De fãs a fanáticos

Quando os limites para a opinião são ultrapassados.

A semana passada teve lugar um incidente que demonstra bem as consequências de um comportamento atroz que tem vindo a crescer na comunidade de jogadores.

Jennifer Hepler, uma escritora que trabalhou em Dragon Age II e se encontrava a trabalhar na 3ª parte da série, decidiu abandonar a Bioware após ter recebido de alguns jogadores ameaças de morte contra si e contra os seus filhos.

Jennifer ficou famosa por ter servido de bode expiatório para a mudança do sistema de combate de Dragon Age II(e que não agradou a jogadores e críticos) porque uma vez referiu que trabalhar no combate era a parte que menos gostava do seu trabalho. Desde então foi vítima de bullying por parte de gente que acha que ameaçar de morte crianças é um comportamento aceitável para o seu descontentamento em relação a um video jogo.

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Dragon Age II dividiu opiniões. De que lado está a vossa?

A escritora entretanto desmentiu que a sua saída se tenha devido a estes infelizes incidentes e que quer seguir a sua carreira como escritora fora da indústria dos video jogos mas o seu caso e(infelizmente) tantos outros levantam a questão: que legitimidade têm os jogadores de interferirem no trabalho e na vida de quem faz os jogos?

Efeito em massa:

No fatal mês de Março de 2012, foi lançado o muito aguardado Mass Effect 3, perante aclamação universal. A melhor trilogia desta geração chegava ao fim e a viagem foi excelente. Por cá, o jogo teve direito a um 9/10 e dele foi dito que:

"Mass Effect 3 é um final brilhante, épico e extremamente forte na série. Existem situações de pura beleza narrativa, principalmente nas últimas 10 horas de jogo. Pegando no sucesso de Mass Effect 2, a trilogia termina com chave de ouro. É um produto de topo que vale cada cêntimo gasto nele."

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Mass Effect 3 foi mesmo o fim do mundo.

Embora a sua nota no Metacritic sejam uns expressivos 93/100, nem toda a gente gostou do jogo, como é de esperar de praticamente qualquer outro produto que envolva criatividade. Uma minoria vocal queixou-se, essencialmente, da forma como foram escritos os vários finais e, escondida atrás dos seus monitores, decidiu fazer a vida negra aos envolvidos no jogo. As consequências seguiram-se.

No mês seguinte a Electronic Arts foi votada a pior empresa dos Estados Unidos da America, bem à frente de outras que contribuíram para a actual crise financeira e que arruinam vidas reais. Embora nunca tenham confirmado oficialmente, também os fundadores da BioWare abandonaram a empresa que construíram após meses a sofrer "às mãos" de fãs raivosos que não apreciaram o fruto do seu esforço.

Sim, ainda estamos a falar de um video jogo.

Os jogadores de Mass Effect 3 diziam-se "injustiçados" e lançaram a campanha "Retake Mass Effect" para exigir um melhor final para o jogo. Em menos de duas semanas, angariaram mais de $80.000 e o seu descontentamento doentio rapidamente se tornou em loucura colectiva. Apesar de não terem alterado o final, a BioWare lançou um epílogo para o complementar, provando que os ecos da opinião dos fãs, mesmo já fora da fase de desenvolvimento de um jogo, têm o poder de alterar as coisas.

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Quem disse que vozes de burro não conseguem chegar ao céu?

O que se passou com Mass Effect 3 foi uma autêntica falta de respeito para com a visão criativa da BioWare e algo que, por força do estado actual do meio, só poderia acontecer na indústria dos video jogos. Em mais nenhuma outra indústria criativa vemos algo de semelhante a acontecer. Por muito que adoremos uma série e a acompanhemos há alguns anos das nossas vidas, não é por o final nos desiludir que nos devemos sentir no direito de ordenar que um novo seja escrito e rodado.

Será isto uma consequência da internet dar voz e, sobretudo, anonimato a muito mais gente hoje em dia do que em qualquer outra altura na história? Será que o fim do mundo vai coincidir com o final da extremamente popular saga "A Song of Ice and Fire", de George R.R. Martin, porque uma minoria de "fãs" não se vai sentir satisfeita com o que vai ler?

Ouvir o feedback dos fãs e saber o que procuram e esperam de futuras entradas numa determinada série é saudável desde que feito de forma respeitosa. Dar ouvidos a esses mesmos fãs sob coacção moral e após o jogo ter sido lançado é um enorme erro que pode levar a que existam cada vez mais comportamentos abusivos por parte dos consumidores.

No Oriente e mais além:

Mas não é apenas no ocidente que existem jogadores completamente doentes e que acham quem podem exigir da indústria coisas a que não têm direito. Há uns anos atrás, o lendário Hideo Kojima foi pressionado, também com direito a ameaças de morte, por ter mostrado interesse em largar a série Metal Gear. Alguns dos seus "fãs" acharam que mais de 25 anos a trabalhar na mesma coisa ainda não era suficiente para o homem fazer uma pausa e abraçar novos projectos. O criador chegou mesmo a pensar abandonar a Konami, detentora da propriedade intelectual, fazendo com que o seu envolvimento na mesma já não dependesse inteiramente de si. Kojima sentiu-se pressionado e lá voltou a trabalhar em Metal Gear Solid mas não sei com que ânimo ou motivação.

"O lendário Hideo Kojima foi pressionado, também com direito a ameaças de morte, por ter mostrado interesse em largar a série Metal Gear. "

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Nem os grandes se safam. Uma vida inteira dedicada a uma série não é o suficiente para alguns 'fãs'.

Situações ridículas como esta muitas vezes vão além da própria criatividade, como tristemente aconteceu quando Final Fantasy XIII deixou de ser um exclusivo PlayStation 3 e foi anunciado para a Xbox 360. Apesar de a série nunca ter sido exclusiva de nenhuma marca específica e de até a Xbox 360 contar na altura com Final Fantasy XI, muitos fanboys da PlayStation viram a manobra como uma traição à Sony e acharam por bem ameaçar de morte Yoichi Wada, CEO da Square Enix que estava simplesmente a tentar fazer o seu trabalho. O "maldito" preferiu sustentar os seus empregados e olhar pelo futuro da empresa que tem nas mãos em vez de garantir que um jogo estaria ao alcance apenas de quem tinha uma consola específica. Patético.

Mas não é só da parte dos jogadores que existem situações de bullying, muitas vezes insuportáveis para as vítimas e com consequências reais.

Ainda está fresco na nossa memória o episódio que levou Phil Fish a cancelar FEZ 2 e a abandonar a indústria dos video jogos. Dessa vez, a gota de água não veio de parte dos jogadores mas sim de um profissional da indústria, Marcus Beer, o Annoyed Gamer, conhecido jornalista do Gametrailers.

Apesar de Fish sempre ter sido uma figura controversa, sempre o vi como um dos poucos que fala o que pensa. A sua famosa opinião sobre os jogos japoneses serem "uma porcaria" não está muito longe da realidade mas levaram a que tanto o autor quanto a obra se expusessem à raiva de "fãs" por toda a internet. No final, perdemos um bom profissional e, muito provavelmente, uma grande sequela de um grande jogo.

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Adeus FEZ 2. Mal te conhecemos.

Apesar de não sermos profissionais do ramo, não é difícil de compreender a enorme pressão a que está sujeito quem recebe feedback extremamente negativo por causa do seu trabalho. Já mais difícil é lidar com esse feedback quando este se traduz em ameaças de morte a nós próprios e aos nossos familiares.

Enquanto jogadores, não nos podemos esquecer que estamos apenas a falar de jogos e que, por muito que nos desagrade, não temos o direito de interferir no trabalho de quem os faz nem de exigir isto ou aquilo. Custa investir o nosso dinheiro e tempo em algo que acaba por nos desiludir mas existem barreiras que devem ser respeitadas.

Adorei a série Lost e acompanhei-a durante 6 anos. O final foi terrível. Posso ter ficado chateado durante uns dias mas nunca pensei em ameaçar ninguém.

Adoro Final Fantasy mas acredito que várias formas de tortura medievais sejam menos dolorosas do que jogar o XIII e o XIII-2. Custa ver aquilo em que se tornou a minha série favorita mas nunca me passou pela cabeça ameaçar este ou aquele funcionário da empresa. Prefiro que trabalhem sem medos e que dêem a volta à série.

Metal Gear Solid 2 desiludiu-me profundamente quando saiu mas o feedback dos jogadores fez com que Snake(mais ou menos...) voltasse no jogo seguinte.

A desilusão faz parte de qualquer indústria criativa e, enquanto jogadores, temos que lidar com isso e saber como dar o nosso feedback negativo de forma a que as pessoas que o recebam queiram continuar a trabalhar para nós.

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Sobre o Autor

Joel Monteiro

Joel Monteiro

Colaborador

Amante de design de videojogos nos poucos tempos livres. Escreve quinzenalmente na Eurogamer Portugal sobre a indústria e criatividade.

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