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Será que merecemos The Last Guardian?

Há um ano foi publicado um dos jogos mais memoráveis e inovadores.

O jogo esteve praticamente 10 anos em desenvolvimento e nalguns momentos chegou-se mesmo a temer o cancelamento.

Cumpre-se neste dia um ano desde o lançamento de The Last Guardian, na Europa. Produzido pela mesma equipa que desenvolveu Ico (2001, PS2) e Shadow of the Colossus (2005, PS2) e dirigido pela mesma pessoa, o japonês Fumito Ueda, diga-se em abono da verdade ser ele o grande responsável desta trilogia. Assistimos à concretização de um projecto deveras ambicioso e um dos mais arriscados conceitos, não sendo por acaso que o jogo esteve praticamente 10 anos em desenvolvimento e nalguns momentos chegou-se mesmo a temer o cancelamento.

Felizmente, The Last Guardian chegou até nós no frio de Dezembro de 2016, também porque a Sony fez muito por isso, é justo dizer-lo, em levar até ao fim tudo aquilo que Ueda havia pensado para esta entrada que saindo na PS4 começou por ser desenvolvida um ano após o lançamento da PS3. Não podemos esquecer o apoio e determinação de Shuhei Yoshida, presidente dos Sony Worldwide Studios, especialmente nos momentos mais delicados, quando o jogo parecia resvalar para um marasmo do qual seria incapaz de se libertar.

Um projecto da dimensão de The Last Guardian, cujo conceito assenta na relação entre um humano e um animal, partindo para uma estrutura de puzzles e plataformas, com todas as dificuldades inerentes à inteligência artificial, bem como as dimensões do cenário, é uma das mais arriscadas produções. Num tempo marcado por conceitos que se equivalem e por uma menor propensão para avançar com novas ideias e conceitos, Ueda sabe quanto lhe custou manter-se firme no propósito e na ideia em conceber uma aventura inesquecível, mantendo-se fiel a si mesmo e ao legado que o levou até ali.

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Ueda transmite nas suas obras um sentido de maravilha e misterioso.

A produção não chegou ao final sem obliterar os sinais desse mesmo risco que a equipa enfrentou em quase 10 anos. Recebendo o apoio da Sony Studios, procurando lutar contra o tempo e enquanto procuravam recuperar do atraso, enfrentaram ainda outra dificuldade, as limitações da actual tecnologia e recursos ainda insuficientes para voos mais corajosos. De algum modo porque alguns produtores não querendo arriscar em projectos não validados por editoras mais apostadas em renovar o que é popular, seguro e prático, acrescentando um número ou subtítulo à série, não só condicionam ao insucesso muitas ideias com grande potencial como nem sequer possibilitam o desenvolvimento das ferramentas.

"Um ano decorrido e ainda permanece como uma aventura ímpar e sublime"

The Last Guardian foi, apesar das suas falhas, o meu jogo favorito do ano passado. Um ano decorrido e ainda permanece como uma aventura ímpar e sublime num universo no qual se inscrevem magníficos jogos e produções, mas definitivamente com menor dose de risco e mais seguras numa base há muito em evolução. Enquanto que muitos dos grandes jogos que tivemos em 2017 derivam de êxitos passados criados com bases sólidas, The Last Guardian operou como um "reset", muito diferente do que havia sido Ico e Shadow of the Colossus, embora sejam visíveis as ligações e influências. A ambição que norteou as produções anteriores é a mesma, mas a dimensão da ideia em The Last Guardian ultrapassou imensos limites e isso expôs as fragilidades da produção no actual contexto.

Não obstante, o resultado é particularmente impactante. Mesmo com as suas falhas, a grandiosidade desta aventura manifesta-se nos grandes e nos pequenos detalhes. Na magnitude dos cenários, na forma como nos relacionamos com Trico, a personagem "mitológica" que nos acompanha e a qual guiamos entre obstáculos, resolvendo puzzles e interagindo com outros elementos do cenário. Por vezes em momentos tranquilos, outras vezes em combate. Há de tudo em The Last Guardian. Em formato videojogo, a ideia talvez não seja única, mas das poucas tentativas operadas é a que vai mais longe e claramente a que melhor alcança os objectivos a que se propõe. Por isso é que este jogo me marcou tanto. Não sei se é melhor que Ico ou Shadow of the Colossus, é um comparativo que não me suscita interesse (são três jogos inesquecíveis), mas as singularidades daquela aventura não encontram semelhante.

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É no dorso de Trico que nos apercebemos da sua dimensão gigantesca.

O que me leva à seguinte questão: será que merecemos The Last Guardian? Há pouco tempo no meu feed do Twitter vi publicado um um gif no qual vemos o rapaz a afagar o nariz de Trico (é uma acção contemplada no quadro de interacção entre as personagens), que sente e demonstra ternura pelo afecto. Captar isto em videojogo é único, mas estaremos realmente preparados para uma aventura desta magnitude e afectuosidade, que é também uma consequência da ligação entre o rapaz e a criatura colossal? Só espero que este não seja realmente o The Last Guardian. Eu guardo muito optimismo por esta indústria e por isso é que tenho ocupado muito do meu tempo a dissecar e conhecer os seus meandros há mais de dez anos. Ter acontecido a história entre o rapaz e Trico deixou-me feliz, poder jogá-la sempre que quiser leva-me a acreditar mais no futuro, em produtores que se mantêm firmes nas suas ideias e conceitos inovadores, enquanto são apoiados por editoras que podendo perder alguns recursos contribuem para um mundo melhor. The Last Guardian foi uma conquista, façamos por merecê-la.

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