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Need for Speed Payback - Análise

Em contramão.

A ligação entre a história e certas missões, num cruzamento eficaz, constitui o melhor de Payback que parece regredir noutros elementos.

Depois de um "reboot" com Need For Speed, a Electronic Arts regressa com novo episódio da série, novamente a cargo do estúdio Ghost. Levou dois anos a ser produzido, o mesmo tempo de desenvolvimento do jogo anterior. Na altura foi uma decisão sensata por parte da editora, no sentido de permitir um refrescamento da série e aliviar o peso provocado pelo ritmo anual, muitas vezes com pouca margem de manobra e resultados um tanto aquém do esperado. Durante alguns anos, a EA promoveu uma alternância entre vários estúdios ligados à franquia, mas depois de Rivals, pela mão da Criterion, o estúdio Ghost passou a assumir o leme da produção.

É compreensível o maior tempo de produção requisitado pelo estúdio no sentido de dar sequência às corridas em mundo aberto. O anterior Need For Speed projectou uma boa base e de um modo geral, no quadro das experiências arcade, mercê a habitual espectaculosidade, produziu um interessante resultado, sobretudo ao permitir diferentes estilos de condução. Desta vez o estúdio Ghost retomou praticamente o mesmo formato e introduziu mais alguns elementos, como a transição completa do dia para a noite e diferentes estilos de corridas, algo mais vincado que o jogo anterior. Mas, desde a apresentação na passada E3, que o foco está virado para a história, através de cenas cinematográficas que a dada altura interrompem a acção e tentam criar um efeito de maior autenticidade.

No seguimento das experiências anteriores, este rumo é não só previsível como aceitável, sabendo-se da popularidade que alguns filmes como Fast & Furious gozam nos EUA e um pouco por todo o mundo. São evidentes algumas aproximações, embora em Need For Speed não haja toda a parte de acção protagonizada por máquinas de guerra. Segue por isso a estrutura clássica por que sempre se notabilizou e cuja raiz, no actual quadro, remonta a Burnout Paradise, o jogo da Criterion que cimentou a experiência automobilística num mundo aberto. O registo continua por isso a moldar as recentes evoluções de NFS e essa é também a maior dificuldade do estúdio Ghost, em colocar-se perante um desafio que visa a apresentação de um jogo capaz de tirar proveito da actual geração.

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A componente cinematográfica é elevada e relaciona-se com as missões.

O contacto com NFS Payback diz-nos que ainda há muito por fazer e que só um mundo aberto algures entre Las Vegas e Los Angeles não chega para fazer desta a versão definitiva da série, mesmo que haja uma história para seguir e a primeira hora dê sinais algo inovadores na forma como pode ser aproveitada. É interessante o cruzamento entre história e curtas missões, alternando entre pilotos e carros. O ritmo é alucinante, amparado por um sentido de espectacularidade. Vemos ultrapassagens letais, capotamos, incursões para fora da estrada, embates terríveis e velocidades estonteantes a partir de alguns dos carros mais rápidos.

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A história está longe de nos enriquecer, embora cumpra o propósito das casas de entretenimento. Basicamente um grupo de amigos entrou em ruptura por causa de uma organização de controla a cidade chamada The House. Mas não é por muito tempo que o grupo estará separado. Em breve voltam a unir-se, na esperança de terminar com os planos dessa organização. Para tal, terão que participar em múltiplas corridas, vencê-las e chegar mais perto dos chefes, de forma a levar de vencida os objectivos sobre a mesa. Na verdade, as missões que se cruzam com a história são as melhores, mesmo que a actuação dos protagonistas e diálogos, muitos a ocorrer enquanto conduzimos não sejam propriamente do mais gratificante. Com os olhos na estrada e a concentração necessária para não deixar fugir os rivais, o sistema de alta voz do telemóvel pode até tornar-se incomodativo.

O que acontece é que estas missões, integradas na história, não abundam. Embora aconteçam com alguma frequência logo ao começo, projectando diferentes âmbitos de condução, depressa mergulhamos naquele mundo aberto, cumprindo objectivos regulares. Fica o aperitivo lançado. Corridas todo-o-terreno, drifts, fugas à polícia e condução de carros cheios de potência constituem alguns dos momentos mais interessantes. A entrada no campo off-road proporciona alguma chama, especialmente pela facilidade com que colocamos um carro em derrapagem, entrando em curva contra curva. Grande parte do sistema de condução deriva do anterior NFS pelo que não terão qualquer dificuldade de adaptação, especialmente no asfalto. Os drifts são bastante acessíveis, sendo suficiente largar o acelerador e premir a mudança no volante para o carro deslizar suavemente. Em curvas mais apertadas como cotovelos ou "ganchos", apertar o botão do travão de mão é suficiente para colocar o carro em posição diagonal ao ponto de sair rápido do vértice, numa marcha de aceleração suficiente.

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O grau de personalização e tunning é muito apreciável, com opções para o motor e carroçaria.

Todos os carros conduzem-se muito bem, mas os melhores são os mais potentes e também os mais caros. É aqui que começa um dos problemas de Payback, já que os carros da nossa garagem são ao começo terrivelmente lentos e a subida de nível não só é demorada por nos obrigar a repetir as mesmas corridas como ainda temos que viajar constantemente entre pontos do mapa. Chega a ser angustiante chegarem a uma corrida e perceberem que o veículo ainda não possui as condições necessárias a fim de participar na prova. Existem kits de potência entre outras peças que melhoram o rendimento, mas essas peças terão que ser compradas ou desbloqueadas. É uma estrutura algo próxima do jogo de role play, cujo funcionamento requer uma rodagem imensa de quilómetros com a mesma máquina.

Percebe-se a progressão mais lenta como uma forma de apelas às pequenas microtransacções, através de cartas de velocidade ou caixas de prémios, com as quais conseguem uma subida mais eficaz do nível do carro. Sem igualarem o nível dos rivais é quase escusado participar numa corrida, voltada quase sempre para o insucesso. Mas até equilibrarem o bólide terão que palmilhar muito terreno e acumularem imensos km's, fazendo por vezes as mesmas corridas. Claro que existem formas diversas de ganharem mais dinheiro comprando mais depressa as peças que melhoram substancialmente a performance do carro. Passando em pontos de velocidade, conseguindo um salto ou atravessando spots de publicidade, gera a entrada de mais dinheiro em conta. E depois há toda uma gama de veículos à disposição, tanto de marcas europeias como norte-americanas e japonesas. O filão dos carros mais badalados está lá.

O grau de personalização é elevado. Não só ao nível da motorização, mas também no exterior, podem possível aplicar uma série de kits de alguns preparadores de renome e peças específicas, bolachas, espelhos e spoilers, mas para terem um carro de elevada performance bem ao vosso gosto terão que abrir os cordões à bolsa. Os resultados são muito interessantes, mas há que dizer que já na anterior versão de NFS grande parte deste nível de personalização encontrava-se contemplado, não sendo por isso nenhuma descoberta.

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A localização podia ser melhor, já que repete um tanto da edição anterior, apesar da transição entre dia e noite.

As modalidades ou provas de competição agregam-se em cinco grupos, um pouco à semelhança da edição anterior, que possibilitava diferentes géneros de condução. Aqui encontram as vulgares corridas e contra-relógios, lutando pelo tempo até chegarem à meta ou em circuito contra vários pilotos. Depois há as provas todo-o-terreno, claramente uma novidade importada pelo sucesso de Forza Horizon, as secções dedicadas ao drift e, por fim, as fugas à polícia. Muitas provas envolvem pesados confrontos e alguns abalroamentos. Os adversários aproximam-se com um indicador de resistência por cima, mostrando até que ponto são vulneráveis às vossas investidas. Não é difícil remover estes obstáculos, a dureza do nosso carro é suficiente para reduzir a chapa batida todos os rivais.

No que respeita a Fortune Valley, o extenso mapa que varre uma área gigantesca cobrindo uma imaginária Las Vegas e todo um deserto adjacente, há um extenso conjunto de ligações e vias rápidas, ao qual acrescem trilhos e percursos em terras batidas. Trata-se de uma área que abrange desde uma zona citadina até aeroportos e secções montanhosas, onde são frequentes percursos serpenteantes. É interessante a adição do ciclo dia-noite, uma superação face ao jogo anterior mas ainda assim insuficiente para causar mais impacto. As áreas tendem a repetir-se muito e é como se cenário e horizonte fossem sempre os mesmos. Não existem muitas áreas alternativas ou suplementares, sendo por isso menos evidentes os contrastes e mais presente uma paisagem árida quando circulamos fora de ambientes urbanos.

As funcionalidades para competição online estão mais uma vez presentes. Podem participar em corridas até oito jogadores, desfrutando de um vasto número de provas. Porém, até terem o jogo conectado à rede terão de aguardar algum tempo, sucedendo isso sempre que recomecem uma partida. Graficamente, Payback está muito na linha do anterior, mas há arestas por limar, sendo bem patentes alguns bugs e quebras de frame rate. Analisando à lupa alguns veículos descobre-se por vezes alguma falta de texturas, especialmente quando há uma aproximação. É ainda um pouco estranho não ter qualquer colisão com um veículo que circula do outro lado e vem ao nosso encontro, continuando a marcha como se tivéssemos passado por um fantasma. Adiante e a uma velocidade menor o carro bate noutro veículo e rodopia. As quebras de fotogramas por segundo acontecem, particularmente nas corridas com vários adversários ou jogadores. Não é uma experiência tão fluida como seria desejável e nem mesmo a adição da velocidade suplementar através do nitro promove a gratificação que esperávamos.

Findo este período de dois anos, dá a sensação de que o estúdio Ghost ainda não quis ou não foi capaz de se desvincular do registo marcado na edição anterior. Do ponto de vista da apresentação da história está melhor e revela-se bem mais interessante na forma como a apresenta e a contextualiza, ao jeito de sucessivas missões que mostram várias perspectivas do rumo dos acontecimentos, ligadas a diferentes estilos de condução. No entanto e depois disso é um jogo que revela notórias inconsistências, dando a sensação de ter perdido alguma da sua performance. Há momentos espectaculares, mas depois disso não sobra tanto de novo e as falhas gráficas acumulam-se ao ponto de prejudicarem a experiência. Por vezes parece querer recuperar e reerguer o melhor da série, mas como um carro que segue a alta velocidade, sai de pista e entra em pião por alguns períodos.

Need for Speed Payback - Análise Vítor Alexandre Em contramão. 2017-11-13T17:02:00+00:00 3 5
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