a dar frutos. O novo chefe da divisão Xbox prometeu escutar os fãs e, esta semana, surpreendeu toda a gente com o anúncio de uma Xbox One sem o Kinect incluído. Mais uma vez, para gáudio dos consumidores e desespero dos muitos haters por essa internet fora, Michael Pachter fez uma previsão acertada.

Não é segredo nenhum que, apesar das fortes vendas, a Xbox One não tem acompanhado a PlayStation 4 e a diferença entre as duas já ultrapassou os 3M de unidades. Estes números podem parecer insignificantes mas fazem toda a diferença: depois da vaga de early adopters estar satisfeita, começa a dos consumidores que optam pela máquina com maior representação no mercado.

A inclusão do Kinect na Xbox One sempre foi o elemento mais diferenciador entre as duas consolas e a principal causadora do preço elevado da One. Será que a Microsoft ainda vai a tempo de ganhar esta guerra ou os estragos provocados pelo Kinect já não vão a tempo de serem reparados?

Foi a inclusão do Kinect na Xbox One uma boa ideia?

Não, nem por isso. Contam-se pelos dedos de uma mão os títulos do Kinect que não são completas atrocidades remotamente jogáveis. De entre estes, só consigo recomendar a série Dance Central e só a quem gostar mesmo muito de jogos de música.

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O único jogo em condições para o Kinect.

Apesar disto, o Kinect foi um enorme sucesso comercial. Mesmo custando €150, já ultrapassou os 21 milhões de unidades vendidas(tanto quando a GameCube) e é o periférico mais bem sucedido de sempre. O Kinect pode não ser para mim nem para vocês mas os números não mentem: há por aí muito boa gente a divertir-se com ele e a recomenda-lo aos amigos. A Microsoft não ficou indiferente ao seu sucesso e decidiu incluir o periférico de raiz na sua nova consola. Isto implicou que a implementação do Kinect fosse bem mais que acessória mas também que a consola fosse €100 mais cara que a PlayStation 4.

Com a inclusão do Kinect, a Microsoft pretendia fazer o que a Nintendo também procurou com a pad da Wii U: que os jogos third party tivessem o acessório em mente quando estão a ser desenvolvidos, dando aos consumidores um incentivo extra para preferirem uma versão do jogo em vez de outra.

Infelizmente, numa indústria em que os custos não param de subir, é muito difícil convencer as editoras a despenderem mais tempo para incluir uma ou outra funcionalidade que só é possível numa determinada plataforma.

O Kinect na Xbox One tem-se resumido a comandos por voz para controlar o menu da consola e algumas partes de jogos que deviam ter sido relegadas para o bom velho comando. São raros aqueles que utilizam necessariamente o Kinect. A remoção do Kinect vai acabar por ditar o fim da moda do motion gaming. A Nintendo já se tinha descartado dela com o pad da Wii U e o Move da Sony anda a ter ainda menos apoio que a PlayStation Vita.

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Estes vão juntar-se ao 3D e às guitarras de plástico no paraíso dos video jogos.

A intenção foi boa mas, no final, acabou por prejudicar a Xbox One. Se a consola tivesse sido lançada ao mesmo preço que a PlayStation 4, a diferença entre as duas não seria agora tão grande.

Será que a Microsoft ainda consegue vencer esta corrida?

Além da diferença de €100 no preço, as vendas da Xbox One também não têm acompanhado as da PlayStation 4 porque a consola da Microsoft ainda só está à venda em 13 mercados, ao passo que a da Sony esgota stocks em mais de 40. Apesar de chegar a 26 novos países em Setembro(incluindo Portugal), é expectável que a consola venha a ter um impacto muito baixo nestes mercados onde, além do número reduzido de consumidores, a marca PlayStation tem uma presença muito forte e a Xbox sempre teve dificuldades em impor-se.

Qualquer português que frequente este site tem perfeita noção disso. Até à chegada da representação oficial da Nintendo a Portugal(lembram-se da Concentra?), a palavra PlayStation era sinónimo de consola e acredito que o cenário não seja muito diferente pela Europa fora.

No entanto, a nível global, a Microsoft tem boas hipóteses de dar a volta à coisa. Reviravoltas nesta indústria não são frequentes mas acontecem: ainda a geração passada, apesar de a muito custo, a PlayStation 3 acabou por vender mais do que a Xbox 360. Também a SNES, graças ao seu excelente catálogo, conseguiu ultrapassar as vendas da Mega Drive nos dois principais mercados da altura(EUA e Japão). Cá na Europa, Sonic era rei.

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Reviravoltas acontecem com exclusivos invejáveis.

Neste momento, apesar da diferença de $100, a PlayStation 4 leva uma vantagem muito pequena sobre a Xbox One no mercado norte-americano. É de esperar que, com esta descida de preço, a Xbox One salte para a liderança já no próximo mês. Titanfall tem provado ser o título must have da nova geração e a PlayStation 4 não tem nenhum exclusivo de peso preparado para lhe responder nos próximos meses.

Por cá, as vendas também irão certamente aumentar mas a consola da Microsoft vai continuar a ser a menos apelativa para os europeus. Apesar dos esforços de Phil Spencer, os principais trunfos multimédia da XBox One continuam direccionados para o público norte-americano e, como já referi, a cultura PlayStation tem um peso enorme entre os consumidores neste lado do atlântico. A aposta da Microsoft deve passar por bundles com FIFA, Titanfall e Call of Duty se pretende reduzir o gap entre a Xbox One e a PlayStation 4 na Europa.

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Na geração passada a Xbox 360 fez o impensável ao conquistar o mercado britânico. Basta seguirem a mesma receita.

No Japão, o sucesso de ambas as consolas vai ser muito reduzido. A PlayStation 4 anda a ter vendas miseráveis no território e a Xbox One nem sequer foi lá lançada. Ambas irão gozar de picos de vendas aqui e acolá com Final Fantasy XV ou um possível Lost Odyssey 2(por favor) mas, no geral, o mercado japonês tornou-se demasiado pequeno para ser relevante.

Isto é uma maratona, não é uma prova de velocidade”, e a “guerra das consolas” ainda agora começou.

E3 2014: a redenção

Depois de uma E3 2013 repleta de comandos por voz, televisão, DRM e sensores de movimentos, este ano vão ser precisos muitos jogos, especialmente exclusivos, para limpar a imagem desastrosa que Don Mattrick deixou da nova consola. Elogiado pelos principais concorrentes, Phil Spencer é o exacto oposto do agora CEO da Zynga e parece querer trazer a marca de volta às suas raízes hardcore.

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Um gajo porreiro.

Com a Nintendo a abdicar de uma apresentação oficial e a Sony a dar poucos sinais de vida, a Microsoft encontra-se na situação ideal para conquistar novamente os jogadores hardcore que já fugiram para a PlayStation 4. Se nos mostrarem que estão a aproveitar novamente as velhas IPs da Rare, Halo 5, Gears of War com jogabilidade renovada, Lost Odyssey 2, novas informações sobre Quantum Break e absolutamente nada sobre o Kinect, podem crer que em Setembro vamos receber em Portugal a Xbox One de braços e carteira abertos.

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Sobre o Autor

Joel Monteiro

Joel Monteiro

Colaborador

Amante de design de videojogos nos poucos tempos livres. Escreve quinzenalmente na Eurogamer Portugal sobre a indústria e criatividade.

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