Muramasa: Rebirth - Análise

Momohime e Kisuke na jornada de uma Vita.

Muramasa: The Demon Blade foi um dos meus mais graves crimes enquanto jogador. Quando foi lançado na Nintendo Wii não o consegui jogar e fiquei sempre com um sabor amargo. Assim que foi anunciada esta nova versão portátil para a PlayStation Vita, de seu nome Muramasa: Rebirth, não tive qualquer hesitação, a compra da versão Norte Americana tornou-se obrigatória e eis que finalmente fiz as pazes comigo próprio. É simplesmente impossível não ficar encantado com o visual dos jogos do Vanillaware e no caso de Muramasa, o Japão Feudal que serve como palco para esta aventura é de espantar.

Muramasa é um jogo muito simples mas que enverga uma profundidade saudável que vai crescendo consoante jogamos e que toma conta de nós. Este jogo de ação side-scrolling combina visuais 2D de espantar com uma gameplay frenética que apenas é vítima do próprio jogo, mais especificamente pela longevidade pois quando o jogador começa a verdadeiramente conhecer Muramasa, quando começa a querer mais e a desejar aprender mais, o jogo termina. Ainda assim tenta compensar-nos com novos finais e níveis superiores de dificuldade.

Muramasa leva o jogador para o Japão Feudal, uma era carregada de mitologia e contos que podem facilmente ser moldados consoante a imaginação para criar enredos bizarros mas envolventes. Que o diga Muramasa que pega em duas histórias estranhas e tenta aos poucos fazer com que o jogador se sinta menos baralhado. Tudo é inicialmente confuso e aos poucos e poucos, a cada novo capítulo, ficamos com mais uma peça do quebra-cabeças para explicar o porquê dos acontecimentos. Não é propriamente o melhor elemento do jogo e obriga o jogador a pensar um pouco mas eventualmente tudo acaba por se encaixar.

Aqui temos dois personagens principais cujas histórias podemos seguir de forma independente. Kisuke é um fugitivo que perdeu a sua memória e o jogador fica mesmo a apanhar os cacos sem perceber nada do que se está a passar até o jogo ir a meio. Lentamente ficamos com a história explícita e as coisas deixam de ser tão estranhas. Pelo menos existe uma sensação de mistério e desejo por resolução. Já Momohime apresenta algo mais bizarro: o espírito de um espadachim toma conta do seu corpo e vê-se forçada a tentar ajudar para recuperar o controlo sobre si própria. Dá-nos momentos bem caricatos isso é certo.

Mais do que a história pouco comum, devo dizer que precisam de uma predisposição para o cenário aqui representando pois só assim o vosso encanto pelo jogo começará a florescer. Caso contrário ficam simplesmente com uma sensação de desajuste. Mas acreditando que não resistem à cultura Japonesa e à forma como o estúdiio Vanillaware molda tempos passados, Muramasa deve encaixar-se na perfeição nas vossas mãos. A forma como o estúdio interpreta lendas e cria personagens baseados em contos e criaturas mitológicas permite que o jogo contenha uma série de personagens bem caricatos e únicos.

Mas não é da sua história que Muramasa vive mas sim da sua gameplay e como dá o seu próprio toque a moldes clássicos consagrados. Descrito como um RPG de ação em side-scroll, temos aqui um jogo no qual existem ao todo 108 espadas sendo elas os verdadeiros protagonistas da experiência: aquele elemento principal que marca a gameplay e lhe dá autenticidade. Não só porque podemos criar novas, porque conferem nuances nos combates ou porque o jogador apenas consegue equipar e alternar entre três a qualquer momento, é mais pela gestão a que obrigam e como isso afeta a forma como jogamos e as demais mecânicas de jogo.

A jornada de Momohime e Kisuke poderia ser simplesmente um martelar incessante do botão de ataque, alternar com o botão de salto e fatiar ninjas e criaturas mitológicas sem dó, piedade ou diversão. Aqui o jogador é forçado a gerir os seus ataques com o uso da defesa mas esta está limitada à força da espada. Quer isto dizer que caso o jogador defenda excessivamente, a lâmina vai perdendo a sua força e quebra. Como são todas espadas demoníacas de Muramasa, elas regeneram mas no entretanto, enquanto esperamos, ficamos à mercê dos ataques dos adversários.

Temos que alternar cuidadosamente entre espadas para não as quebrar e o abuso da defesa é negado assegurando uma gameplay dinâmica mas com profundidade e alguma dose de estratégia. A recolha e procura de itens são duas formas de promover a exploração para aumentar a longevidade, pois precisamos destas ações para encontrar os elementos que permitem criar novas espadas mas ainda assim precisamos subir de nível para ter força para envergar uma espada. Não basta recorrer ao grinding desmedido, até porque os inimigos nos acompanham ao subir de nível e em Legend a dificuldade é relativamente baixa, aqui é preciso aprender a dominar a gameplay e a saber jogar melhor.

Isto cria toda uma experiência de jogo que se sente equilibrada, consistente e após umas horas de jogo, muito mais do que apelativa. Rapidamente aprendi que defender é algo normal mas que pode ditar a diferença em lutas mais acesas. Alguns segmentos vão forçar comportamentos diferentes e o pressionar do botão de ataque assegura sim combos furiosos que aplicam fortes danos mas quando estamos perante ataques dos inimigos, proteger é vital para a saúde. O jogo mostra o seu engenho quando nos diz que proteger também merece gestão. Onde Muramasa pode mostrar tendência para o cansaço é na sua estrutura repetitiva e no repetir de cenários. É um jogo bem direto cujas ações a executar acabam por ir dar sempre ao mesmo.

Muramasa chega ao ecrã OLED da PlayStation Vita para demonstrar todo o seu esplendor. Ver o jogo a correr no ecrã mais pequeno que pode ser transportado para qualquer lado é deslumbrante e o melhor elogio provavelmente será dizer que tem melhor aspeto e espanta ainda mais agora em 2013 na Vita do que em 2009 na Nintendo Wii. A mitologia Japonesa ganha vida em luxuosa arte 2D desenhada à mão e ocasionalmente ver Muramasa a correr parece muito melhor que o jogar. Como se o espectador estivesse perante um desenho animado que se move de forma bastante dinâmica e fluída.

Ver o Japão no período Genroku, por volta de 1700, renderizado de forma colorida, repleta de preciosa atenção ao detalhe e com animações vistosas é mesmo de espantar. Pena que muitos cenários sejam repetidos ao longo dos 30 locais diferentes que compõe o jogo e quebrem um pouco essa magia que consegue incutir no jogador. No entanto é inegável que Muramasa contém um estilo próprio e bem agradável, presumindo que temos um gosto pela cultura aqui representada.

A acompanhar os visuais temos o talento do estúdio Basiscape a cargo de Hitoshi Sakimoto. Este senhor conta no seu currículo com trabalhos em jogos como Final Fantasy Tactics, Tactics Advance e sequela, Final Fantasy XII, Odin Sphere, Valkyria Chronicles, Ogre Tactics e muitos outros mais. É um verdadeiro prazer poder ouvir mais um trabalho deste senhor e confesso que frequentemente recorri ao YouTube para ouvir temas deste jogo antes de o receber.

Com uns bons headphones a acompanhar a experiência, podem ter a certeza que este é mais um destaque altamente competente em Muramasa. A maioria dos elementos que compõe o jogo conseguem um entusiasmante brilhantismo que é típico dos produtos Japoneses. Estamos perante uma espécie de homenagem ao passado combinada com criatividade artística que encanta e uma vontade de colocar a gameplay em lugar de destaque. Mesmo que alguns elementos não tenham o mesmo brilho que outros, a experiência sente-se coesa mas não tanto quanto poderia, diga-se.

Ainda assim este é um produto distinto que ascende bem acima do interessante mas que precisa de algumas advertências para os menos familiarizados com o trabalho do Vanillaware. Os restantes, que provavelmente estão tão ansiosos quanto eu por Dragon's Crown, ou já o estão a jogar, sabem o que tem aqui e sabem que o tem que ter. É tão simples quanto isto.

Muramasa: Rebirth é um dos melhores jogos que tive o prazer de jogar na PlayStation Vita e apesar de não ter sido feito de raiz a pensar no sistema, encaixa na perfeição. Os seus visuais ganham ainda mais qualidade graças ao espantoso ecrã e a gameplay continua tão prazerosa quanto se poderia esperar de um produto do Vanillaware. A verdade é só uma, dificilmente encontram melhor companheiro para a vossa Vita quando estão fora de casa. Qualidade caseira em formato portátil como conseguem em poucos outros casos.

8 /10

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Sobre o Autor

Bruno Galvão

Bruno Galvão

Redator

O Bruno tem um gosto requintado. Para ele os videojogos são mais que um entretenimento e gosta de discutir sobre formas e arte. Para além disso consome tudo que seja Japonês, principalmente JRPG. Nós só agradecemos.

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