Dontnod: "Devemos deixar de pensar em videojogos como se fossem carros."

Entrevista exclusiva sobre Remember Me, o jogo sensação da gamescom.

Remember Me é sem dúvida a grande surpresa vinda da gamescom 2012. Mais que um novo videojogo e nova propriedade intelectual, é um vislumbre daquilo que podemos esperar de um novo estúdio, com mentes novas, jovens e com o desejo de trazer algo novo para a indústria. Remember Me pretende ser mais que um jogo de ação, mais que um jogo de tiros e mortes sem nexo.

Na gamescom tive a oportunidade de conversar com Jean-Maxime Moris, a mente criativa de Remember Me, que partilhou a sua opinião sobre a visão que tem para o jogo, as inspirações, a problemática com a Sony, e ainda um pouco da nova geração.

Jean-Maxime Moris é um entusiasta. Falar sobre videojogos com alguém que respira cada processo criativo é um enorme prazer. Aliás, são estas entrevistas que nos trazem mais um pouco de oxigénio e forças para aguentar horas e horas de apresentações nos diversos eventos. O olhar atento do RP da Capcom não foi o suficiente para impedir-nos de receber informações interessantes de Jean-Maxime Moris.

Em primeiro lugar Jean-Maxime Moris esclareceu a questão da exclusividade que Remember Me tinha com a Sony, para a PlayStation 3. Na verdade o jogo não era o Remember Me, como nome, mas uma nova propriedade intelectual, que veio por fim a se transformar no projeto atual. O estúdio francês Dontnod começou com cinco funcionários (há cinco anos), e debaixo da alçada da Sony. Mas a visão que Jean-Maxime Moris tinha para o jogo não correspondia à visão da Sony. Jean-Maxime Moris menciona também que determinados objetivos que a Sony tinha em mente não foram atingidos, colocando a PI na gaveta.

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Jean-Maxime Moris e Nilin.

"Mas acabou por ser algo de bom. Temos o jogo em produção na Capcom desde há dois anos, e estamos extremamente contentes com a relação com a Capcom", esclarece Jean-Maxime Moris.

O assunto saltou rapidamente para o novo jogo e da personagem principal, Nilin e o nome do estúdio Dontnod. Como já tinha referido na antevisão, ambos os nomes podem-se ler ao contrário, tendo o mesmo significado. Para além de confirmar que não é coincidência, Jean-Maxime Moris afirma que é uma demonstração da visão do jogo e do estúdio. "Tudo pode ser lido de trás para a frente no mundo, e haverão mais personagens que terão esta particularidade", comenta Jean-Maxime Moris.

A demonstração do jogo estava a correr numa Xbox 360 e as duas demos apresentadas estavam a correr em versões diferentes de produção. Ficou esclarecido que a demo do Memories Remix estava a correr numa versão mais antiga, com baixo frame-rate e qualidade visual inferior. A demo com a perseguição sobre Nilin é a versão do jogo mais atual, demonstrando todo o poder do motor de jogo Unreal Engine.

Sobre inspirações, Jean-Maxime Moris afirma (um pouco a brincar) que o filme Inception é que copiou Remember Me, pois o jogo já estava em produção quando foi lançado. Mas por outro lado, reconhece que Memento é um dos filmes que funcionou como inspiração, que por coincidência são do mesmo realizador, Christopher Nolan. Por outro lado, Jean-Maxime Moris comentou que foi fácil "vender" Remember Me às editoras após a estreia de Inception, pois antes as editoras diziam "As pessoas não irão compreender o conceito", mas depois tudo foi mais fácil.

Uma mecânica de jogabilidade que inclui alterar a mente/memórias de personagens poderá criar graves problemas de enredo. Isto acontece em muitos filmes, onde por exemplo quando se mexe com o passado, provocando grandes buracos nos enredos. No caso de Remember Me, não existe alteração do futuro, mas sim a memória de cada pessoa. O resultado poderá ser o mesmo, como por exemplo na demo mostrada, em que o estúdio teve o cuidado de não colocar a mulher do oficial na mesma sala quando a memória é alterada. Ela chega depois do suicídio. No fundo o enredo levará em conta estes buracos, onde podemos apenas alterar a memoria de determinadas pessoas, sempre dentro de um contexto. O jogo não será uma Sandbox, mas sim existe uma história para contar, com limites no enredo.

"Se o Remix fosse totalmente aberto, seria difícil ter qualquer sentido. Por isso o que iremos fazer é focar-nos mais na emoção e na narrativa. Penso que a demo Memories Remix demonstra este poder de alterarmos as memórias. Temos que levar em consideração todos os detalhes, para que tudo faça sentido e não existam paradoxos. Cada linha de diálogo, cada objeto, cada câmara ou personagem foi testado cinquenta vezes para que tudo faça sentido", acrescenta Jean-Maxime Moris.

Jean-Maxime Moris tentou desmistificar a ideia de Remember Me ser um jogo mais negro. Na verdade considera que é um jogo real, que mexe com os cinzas da sociedade. O que é certo e errado? São conceitos que o jogo aborda, mas que não existe uma resposta direta, como também não existe nas sociedades. Jean-Maxime Moris afirma que é um jogo "que chocará de uma forma positiva. O que viste no vídeo, é algo extremamente questionável (a morte do oficial), e por isso iremos ter muitos cinzentos. Não são personagens que vês muitas vezes".

Nesta altura Jean-Maxime Moris fala sobre os jogos em que o protagonista é uma máquina de matar, comentando "Tens heróis que vão por aí e matam centenas de pessoas e depois riem-se. Mas o cenário em volta do jogo não faz perguntas, não diz 'Notaste, realmente notaste que mataste milhares de pessoas? Mais que qualquer outro serial killer do mundo'?"

"Tens heróis que vão por aí e matam centenas de pessoas e depois riem-se. Mas o cenário em volta do jogo não faz perguntas, não diz 'Notaste, realmente notaste que mataste milhares de pessoas? Mais que qualquer outro serial killer do mundo'? - Jean-Maxime Moris"

Referi o exemplo de Uncharted e Jean-Maxime Moris riu-se dizendo que não mencionou nomes e que eu é que coloquei o nome. Afirma também que gosta do jogo e não quer criticar os jogos. "O que quero dizer é que com este jogo iremos fazer as coisas de forma mais madura, levantar perguntas sobre como vivemos, a questão das memórias. É também sobre a questão de partilha de memórias, de atualmente enviarmos para internet imagens e outras coisas e andarmos com isto e aquilo (apontando para o iPhone e tablets), e que todos nós queremos ser amigos de todos e transmitimos tudo pelo twitter e não nos apercebemos sobre o enorme poder que estamos a dar a estas companhias. Não iremos dizer que isto é mau, mas sim levantar perguntas, porque as redes sociais também têm coisas boas, como as pessoas estarem em contato e perderem um pouco da sua solidão", acrescenta Jean-Maxime Moris.

Remember Me terá lugar numa Neo-Paris em 2084, onde a cidade está completamente alterada, mas mantendo o seu espírito e monumentos mais conhecidos, como a Torre Eiffel. Nas demos apresentadas o ambiente era de noite, mas ficou prometido que iremos poder visitar outros locais da cidade e em diversas alturas do dia e tempo. Mas não iremos sair da cidade de Neo-Paris.

O jogo terá diversas camadas. A ideia de "um sonho dentro de um sonho" estará dentro do jogo. Levantei a questão de Nilin estar a viver dentro de uma memória controlada por outra pessoa poderosa. "É a primeira vez que alguém me pergunta isso", comenta Jean-Maxime Moris a rir-se, acrescentado "Sim, algo que se viu em Inception, de um sonho dentro de um sonho, podemos esperar este tipo de camadas. Uma memória dentro de uma memória? Mas também na forma de combate e nas bases do design do jogo. Olhas para algo superficial e depois vais entrando e entrando e acabas com uma enorme profundidade. O Memories Remix terá um grande papel neste respeito".

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Hunting Glove em conjunto com o Spammer formam a poderosa arma de Nilin.

Nilin consegue entrar nas memórias das pessoas devido a um poder, ainda não revelado como um todo. Mas para controlar esse poder ela tem uma luva de "caça" ou de memórias em conjunto com o Spammer na frente. Todas as pessoas estão a transmitir as memórias por wireless devido ao sensor colocado nas suas costas. É assim uma onda de informações que este dispositivo junta e pode ser usado para as enviar para os inimigos e fazer estragos nas suas mentes, bem como abrir portas provocando curtos circuitos, e destruir escudos, e outros usos que serão revelados mais tarde.

Sobre Nilin, a personagem principal, o estúdio reconhece que a escolha recaiu sobre uma mulher pois insere-se melhor na história que têm para contar, dentro deste mundo Cyberpunk. Nilin é uma mulher que pouco ainda se sabe, nem porque razão está a cumprir com estas missões e saiu recentemente da prisão.

Sobre a razão de toda a humanidade estar debaixo desta cooperação Memoreyes, Jean-Maxime Moris foi esquivo em responder. Os cidadãos de Neo-Paris (cidade onde nasceu o Sensation Engines) querem estar debaixo desta tecnologia. Jean-Maxime Moris afirma que aderir ao Sensation Engines é como comprar uma TV, comprar um smartphone, aderir ao Facebook, e todos estão dispostos a fazer isso. Aliás, este é um dos grandes temas de Remember Me. Jean-Maxime Moris afirma que o próximo passo para o controlo das populações não será através dos governos, mas sim pelas pessoas que são donos de informações que nós próprios fazemos upload. Mas as pessoas parecem estar felizes com isso, no jogo.

"Devemos deixar de pensar em videojogos como se fossem carros. É algo mais sobre contar histórias, em termos uma jogabilidade porreira, imersiva, ter prazer e muitas outras coisas. É no fundo sobre a experiência e não sobre quem tem a máquina mais poderosa. - Jean-Maxime Moris."

Ainda mais sobre o trocadilho de frases, chamei atenção para um outdoor num dos enormes prédios no trailer, que é o lema da cooperação Memoreyes, "We will not forget you". A visão de Jean-Maxime Moris é que esta frase pode ser positiva ou não, tudo depende da forma que é dita. O mesmo acontece com Remember Me. Pode ser vista como uma frase de amor, de carinho, de alguém a pedir para que se lembrem dele. Mas, por outro lado, pode ser também algo do tipo uma mensagem de alguém que nos quer mal. Esta dualidade de critérios estará constantemente no jogo.

Sobre a nova geração de consolas, Jean-Maxime Moris acha que é ainda muito cedo falarem sobre o que têm em mente, mas que está constantemente atento aos progressos. Esclarece que Remember Me é para esta geração e não representa uma ligação para a próxima geração. Jean-Maxime Moris afirma que prefere forcar-se na criatividade e que acha interessante a cena indie e que esta indústria não deverá ser sobre tecnologia. "Devemos deixar de pensar em videojogos como se fossem carros. É algo mais sobre contar histórias, em termos uma jogabilidade porreira, imersiva, ter prazer e muitas outras coisas. É no fundo sobre a experiência e não sobre quem tem a máquina mais poderosa", comenta Jean-Maxime Moris.

Voltando às mecânicas de Remember Me, as armas não fazem parte do mundo de Neo-Paris. Foram proibidas e apenas usadas em ocasiões especiais e por forças do governo. Por esta razão o jogo focar-se-á mais nos combates e ataques corpo-a-corpo. As lutas têm um estilo bem próprio, fazendo lembrar os jogos Batman da Rocksteady. Dentro dos combos teremos ataques finais, que serão feitos pela Nilin sempre de forma contextualizada, dentro de um específico momento e direção.

Existem poderes especiais que são acedidos por intermédio de um menu em roda de escolhas, já conhecido em outros jogos, como em Mass Effect. No gameplay mostrado, Nilin usa um destes poderes, colocando a ação em câmara lenta e atacando diversos inimigos ao mesmo tempo.

Remember Me foi mostrado na gamescom 2012, e será já lançado em maio de 2013, para a Xbox 360 e PS3. O estúdio refere que o anúncio foi apenas feito agora pois existem muitos jogos a serem lançados e por isso acham que é mais fácil fazer decisões desta forma.

Por último, Jean-Maxime Moris pediu-me para agradecer aos leitores da Eurogamer Portugal sobre o apoio em comentários que têm dado ao jogo e que partilham do mesmo entusiasmo sobre Remember Me. Fica dado o agradecimento.

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Sobre o Autor

Jorge Soares

Jorge Soares

EG.pt Master of Puppets

Sempre ocupado e cheio de trabalho, é ele quem comanda e gere a Eurogamer Portugal. Queixa-se que raramente arranja tempo para jogar, mas quando está mesmo interessado num jogo, lá consegue arranjar uns minutos. Tem mau perder e arranja sempre alguma desculpa para a sua derrota, mas no fundo, é o que todos fazemos.

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