O que é ser fanboy

E porque ninguém o deve ser.

A semana passada gostei de ver Phil Spencer criticar o ódio que existe nos fanboys desta indústria e pensei que deveria escrever sobre o assunto. Afinal de contas, devem existir poucas pessoas mais qualificadas do que eu para o fazer: fui acusado de ser fanboy da Sony quando disse que o preço do Xbox Live Gold não fazia sentido, fanboy da Microsoft quando disse que a Vita estava uma lástima e fanboy da Nintendo quando falei da sua filosofia de evolução. A julgar por alguns dos comentários, sou um enorme fanboy e um dos maus, visto apoiar tudo mas também dizer mal de tudo.

O que é ser fanboy?

Ser fanboy é ser leal. Extremamente leal. É ver aquilo que mais ninguém vê: uma marca cheia de virtudes e sem quaisquer defeitos. Uma marca que é o exacto oposto das concorrentes.

Os fanboys existem em todas as indústrias mas nesta são particularmente acérrimos. Xbots, Nintendrones, Sony Ponies, chamem-lhes o que quiserem. O pior fanboy que conheço até é jogador de PC. Está constantemente a falar dos "mais de 4.700 exclusivos do PC", "do 1080p ser possível no PC em 1999" e no facto de "as consolas atrasarem a indústria". Apesar disso, creio que não joga nada além de League of Legends. Ser fanboy é dar especial importância ao que passa ao lado da maioria das pessoas.

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Os fanboys podem ser celebrados como um fenómeno cultural, como os trekies, ou serem vistos apenas como uma irritação.

Às vezes é divertido ler comentários destes fãs mais acérrimos mas existem situações de puro ódio e irracionalidade que acabam por dar pena.

Boa parte da minha infância foi vivida durante o período da "primeira grande guerra das consolas": Sega vs Nintendo, uma das maiores rivalidades de sempre de qualquer indústria. Toda a Europa apoiou em força a Mega Drive. Já não se tratava de comprar a consola porque era a melhor mas simplesmente porque era a mais popular e porque podíamos trocar jogos na escola. Quase todos os miúdos tinham a consola da Sega mas havia sempre aquele que tinha o Super Mario Kart, do qual dizíamos mal mas que secretamente queríamos todos jogar. Suponho que esse miúdo também se roesse de inveja por causa do Sonic ou do Streets of Rage.

A rivalidade naqueles tempos era intensa mas acalmou nas gerações seguintes porque a Sony não deu hipótese à concorrência. Ainda conheci um ou outro fanático da Saturn, uma consola que nunca foi fácil de defender, mas era consenso geral que a PlayStation tinha o melhor catálogo.

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Não podemos ser todos amigos?

Durante a geração passada vivemos a "segunda grande guerra das consolas", um conflito mais "sangrento" marcado onde a figura do fanboy ganhou mais destaque do que antes.Tudo foi pretexto para conflito: Blu-ray vs HD-DVD, Cell vs Xenon, RAM unido ou dividido, Xbox Live vs PSN, etc.. Há uns anos atrás era o Emotion Engine e o Blast Processing. Na prática, a diferença entre as duas consolas foi mínima durante toda a geração. A Xbox 360 recebeu melhores exclusivos durante a primeira metade da geração mas a PlayStation 3 foi a vencedora da segunda metade.Nenhuma acabou por ser superior à outra mas é um assunto que vai ser discutido durante anos, quase como o famoso "qual a consola com a melhor versão do Aladino?"(obviamente que é a Mega Drive).

A realidade é que, tal como o que acontecia na minha escola em relação ao miúdo que tinha o Super Mario Kart, é o sentimento infantil da inveja quem está por trás da maioria dos comportamentos de um fanboy. É por ela que vão a correr ao metacritic dar 0s aos jogos exclusivos da concorrência e 10s aos da sua consola. É por ela que "O Titanfall só corre a 792p e nem sequer tem história", "O Mario continua igual ao que era em 1990", "O novo Infamous não passa dos 30fps" e "O PC tem mais de 4.700 exclusivos". É ela que dá trabalho aos moderadores quando o novo grande exclusivo leva um 8/10 ou um 9/10 porque merecia, claramente e sem sequer o terem jogado, um 11/10.

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O que nós nos roíamos por causa deste jogo que não podíamos jogar.

As situações mais tristes de que me lembro foram as petições de fãs da PlayStation 3 para que Devil May Cry 4 e Final Fantasy XIII não fossem lançados na Xbox 360 sob pena de não comprarem os mesmos e renegarem as empresas que os lançarem. Não querer que outros desfrutem do mesmo que nós é muito, muito triste e uma falha de carácter gritante.

De fanboy e louco todos temos um pouco

"Na maioria das vezes, os consumidores só têm possibilidade de comprar uma consola por geração e isto vai fazer com que os mais aguerridos acabem por ficar cegos em relação à concorrência de forma a conseguirem justificar a sua compra."

A verdade é que todos têm os seus favoritos e a maioria dos consumidores é levada pelo coração e não pela razão. Em moderação, isso não tem problema algum. Quantas pessoas preferem levar Super Bock apesar de a Sagres está mesmo ali ao lado com 50% de desconto? Ou quantas nem sequer aproximam a boca de uma pinga de Pepsi porque a Coca-Cola é "melhor"? A realidade é que a maioria não distingue uma da outra só pelo sabor apesar de dizer que o consegue fazer.

As pessoas identificam-se com as marcas e com o que elas representam e, na maioria das vezes, nem sequer querem saber se essa paixão é ou não justificada. Se a marca PlayStation fez companhia a alguém desde criança, essa pessoa dificilmente vai ponderar a compra de uma Xbox ou Wii U. O mais provável é que nem sequer olhe para o seu catálogo de jogos. Eu fiz isso com a PlayStation 2, quando a comprei no lançamento, apesar do catálogo da Dreamcast na altura ser muito superior. Já não consegui fazer o mesmo no lançamento com a PlayStation 3 porque me senti "traído" com o preço elevado e a falta de retro compatibilidade da consola. A razão falou mais alto.

Na maioria das vezes, os consumidores só têm possibilidade de comprar uma consola por geração e isto vai fazer com que os mais aguerridos acabem por ficar cegos em relação à concorrência de forma a conseguirem justificar a sua compra. Lembram-se quando a PlayStation 3 que custava €599 e não tinha praticamente nada de jeito para jogar conseguia, aos olhos de muitos, ser várias vezes superior à Xbox 360 com os seus Gears of War, Halo 3 e RROD? Ou como a XBox One já está por esta altura condenada, apesar de ser a segunda consola com maior velocidade de adesão da história dos videojogos? Este fenómeno é recorrente e vai continuar a sê-lo até ao dia em que exista apenas uma consola no mercado, o dia de São Nunca.

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Ainda existem 4 por vender? Está condenada.

Mesmo quando temos mais do que uma consola, também é quase inevitável gostarmos mais de uma. Já aqui confessei que a Xbox 360 foi a minha consola favorita da geração passada e que, apesar de jogar imenso na Nintendo 64, a PlayStation original era a consola que recomendava naquela altura. Qual a minha consola preferida de todos os tempos? É claro que é a GameCube, apesar de ter comprado uma PlayStation 2 no lançamento. Porquê? Olha, sei lá...porque tem grandes exclusivos, o melhor comando de todos os tempos, os discos são pequeninos, é roxa e parece-se com uma lancheira, com aquela pega. Viram o meu fanboyismo a vir ao de cima? A tentar justificar aquela que foi a consola menos vendida da sua geração com argumentos completamente ridículos e que nada têm que ver com os jogos em si?Pelo menos não disse mal da concorrência enquanto o fiz.

Os fanboys prejudicam a indústria?

Cá está ela, a questão para €100.000. Na minha sincera opinião? Sim, prejudicam mas não no sentido em que estão a pensar.

"Uma das principais características de um fanboy é o facto de ser totalmente alheio ao conceito de crítica construtiva, isto é, apontar o que está mal para que as coisas possam ser melhoradas."

Não acredito que muitos deixem de comprar uma consola porque têm a ideia que a sua comunidade é composta por gente completamente doida (se, por exemplo, pensam comprar uma PlayStation, aconselho vivamente evitarem os comentários do N4G.com). Também é possível que muitos jogadores já tenham sido vítimas de bullying por parte de fanboys mas deixo essa matéria para outro dia.

Onde acho que um fanboy prejudica a indústria é no mal que pode vir da sua opinião porque, apesar de serem poucos, são das pessoas mais activas e vocais na internet. Uma das principais características de um fanboy é o facto de ser totalmente alheio ao conceito de crítica construtiva, isto é, apontar o que está mal para que as coisas possam ser melhoradas. Defender que a Vita está de boa saúde e recomenda-se não é positivo para a consola. Ainda bem que a adoram mas se lhe colocarem paninhos quentes em cima em vez de exigirem à Sony uma mudança, vão continuar a receber apenas ports e a ver a portátil relegada a acessório da PlayStation 4. O mesmo serve para a Wii U. Se forem em massa dar 10s a jogos com falhas severas, vão transmitir a ideia aos developers de que está tudo bem e eles vão continuar a lançar produtos maus para toda a gente.

Se continuarem a dizer que a Square Enix está em topo de forma, nunca mais voltam a jogar um Final Fantasy offline digno desse nome.Se defenderem que ninguém é obrigado a comprar as microtransacções no vosso Gran Turismo, Forza ou Ryse, vão continuar a tê-las nos próximos anos.

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Demasiada condescendência por parte dos fãs elevou a Vita ao estatuto de acessório de luxo da PlayStation 4.

Os estúdios ouvem os jogadores e as vozes da crítica construtiva conseguem abafar as dos fanboys que tentam alhear-se da realidade. Olhem para o que aconteceu com o final de Mass Effect, a Auction House de Diablo III ou a mudança de atitude da Capcom para com DLC no disco ou o rumo da série Resident Evil.

O conselho que vos deixo é que não sejam fanboys e pensem pela vossa cabeça. Estamos aqui para jogar jogos e não especificações, estas empresas existem para nos entreter. Nenhuma faz de propósito mas nem sempre as coisas lhes saem como deve de ser e, nesses casos, devemos apontar-lhes o dedo e não fazer de conta que está tudo bem. Evitar crítica construtiva só porque gostamos de uma coisa vai perpetuar as falhas que todos conseguem ver mas que alguns não têm a coragem de admitir.

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Sobre o Autor

Joel Monteiro

Joel Monteiro

Colaborador

Amante de design de videojogos nos poucos tempos livres. Escreve quinzenalmente na Eurogamer Portugal sobre a indústria e criatividade.

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