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Afinal, o que se passa com a Ubisoft?

A editora entrou em declínio.

A Ubisoft, a companhia por detrás de êxitos como Assassin's Creed, Rainbow Six, e Far Cry, está a passar por dificuldades. Parece surreal que uma das maiores editoras de videojogos tenha chegado a este estado, mas se olharmos para o percurso da editora nos últimos anos, percebemos como se enfiou nesta alhada.

O ponto de situação é o seguinte: a companhia apertou os cintos e cancelou vários jogos na esperança de reduzir os custos em $200 milhões. Os seus jogos mais recentes, como Mario + Rabbids Sparks of Hope e Just Dance 2023 não venderam tanto como esperado.

Na bolsa, as suas ações estão em queda livre desde Setembro de 2022. Em Agosto do ano passado, uma ação da Ubisoft chegou a valer mais de $46. Ontem a bolsa fechou com cada ação da Ubisoft a valer pouco mais de $19. No desespero, a Ubisoft tentou apalpar o mercado em busca de ser adquirida ou de fazer uma fusão, o que não correu bem. A editora está numa situação delicada, apesar de ter jogos promissores na agenda para 2023 e 2024.

Quando começou o declínio da Ubisoft?

O declínio da Ubisoft começou em 2020, quando os relatos de assédio sexual começaram a vir a público. No ano seguinte, vários funcionários importantes começaram a sair da companhia, o que atrasou os projetos em desenvolvimento. Um dos casos mais graves é Skull and Bones, que foi adiado várias vezes e, alegadamente, em 2021 a Ubisoft já tinha investido mais de $120 milhões no desenvolvimento.

A Ubisoft lançou, ao longo dos últimos anos, jogos de grande sucesso. Em Outubro de 2022, anunciou que Assassin's Creed Valhalla tinha chegado a mais de 20 milhões de jogadores. Far Cry 5 foi o maior sucesso na história da editora, com mais de 25 milhões vendidas. Far Cry 6 bateu recordes da série na primeira semana, ao gerar $310 milhões em receitas. Mas, também temos que pesar os falhanços da editora, que não têm sido poucos devido a uma procura incessante para ter um jogo que rivalize com o sucesso de Fortnite, Call of Duty, e derivados.

A procura pela "Next Big Thing"

Os jogos como serviço são extremamente apelativos para as editoras porque podem tornar-se numa enorme fonte de receitas durante múltiplos anos. Vejam League of Legends, World of Warcraft, Call of Duty, Fortnite, Apex Legends, Pokémon Go, entre outros. A Ubisoft tem procurado ter um jogo destes no seu catálogo, mas ainda não encontrou a fórmula mágica e já falhou várias vezes. Hyper Scape foi a tentativa da editora de entrar e singrar no género dos Battle Royale. O jogo acabou por ser encerrado em Abril de 2022. Em maio do mesmo ano, a Ubisoft voltou a dar uma tacada nos jogos como serviço com Roller Champions. A bola ficou longe do buraco.

A próxima tentativa será XDefiant, um jogo de tiros em arena que começou como parte do universo Tom Clancy's. Não quero ser profeta da desgraça, mas num mercado tão saturado em que a atenção dos jogadores está centrada noutros jogos populares, é difícil imaginar um cenário em que este novo jogo se torne um sucesso a longo prazo. Em Portugal temos o hábito de dizer que quem não arrisca, não petisca. A Ubisoft tem arriscado... de uma forma desmesurada. Todos os projetos falhados e grandes investimentos dos últimos anos fizeram danos no equilíbrio financeiro da companhia.

O problema no método da Ubisoft de fazer jogos

Não joguei tudo o que a Ubisoft lançou nos últimos anos, mas joguei uma grande parte. Um dos trunfos da Ubisoft é o seu batalhão de estúdios espalhado pelos quatro cantos do mundo, o que lhe permite agilizar o processo de desenvolvimento em jogos que, normalmente, demorariam mais tempo a ficarem prontos. Quando a equipa de um estúdio vai dormir, outra equipa num fuso horário diferente continua o trabalho. É sempre a andar. E ainda há o reaproveitamento de assets de um projeto para outro. Numa questão de poucos anos, a Ubisoft conseguiu assim lançar vários jogos em mundo aberto de enorme escala.

Assassin's Creed Valhalla foi desenvolvido por 17 estúdios.

O problema deste método é que reduz a margem para criatividade e acaba por tornar os jogos semelhantes. Nunca tiveste uma sensação de Déjà vu em diferentes jogos da Ubisoft? Eu já, mais do que uma vez. Não acontece em todos os jogos, mas alguns parecem ter sido feitos para cumprir uma checklist pré-estabelecida. Por norma, os jogos com mais sucesso são aqueles que rompem o molde de alguma forma, ou pelo menos, trazem uma novidade relevante. Não se consegue fazer isto com o método da Ubisoft. Não tenho memória de um jogo mau desta editora, mas também não consigo lembrar-me de um que seja excecional.

A Ubisoft vai entrar em falência?

Neste momento, ainda é cedo para dizer. Foram ativadas medidas de contingência (isto é, de controlo de despesas). Como havia dito no início do artigo, a editora tem uma lista de jogos promissores para os próximos tempos, com potencial para estabilizar as suas finanças. Entre as suas equipas, há imenso talento. Para sair desta situação e evitar um regresso, a Ubisoft precisa de apostar mais na qualidade (e não tanto na quantidade) e de analisar melhor os projetos nos quais investe.

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Jorge Loureiro

Editor

É o editor do Eurogamer Portugal e supervisiona todos os conteúdos publicados diariamente, mas faz um pouco de tudo, desde notícias, análises a vídeos para o nosso canal do Youtube. Gosta de experimentar todo o tipo de jogos, mas prefere acção, mundos abertos e jogos online com longa longevidade.

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