Como separar o Amazing de Spider-Man

Ou como o Homem-Aranha se porta na Wii U.

Há muito tempo que não pegava num jogo dedicado ao Homem-Aranha e tal tem uma explicação fácil: perdi qualquer vontade e mesmo perante uma mínima curiosidade, em caso de dúvida, fujo. Tem sido assim ao longo destes anos e por essa mesma razão deixei passar ao lado qualquer produto do estúdio Beenox mas à sua terceira incursão pelo universo do Homem-Aranha, tive finalmente a oportunidade de conhecer o seu trabalho e de regressar aos jogos do aranhiço tão famoso da banda desenha Norte Americana.

Desde Web of Shadows em 2008 que não pegava num jogo deste personagem e tudo porque nada parecia evoluir, nada parecia avançar as mecânicas de jogo, os designs e arquitectura das aventuras, e até a sensação de imersão no jogo. Os gráficos pareciam evoluir ligeiramente e as histórias até podiam entreter, como se o jogador tivesse perante uma banda desenhada interactiva, mas tudo parecia arcaico demais e preso no tempo, como se erros e limitações de gerações anteriores insistissem em surgir mesmo em plataformas como a Xbox 360 ou PlayStation 3.

A sensação com que ficava não era a de estar a jogar uma fórmula envolvente com mecânicas de jogo dinâmicas, inteligentes, desenhadas para oferecer uma experiência fluída e cheia de vida. A sensação que ficava era a de estar perante um jogo que cometia os mesmos erros de jogos de anteriores gerações e cujas mentes por detrás do produto pareciam não saber as soluções mas os mesmos problemas de há dez anos atrás. Parecia que estava a jogar o mesmo jogo mas gerado num motor gráfico actual tentar disfarçar o seu fraco interesse com brilho, cor e fato mais detalhado.

The Amazing Spider-Man: Ultimate Edition é a versão que chegou este mês à Nintendo Wii U e lá voltei eu a viajar de teia em teia por Nova Iorque de azul e vermelho. Confesso que fiquei bastante contente com o filme que chegou em Junho de 2012 aos cinemas e jogar um ano depois um jogo nele inspirado à partida não parecia assim tão interessante. Claro que o facto de estarmos perante uma sequela fictícia ajuda um pouco a suavizar o fardo de um ano depois estarmos na Wii U com um jogo que já tivemos nas restantes plataformas. Este é um jogo claramente dedicado a todos os donos da mais recente consola caseira que procuram algo diferente e procuram entreter-se com a sua nova consola que parece passar por uma escassez de jogos (Monster Hunter 3 Ultimate e Need for Speed: Most Wanted estão também aí prontos para contrariar isso).

As primeiras impressões que o jogo deixa é a de ser um produto claramente acima de tudo que já foi feito nesta geração a respeito deste personagem. Visuais que espantam ocasionalmente, sequências de acção envolventes, um enredo bem ao estilo do filme e ainda mecânicas de jogo que tentam mostrar como o personagem pode representar algo diferente no género de acção e aventura. Tudo bastante interessante apelativo à partida para todos os que procuram um jogo decente e merecedor do nome do personagem.

Claro que por esta altura estamos todos à espera do "Arkham Asylum/City" do Homem-Aranha, tal pode demorar ou nem sequer acontecer, mas podemos continuar a sonhar. Desejar um jogo ao estilo do que o Rocksteady Studios fez para Batman não é pedir uma cópia mas sim pedir um trabalho inspirado, que compreende verdadeiramente o personagem e como o adaptar para um videojogo pensando nas fraquezas e forças dos sistemas que o vão receber. A série Arkham sente-se inteligente e arrebatadora mesmo para além dos fãs do personagem e é precisamente isso que pedia para este personagem da Marvel Comics.

O que se pode dizer deste ASM é que o Beenox aparentemente bem tentou aprender com o Rocksteady e uma das partes mais importantes do personagem ganhou todo um novo destaque, falo dos combates. Pensem no sistema "Free-Flow" da série Arkham e tem uma ideia do que podem encontrar aqui. Fiquei bastante contente com o sistema de combate e apesar do GamePad não ser propriamente ergonómico e intuitivo para este tipo de jogos, fiquei agradado com os combates (elemento tão importante dos jogos do personagem). Pena a IA não ser tão desafiante quanto na série Arkham mas isso já seria pedir demais.

Contra-ataques automáticos após um desvio que interrompeu uma sequência de ataques é um exemplo de como o esquema está mais facilitado para permitir que qualquer um o domine desde logo. Consoante vamos desbloqueando melhorias também vamos ter a possibilidade de adquirir novos poderes e golpes e isto ajuda o sistema a ficar ainda mais dinâmicos: temos até golpes de assinatura nos quais Peter Parker executa movimentos bem ao estilo do que vemos nos comics e filmes.

O jogo divide ainda a sua fase de acção nos níveis em locais específicos com uma componente de exploração e aventura pela cidade de Nova Iorque, num mundo aberto no qual vamos tendo missões secundárias e que podemos percorrer livremente. Esta componente ganhou imensa fama em anteriores gerações e aqui está presente com todos os elementos que ao longo destes anos se tornaram característicos e imperativos. Devo dizer que foi aqui que tive alguns dos melhores momentos passados com o jogo. Incute mesmo uma sensação diferente no jogo e deixa-nos respirar à vontade, gerir a aventura a nosso ritmo (contraste das missões tão lineares). Perde um pouco o foco como consequência mas confere maior liberdade e variedade ao jogador.

A unir estas duas componentes diferentes temos mecânicas de jogo que podem ser descritas como das mais inteligentes e interessantes alguma vez inseridas num jogo inspirado no personagem, nomeadamente o Web Rush. Com esta nova mecânica de jogo, o ASM entra numa espécie de movimento em câmara lenta enquanto o jogo passa também para uma perspectiva a simular a primeira pessoa e podemos ver possíveis pontos para o Homem-Aranha se transportar de forma automática a incrível velocidade (o jogador pode interromper o movimento a meio se quiser).

Seja na exploração livre da cidade ou nos combates, esta mecânica é bem divertida e é um dos elementos que melhor o define. Outras funcionalidades como o Web Retreat e Web Shoot mais parecem uma tentativa de conferir ao sistema de combate consagrado em Arkham um toque Homem-Aranha e conseguem mas não tem o impacto que o Web Rush tem na experiência como um todo.

Visualmente o jogo tem as suas forças. Apesar da cidade de Nova Iorque ser pálida em detalhe e fraca em interactividade, mais valia o Beenox ter colocado uma zona limite da qual o Homem-Aranha não podia descer mais porque todo o foco foi colocado nas viagens de teia em teia pelos céus da cidade. Aqui o jogo ganha um efeito interessante e consegue mesmo envolver o jogador, desde que este faça esse esforço. Pelo menos eu fiz e consegui que o jogo conquistasse mais alguns pontos (não é propriamente bom quando se cede aos caprichos de um jogo para contornar falhas mas é o que qualquer desejoso fã faz).

O exagerado aliasing e horrível screen-tear afectam a qualidade visual do jogo mas tirando isso temos um motor gráfico bem agradável que ocasionalmente nos dá momentos de espantar (como as lutas contra robôs Oscorp gigantes) mas mais vezes nos vai mostrar a qualidade básica que pode ter. Percorrer as ruas de Manhattan com Connors às costas perante a total passividades dos cidadãos é um enorme "quebra-imersão" mas são momentos que podemos evitar (até porque aqui a qualidade visual é mesmo fraca).

Agora quando estamos no ar, os efeitos inseridos para oferecer uma sensação de liberdade, velocidade e imersão são mesmo agradáveis. É onde o Homem-Aranha se sente melhor e é onde o jogador se vai sentir melhor. Até porque aqui vai procurar as páginas dos livros de banda desenhada que estão espalhadas pela cidade (existem muitos coleccionáveis a encontrar em cada nível). No geral é um jogo competente que ocasionalmente dá sinais de que poderia ter sido mais do que isso.

Uma das funcionalidades mais interessantes da Wii U é a capacidade de correr os jogos no ecrã do comando GamePad e permitir que libertem a TV para outra pessoa. ASM permite isto e podem jogar todo o jogo no GamePad, perdendo no processo definição, qualidade gráfica e cor mas de resto tem uma experiência completamente igual. Quando correm o jogo na TV principal podem usar o ecrã táctil do comando para gerir inventários, ler correio electrónico, adquirir melhorias e melhorar golpes. É uma maneira mais prática, directa e rápida de gerir processos que noutros formatos podem ser menos intuitivos.

Pena que todos os elementos do jogo não sejam propriamente maus mas também não sejam bons como desejaríamos. No todo podem encarar este como um jogo mediano que teria beneficiado imenso com mais trabalho, empenho e melhor execução das suas ideias. A sua personalidade, profundidade e consequente diversão teriam crescido imenso se o parâmetro de qualidade tivesse sido mais exigente. O jogador acaba por torcer um pouco o nariz e fica a pensar: "se os gráficos fossem um pouco melhores...se a jogabilidade e mecânicas tivessem mais profundidade e mais diversão...se soubessem ter implementado melhor a componente de aventura e exploração pela cidade para evitar momentos de embaraço que até na era 128-bits deixavam a desejar...se tivessem criado uma história inteligente com personagens fortes e aliciantes..." tudo seria muito melhor.

No final do dia The Amazing Spider-Man não quer ganhar quaisquer prémios e esta versão Nintendo Wii U que chega um ano depois mais parece representar uma tentativa de colmatar uma escassez actual na plataforma e uma forma do estúdio se familiarizar com a plataforma e com as suas funcionalidades únicas. Jogar no ecrã do GamePad é um grande bónus que pode ter mais impacto do que inicialmente se pensa, e se forem fãs do personagem tem aqui uma proposta bem aliciante. No entanto fica aqui um conselho, esperem por uma promoção.

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Sobre o Autor

Bruno Galvão

Bruno Galvão

Redator

O Bruno tem um gosto requintado. Para ele os videojogos são mais que um entretenimento e gosta de discutir sobre formas e arte. Para além disso consome tudo que seja Japonês, principalmente JRPG. Nós só agradecemos.

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