inFamous: Second Son - Análise • Página 2

Rebelde em espírito, forte em personalidade.

O sistema de moralidade foi desde o início um dos pilares centrais em inFamous. Citando o tio de Peter Parker, "Com grandes poderes vêm grandes responsabilidades", e cabe sempre aos jogadores decidir o que fazer com as suas habilidades, usando-as para o bem ou para o mal. As decisões e ações do bem estão mais uma vez destacadas a azul e as do mal a vermelho e ultimamente afetam a jogabilidade na progressão da árvore de poderes. Há poderes e melhorias que estão acessíveis a qualquer um dos lados morais, mas há exclusivos para cada lado e que requerem que atinjam um certo nível de karma positivo ou negativo, sendo sempre preciso duas playthroughs para se conhecer o jogo na totalidade. A evolução de poderes continua a funcionar à base dos Blast Shards, que estão espalhados em grande quantidade pela cidade.

As escolhas morais esculpem o que falta definir da personagem, neste caso Delsin Rowe, que é um melhor candidato do que Cole para este efeito. Ainda jovem e cheio de vontade para curtir a vida, Delsin vê-se numa situação inesperada e encruzilhada. A vocês é deixada a decisão de utilizar os seus poderes para fins egoístas e vingativos, ou para fins justos e ajuda dos mais fracos. Mas num jogo deste tipo, não basta colocar decisões morais, é importante mostrar a realidade dura das consequências fazer o jogador sentir-se bem ou mal com o que acabou de fazer. Há momentos em que Second Son induz este efeito e transcende os seus antecessores, que apesar de serem construídos em redor de um sistema de escolhas, eram moralmente levianos.

Quando chega o momento de optar entre duas escolhas, foi criado um sistema tão simples mas capaz de causar uma dúvida imensa na decisão que vamos escolher. O ecrã fica basicamente dividido em duas partes, e cada uma das escolhas fica atribuída ao gatilho esquerdo e direito. Para avançar com a escolha, tem que ficar a carregar num dos gatilhos durante vários segundos. Não é algo imediato e aqueles segundos são tempo suficiente para ficarmos de pé atrás relativamente ao que vamos fazer.

Cronologicamente, Second Son tem lugar vários anos depois da descoberta da existência dos condutores, já depois da história de Cole. Para lidar com a "ameaça" (na verdade é mais medo) de pessoas com habilidades nunca antes vistas, o governo aprovou a criação da divisão DUP (Department of Unified Protection), que tem a responsabilidade de prender os condutores. Delsin será a cara de uma luta contra o sistema, combatendo a ideia de que os condutores são bio-terroristas. No topo da cadeia do DUP está Brooke Augustine, ela própria um condutor. A sua habilidade é emitir e controlar cimento e pedra.

É uma excelente vilã para este inFamous, contrastando com Delsin em idade e mentalidade. Brooke Augustine é uma personagem de ideias fixas, impossível de vergar e cujas ações fazem despertar um sentimento de revolta de tão desumanas que parecem. Delsin também é um excelente protagonista do qual gostamos logo, principalmente se têm um espírito rebelde. Logo no início do jogo encontrámo-lo a grafitar um placar. Pintar as paredes das cidades será uma mecânica usada ao longo do jogo para marcar território e para aterrorizar ou tranquilizar os habitantes de Seattle.

Augustine é o arquétipo do poder usado pelas forças do DUP. Os soldados desta divisão não são pessoas comuns, têm poderes especiais como os condutores, só que estes foram ganhos artificialmente e são iguais aos de Augustine (mas menos poderosos). O jogo peca por colocar como adversário os mesmos tipos de inimigos do princípio ao fim. Chega a um ponto que se torna cansativo. Mas, o desafio é constante e estes inimigos não são fáceis por atacarem em grande número. Se deixarem Delsin desprotegido durante alguns segundos, morrerá.

As personagens, até mesmo as secundárias, estão bem construídas e parecem credíveis, mas mereciam uma história amadurecida e melhor desenvolvida para participarem. Esta é uma história em linha recta grande parte do seu percurso, com a excepção das escolhas morais, que alteram ligeiramente o seu rumo, e os acontecimentos são previsíveis. O grande vilão, Augustine, é introduzido logo no início e o resto do jogo é passado a tentar derrotá-lo. Pelo meio Delsin conhece alguns condutores que o vão ajudar na sua missão emprestando-lhe os seus poderes únicos. A substituir Zeke como sidekick, está o irmão de Delsin, que tenta aconselhá-lo e controlá-lo o melhor possível, mas é difícil.

"Se por um lado o Sucker Punch arriscou ao escolher uma nova personagem para esta aventura, por outro jogou exageradamente pelo seguro na estrutura"

A apresentação e a forma como tudo se desenrola é demasiado familiar, demasiado convencional. Se por um lado o Sucker Punch arriscou ao escolher uma nova personagem para esta aventura, por outro jogou exageradamente pelo seguro na estrutura. Claro que a fórmula resulta, afinal os outros dois inFamous são jogos de sucesso, mas uma nova consola não pode unicamente providenciar gráficos mais bonitos, a criatividade não pode estagnar.

Terminada a história, encontram-se espalhadas pela cidade várias sidequests. A cidade foi tomada de assalto pelo DUP e cabe a Delsin conquistar cada um dos distritos das mãos inimigas. A cada sidequest completada, mais livre fica aquele distrito, como se fosse um confronto entre dois gangues para dominar um território. Quando o DUP só controla 30 porcento da área, podem subir ao placar de propaganda do DUP devidamente indicado no mapa, pintar um graffiti e telefonar ao DUP para gozar com a cara deles, desencadeando um confronto. As missões secundárias são simplórias, variando entre descobrir um agente do DUP infiltrado entre os cidadãos, destruir câmeras escondidas e encontrar ficheiros de áudio escondidos. A única razão para terminar as sidequests e tomar conta dos distritos é desbloquear novos casacos para Delsin, que na parte das costas têm desenhos diferentes.

Sendo este um jogo da Sony, podem esperar a habitual localização para língua nacional e um ator bem conhecido para dar voz a Delsin. É verdade que nada é melhor que as vozes originais (nesta caso as inglesas), mas a voz portuguesa para Delsin foi muito bem escolhida. Diogo Morgado fez um excelente trabalho na caracterização e a sincronização labial também está muito bem conseguida, o que torna jogar Second Son em português agradável. As vozes das outras personagens não estão más, mas o Oscar pertence com o devido mérito a Diogo Morgado pela sua prestação.

inFamous: Second Son é o jogo que a PlayStation 4 precisava. As expectativas foram correspondidas. Neste momento é o melhor exclusivo que podes comprar. Não chega a atingir o patamar da excelência, precisando de crescer na narrativa e na forma como por vezes apresenta e construir as decisões morais, mas tem uns gráficos divinais e sem igual, introduziu com sucesso uma personagem nova e carismática e dá continuidade respeitosamente ao legado da série. Os fãs, e qualquer outro jogador que goste de se divertir, vão ficar mais do que satisfeitos e contentes por acrescentar este título à sua prateleira.

8 /10

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Sobre o Autor

Jorge Loureiro

Jorge Loureiro

Editor

É o editor do Eurogamer Portugal e supervisiona todos os conteúdos publicados diariamente, mas faz um pouco de tudo, desde notícias, análises a vídeos para o nosso canal do Youtube. Gosta de experimentar todo o tipo de jogos, mas prefere acção, mundos abertos e jogos online com longa longevidade.

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