Adeus John Riccitiello

Como a imagem da EA ficou de rastos.

A grande notícia no mundo dos videojogos desta semana foi a saída de John Riccitiello dos comandos da Electronic Arts, a segunda maior editora do mundo.

As reacções foram imediatamente sentidas: a internet abriu champanhe para celebrar e até na bolsa de valores as acções da Electronic Arts chegaram a subir 7%!

Por trás da saída de Riccitiello está o incumprimento de objectivos financeiros mas a verdade é que a imagem com que a EA ficou durante o “reinado” deste CEO é, muito provavelmente, a pior que algum dia teve e isso é razão suficiente para afastar qualquer um dos comandos de uma empresa.

O que é que terá levado tanta gente a odiar a EA e a festejar a saída de Riccitiello?

Olha para o que digo, não olhes para o que faço:

Riccitiello chegou à EA em 2007 cheio de boas intenções. Chegou a defender que os jogos actuais eram demasiado caros(sei bem o quão estranho isto soa mas é verdade) e a lamentar o encerramento de alguns dos muitos estúdios que a EA fechou, tais como as lendárias Bullfrog e Westwood.

Algures pelo caminho, as coisas mudaram drasticamente. Em vez de jogos mais baratos passamos a ter modelos de negócio que seriam impensáveis há uns anos atrás e que, em vez de baixarem o preço aos jogos, monetizam o valor que já pagamos na loja por eles. O exemplo mais recente é o de Dead Space 3 com as suas micro transacções, um modelo adaptado dos jogos mobile que, por norma, são grátis e financiados por pequenas compras realizadas pelo utilizador.

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Hoje em dia, os jogos não se esgotam nos €59,99/69,99 que o consumidor deixa na loja. Enquanto houver carteira também há mais jogo.

Quanto aos estúdios, continuam a fechar e a ser ameaçados que podem fechar se os seus objectivos não forem cumpridos. Exemplo disso é, mais uma vez, Dead Space 3 que, supostamente, teria que vender 5 milhões de cópias para a série continuar, números absurdos que a série nunca conseguiu alcançar.

O jogador é quem mais ordena:

A relação dos jogadores mais “vocais” com as grandes editoras nunca foi a mais famosa. São normalmente acusadas de explorarem os seus trabalhadores, de só verem dinheiro à frente e reciclarem o mesmo conteúdo ano após ano. Até há bem pouco tempo, a EA estava relativamente afastada deste estereótipo e o grande vilão das editoras era a Activison.

A EA conseguia ser uma espécie de porto seguro e fazia por manter essa reputação. Foi com uma filosofia de “somos grandes mas continuamos a trabalhar para nos mantermos grandes” que a EA entrou na actual geração. Material fresco não faltou aos jogadores: Mirror's Edge, Dead Space, The Saboteur, Dragon Age, Skate, Crysis, Rock Band, Army of Two e o spin-off de Battlefield, Bad Comapny foram as principais novas IPs de grane qualidade que a EA nos deu esta geração.

Alguns destes títulos foram muito bem sucedidos enquanto outros,como Mirror's Edge ou Skate, chegaram como autênticas lufadas de ar fresco e marcos de inovação na jogabilidade.

No entanto, nem tudo são rosas. Apesar de ser um bom jogo, The Saboteur não vendeu o esperado e isso levou ao encerramento da Pandemic, o estúdio responsável por bastantes títulos de êxito, entre os quais as séries Mercenaries e Star Wars Battlefront. O estúdio esteve uns meros dois anos nas mãos da Electronic Arts e, apesar de ter produzido dois títulos de êxito(Mercenaries 2 e Lord of the Rings: Conquest), as vendas moderadas de The Saboteur não foram o suficiente para o manter vivo.

O caso Bioware:

Provavelmente, um dos assuntos que mais controvérsia levantou em torno da EA foi uma aquisição e não um encerramento de um estúdio: a Bioware. Desde cedo se temeu que a sombra da EA interrompesse o percurso, praticamente brilhante, da Bioware, tal como aconteceu com a Rare depois de ter sido adquirida pela Microsoft. Coincidência ou não, isso aconteceu.

O primeiro sinal de que algo estava mal chegou com Dragon Age II. O primeiro jogo da série foi universalmente aclamado, uma prenda para todos aqueles com saudades de Baldur's Gate e Neverwinter Nights. Foi um sucesso comercial mas a sua sequela levantou sérias duvidas sobre a nova direcção criativa que levava a Bioware sob a alçada da EA. Boa parte dos fãs do original ficaram desiludidos com o combate simplificado e a história. Os dedos foram apontados à editora do jogo, acusando a EA de ter apressado o desenvolvimento do título. Apesar de tudo, Dragon Age II não foi nada ao pé da tempestade que se avizinhava.

Seguiu-se Star Wars: The Old Republic, o jogo mais caro caro de todos os tempos e que não conseguiu ser o WoW-killer que a EA tanto queria. Apesar de ter tido uma boa reacção inicial, o jogo foi perdendo subscritores até adoptar um modelo freemium(pode ser jogado sem custo mas os jogadores que não pagam não têm acesso a tudo). Apesar de não estar dentro do mundo dos MMOs, imagino que, dado o orçamento de $200 milhões e a recepção algo morna, The Old Republic sempre foi uma pedra no sapato de Ricittiello e uma despesa difícil de justificar junto dos investidores.

A gota de água aconteceu com Mass Effect 3, o capítulo que encerra aquela que considero ser a melhor série desta geração. Dizer que Mass Effect 3 foi mal recebido pelos fãs é ser generoso. O final da trilogia foi altamente criticado e levou a petições online para mudar o final do jogo que angariaram dezenas de milhares de dólares. A história em torno de Mass Effect 3 culminou com a EA a ser eleita a pior empresa norte-americana, um título um exagerado mas que demonstra bem a revolta dos fiéis da série.

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A saga de Shepard chegou ao fim mas não ao fim que todos gostariam.

Meses depois, Ray Muzyka e Greg Zeschuk deixaram a empresa que fundaram e, apesar de não constar da explicação oficial, terá sido a enorme pressão exercida pelos fãs após o lançamento de Mass Effect 3 o catalisador do descontentamento dos senhores da Bioware.

Origin:

Não podemos falar da passagem de John Ricittiello pela EA sem falar no Origin, o serviço de distribuição digital que a empresa lançou há uns anos atrás.

Apesar de contar com 40 milhões de utilizadores, o serviço Origin foi muito mal recebido pela comunidade de jogadores de PC. Pela primeira vez, os jogadores de PC tiveram que lidar com algo que os jogadores de consolas sempre tiveram que aturar: os títulos exclusivos de cada plataforma.

"Considero o Origin uma das melhoras coisas que a EA fez nos últimos tempos. "

Isto não caiu bem junto dos devotos do Steam, um serviço que, ironicamente, foi igualmente mal recebido quando foi lançado. Apesar de boa parte do alarido ser completamente infundada e não passar de fanboyismo pro-Valve, a verdade é que o Origin não conseguiu, ainda, estar à altura do seu concorrente, falhando em áreas tão básicas quanto o serviço de apoio ao cliente.

No entanto, considero o Origin uma das melhores coisas que a EA fez nos últimos tempos. Com concorrência, todos saem a ganhar e, ao contrário do que acontece com as consolas onde os exclusivos estão à distância de centenas de euros, basta um download grátis para que os jogadores de PC possam deitar as mãos aos títulos exclusivos da EA.

“Feliz” ano novo:

A EA entrou em 2013 com uma imagem bastante fragilizada, muito graças à controvérsia em torno de Mass Effect 3.

As micro transacções de Dead Space 3 não ajudaram mas foi com o lançamento do novo Sim City que as coisas azedaram. O jogo foi um autentico fiasco junto da crítica: não por ser um mau jogo mas por ser praticamente injogável após o lançamento graças à obrigatoriedade de estar ligado à internet. O mesmo já tinha acontecido com Diablo III, e danificado a imagem da Blizzard mas, ainda assim, a EA achou por bem arriscar com esta medida extrema de DRM.

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Gameplay do novo Sim City.

Não foi apenas isto que levou ao afastamento de Riccitiello dos comandos da empresa mas foi, sem dúvida, a palha que dobrou as costas do camelo.

E agora?

Acho que nos últimos anos o grande problema da EA tem sido a sua enorme obsessão com a Activision, a sua maior concorrente.

Se repararem vão ver que boa parte do que a EA tem feito é uma resposta directa ao sucesso alcançado pela Activison:

  • Rock Band nunca conseguiu ter o mesmo sucesso que Guitar Hero
  • Battlefield 3 e o anedótico Medal of Honor nunca foram o suficiente para destronar Call of Duty
  • Skate foi um bom jogo mas Tony Hawk sempre vendeu mais
  • Como já disse antes, The Old Republic era para ter sido o WoW-killer

Eu cresci com vários títulos da EA e sempre admirei a empresa pelo seu contributo histórico para esta indústria mas também consigo ver que o seu percurso mais recente tem sido um desastre junto dos consumidores e, por isso, acho que Riccitiello não deixa saudades.

A quem quer que venha a sentar-se no seu lugar(fala-se em Peter Moore), eu desejo a maior das sortes e espero que consiga afastar-se de todas as más práticas levadas a cabo pelo recente executivo, esquecer a Activision e assumir uma identidade própria da EA. Começar por ressuscitar a EA Big seria o suficiente para ganhar uns pontos meus.

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Sobre o Autor

Joel Monteiro

Joel Monteiro

Colaborador

Amante de design de videojogos nos poucos tempos livres. Escreve quinzenalmente na Eurogamer Portugal sobre a indústria e criatividade.

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