Heavy Rain

É do céu que ela cai.

Versão testada: PlayStation 3

A morte e sofrimento humano é um tema que muitos preferem nem abordar. É algo intrínseco do ser humano, mas com o qual ainda não sabemos viver, principalmente até que ponto somos suficientemente fortes para aguentar a morte ou sofrimento. E se esse sofrimento e morte for de alguém que realmente amamos? Até onde iremos nós por alguém que amamos?

Poderia resumir Heavy Rain nesta pequena introdução à análise. É um jogo de emoções, de sentimentos, de revolta, de vingança e principalmente de decisões. Existem jogos que pouco ou nada nos transmitem em relação às consequências dos nossos actos. Entrar num edifício e disparar a torto e direito é algo recorrente, e a tentativa de transmitir algum sentimento ou emoção a esses momentos são frustrados pela falta de personalidade e nossa identificação com as personagens. Numa indústria que consome cada vez mais acção "Hollywoodesca" em termos de impacto visual, pegar em Heavy Rain é quase como um travão a fundo, e pensar, "Alto lá, que isto aqui é diferente".

Poder explicar o conceito por detrás de Heavy Rain é algo complicado. Sabemos o quão difícil é explicar sentimentos e emoções. Não porque é um jogo difícil, com uma curva de aprendizagem muito alta, demasiado violento, ou extremamente mau ao ponto de nos cegar. Nada disso. Simplesmente porque ainda não me decidi sobre que local da prateleira o irei colocar. É Heavy Rain um filme? É simplesmente um videojogo? É um videojogo parecido com um filme? É um filme interactivo, onde apenas somos partícipes em decisões chave? Depois de diversas horas a jogar e a pensar sobre esta questão, penso que cada um de nós dará a resposta, principalmente pela forma como o iremos abordar. Para mim, penso que seja uma obra de arte, independentemente da prateleira sobre a qual o irei colocar.

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A vida era bela. Mas tudo mudou.

Heavy Rain, traz-nos um enredo extremamente adulto, muito interessante e com momentos brilhantes. Posso comparar Heavy Rain a um SEVEN a nível cinematográfico. Vejo nele algo de Memento, de SAW, ou mesmo até algo de O Fugitivo. É indiscutível a relação muito próxima que Heavy Rain tem com a sétima arte. Foi beber o que de bom existe, quer a nível de enquadramentos, uso de guarda roupa, a sonoplastia e até mesmo as deixas e enredo.

Como muitos de vocês já devem ter visto ou no mínimo lido, em Heavy Rain jogamos com quatro personagens distintas. São elas Ethan Mars um arquitecto, Norman Jayden detective do FBI, Scott Shelby ex-polícia e agora detective privado, e Madison Paige, jornalista. Podíamos colocar neste quadrado, mais uma personagem, nós, os jogadores, que lhes damos vida e tomamos as decisões por todas elas. David Cage, escritor e director de Heavy Rain, sempre defendeu a estória, a sua estória a todo o custo. E realmente apenas jogando todo o jogo que se compreende que o que é mais importante em todo o jogo, é mesmo a sua estória.

O jogo começa com a vida pacata de Ethan Mars. A vida parece correr-lhe bem. Mulher bonita, bom emprego, dois filhos saudáveis, boa casa. Tudo bonito, brilhante e solarengo. Que mais poderia querer um homem? Mas a vida prega-nos sempre uma partida, e aprendemos da pior maneira que nem sempre o mundo é belo para nós. Um dos dois filhos de Mars morre num acidente. Mars numa tentativa de salvar o filho é também atropelado, e embora não tenha morrido, fica em coma. Este pequeno prólogo, serve para além de nos habituarmos aos comandos e forma de jogar, também como contraste visual de dois mundos. Um antes e um depois do acidente. Ethan Mars após sair de coma, dois anos depois do acidente, entra num estado depressivo profundo, com sentimentos de culpa recalcados, o que levaram a separar-se da mulher e viver sozinho, partilhando a custódia do seu segundo filho. O dia bonito e solarengo dá lugar a uma constante chuva e humidade, que de tanto ver e ouvir quase que a sentia após tantas horas de jogo.

Mas as coisas ainda iriam piorar, e o que até então parecia já insuportável, o segundo filho de Ethan Mars, Shaun, desaparece de forma misteriosa. Um assassino em série tem assolado a região com as mortes de rapazes, todos da idade de Shaun. Rotulado de The Origami Killer, devido ao seu modus operandi, todos começam a pensar que Shaun terá sido a sua vítima mais recente. Ethan Mars é na verdade o centro de todo o jogo, quase como o pilar central, onde todas as outras personagens giram à volta.

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