Quando temos no género jogos como Gears of War, por exemplo, é de esperar que quando um estúdio o aborda já o faça com pelo menos um determinado nível de ambição. ORC não parece ter essa desejada ambição e falha completamente em conquistar para si qualquer tipo de personalidade ou ambiente. Tendo em conta que o trabalho já estava por si facilitado, ao pegar num universo tão rico, é incrível que a Slant Six não consiga oferecer uma história que não seja algo mais do que banal, oca e sem qualquer interesse, até mesmo para os mais fanáticos da série. O mínimo envolvimento com a história de RE2 oferece alguns momentos interessantes mas nada mais de bom se pode dizer aqui.

Quanto ao grupo de mercenários, seria de esperar maior personalidade, personagens que pudessem conquistar o seu espaço no universo da série e até mesmo Hunk, a mítica figura que tanta curiosidade despertou ao longo dos anos, não conquista nenhum interesse. São personagens ocos e banais sem qualquer ponta de curiosidade a despertar e a interação entre o grupo sente-se simplesmente inexistente. Pior fica ainda quando nos atiram com lutas contra bosses, momentos que se deveriam sentir como expoentes de intensidade e dramatismo mas que aqui são escusados, mal realizados e até frustrantes. Imaginem uma figura mítica como Tyrant ou Nemesis para enfrentar e facilmente pensariam em dezenas de situações de grande impacto. A Slant Six não as conseguiu imaginar e as que nos dá são tão desinteressantes que quase parecem insultuosas aos próprios personagens e universo.

Aqui também entram as mecânicas de gameplay e a forma como controlamos os personagens. Para um jogo de ação ORC apresenta decisões e escolhas de design simplesmente incompreensíveis. Enquanto os movimentos padrão são o que seria de esperar, a resposta do comando falha muito mais do que deveria e algumas ações como ressuscitar um colega tornam-se irritantes porque continuamos sempre a apanhar armas, por exemplo. Por vezes até apanhar um item ou munições (incrivelmente espalhadas por todo o lado) é uma tarefa árdua quando deveria ser fluída. Na verdade nem deveria ser notada e o facto de a notarmos é mau sinal, quanto mais por motivos desagradáveis.

O sistema de cobertura apresenta vários problemas na sua implementação, que na ideia da Slant Six seria de algo fluído mas que resulta em algo estranho com uma resposta instável. Apesar de os controlos cumprirem para a maioria das ações, como disparar, atirar granadas ou trocar de arma, a ausência de um botão para sprint por exemplo ganha um enorme impacto para um jogo que pretende ser intenso e dramático. Imaginem um enorme William Birkin a correr atrás de vocês, a música a bombear dramatismo, e o vosso personagem a mover-se de forma ligeira, quase despreocupada, face a uma iminente e séria ameaça. Tudo se sente ridículo e certamente não era esse o desejo do estúdio. Para sermos mesmo mauzinhos ainda chamaríamos a atenção para todo o incompreensível comportamento dos nossos aliados em alguns destes momentos.

Os problemas com o jogo estendem-se ainda à sua estrutura em si, corredores estreitos com uma progressão que não consegue evitar a sensação de sempre em frente que tentam ser disfarçados com ambientes e cenários citadinos. Quando conseguimos passar pela maioria dos adversários sem os enfrentar, a sensação de uma experiência banal fica ainda mais saliente. Não temos um aproveitar dos momentos e pontos históricos da cidade presentes em Resident Evil 2, não temos qualquer sensação de atmosfera e ambiente, na verdade ORC parece estar completamente atordoado e anestesiado, não invoca para si algo no qual o jogador possa sentir uma sensação de imersão, por mais remota que seja.

Tudo isto é bastante problemático porque ORC sente-se como um jogo que na sua essência pode oferecer uma experiência relativamente divertida, especialmente para os dedicados fãs da série que não vão querer acreditar que não se vão divertir com mais um jogo da sua adorada série, mas não deveria forçar o jogador a empenhar-se em gostar do jogo. ORC deveria ser algo prazeroso e aqui é o próprio jogador que constantemente tem que pedir a si próprio para continuar a jogar, para esperar e ver o que vem a seguir na vã esperança que algo de mágico aconteça e o jogo melhore como que da noite para o dia. Existem momentos nos quais vamos mesmo sentir diversão e o jogo nos consegue cativar mas são enganadores e breves.

Caso a campanha o comece a irritar mais do que devia, ou caso não consiga sentir qualquer apelo pelo "desafio" que oferece, podemos passar para o modo Versus no qual temos o modo multijogador competitivo. Existem duas equipas em confronto, as forças da Umbrella contra as Spec Ops do governo, em cenários repletos de zombies e vindos diretamente da campanha principal. É uma alternativa agradável para os persistentes mas que apenas tem qualquer valor para os que conseguirem sentir qualquer ligação com o jogo. É um bónus e uma adição mais do que bem-vinda mas de que forma alguma reverte a sensação que o jogo nos transmite como um todo.

Tecnicamente ORC é também em si um produto banal. A qualidade visual parecia ser um dado adquirido ao longo das imagens e vídeos que nos chegavam antes do lançamento mas perante o produto final não deixamos de sentir que também aqui o jogo falha. Não é algo que vos vai deixar boquiabertos ou a rir enquanto procuram mais uma grave falha nos cenários mas é um jogo que simplesmente falha em impressionar. Estando envolvido num cenário tão rico e de enorme potencial é desapontante que não tenha conseguido um melhor ambiente e uma melhor qualidade visual. Alguns momentos poderiam ter beneficiado disto e talvez o seu impacto fosse maior. Na verdade banal e medíocre talvez sejam as palavras que mais facilmente atribuímos a ORC, desde a sua gameplay e mecânicas de jogo, aos seus visuais e banda sonora, que falha em conquistar o jogador e ao invés de colocar intensidade nos devidos momentos se sente mais como desadequada.

Resident Evil: Operation Raccoon City parece um conjunto de ideias interessantes e bem-vindas inseridas num popular género e série mas que não tiveram a devida realização. Elementos na gameplay como os atributos especiais dos diferentes personagens, como Vector que pode ficar invisível ou Bertha que é a médica da equipa, poderiam ter grande impacto na gameplay mas sentem-se quase inconsequentes. Pelo outro lado, os ataques dos zombies que nos podem deixar infetados poderia ser uma mecânica de interesse mas que mais parece uma mera curiosidade. A experiência cooperativa a 4 torna-se essencial para não sentirem na pele falta de interesse pelo jogo, algo que não deveria acontecer e mesmo assim ORC apenas vos vai manter cativados por breves horas.

Este novo produto da Slant Six tinha tudo para ser um sucesso, mas não o consegue ser. Ideias boas e interessantes falham em cativar e falham na sua implementação especialmente quando aliadas a erros e más decisões que afetam a gameplay e o consequente desfrutar que o jogador tem com o jogo. Num universo tão rico e com cartas dadas não conseguiu tirar partido da sua própria personalidade e o seu ambiente sente-se tão fraco que parece insultuoso ao nome Resident Evil. Operation Raccoon City poderia e deveria ter sido muito mas mesmo muito mais do que isto. Por baixo da banalidade existe algo que parece brilhar em tons dourados mas é tão difícil de ver que pode passar despercebido mas mesmo assim nos deixam a pensar numa sequela completamente segura de si.

5 /10

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Sobre o Autor

Bruno Galvão

Bruno Galvão

Redator

O Bruno tem um gosto requintado. Para ele os videojogos são mais que um entretenimento e gosta de discutir sobre formas e arte. Para além disso consome tudo que seja Japonês, principalmente JRPG. Nós só agradecemos.