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The Evil Within 2 - Análise

Agarrado ao passado.

O jogo é como se estivesse dividido em duas partes. A primeira é a melhor e com mais momentos assustadores.

The Evil Within 2 tenta expandir o original com espaços mais abertos, mas ultimamente, acaba por se prejudicar e reduzir o terror.

Shinji Mikami, conhecido como o mestre dos Survival Horror, passou a tocha em The Evil Within 2. Depois de ocupar a cadeira de director no primeiro, todos esperavam que Mikami ocupasse o mesmo papel na sequela, mas em vez disso, John Johanas, responsável pelos conteúdos adicionais para o original, ficou com esse cargo. Quanto a Shinji Mikami, ainda esteve esteve envolvido na sequela, no papel de produtor executivo e de supervisor. Esta troca de posições nos bastidores de desenvolvimento resultou num jogo mais ocidental, com algumas "ideias novas", pelo menos no que diz respeito à série, mas em simultâneo demasiado agarrado ao passado e ao que se fez anteriormente.

Para todos os efeitos, The Evil Within é uma espécie de sequela espiritual de Resident Evil, que tenta recuperar aquilo que a Capcom perdeu, principalmente após Resident Evil 7, que renasceu numa perspectiva de primeira pessoa e abandonou a fórmula estabelecida por Resident Evil 4. Como um fã de longa data da série da Capcom, não consigo deixar de reparar nas semelhanças que The Evil Within 2 tem. Temos uma corporação malvada disposta a tudo para realizar os seus planos, pessoas que se transformam em monstros devoradores de carne humana e jogabilidade e mecânicas muito parecidas com o que a Capcom fez em Resident Evil 5 e Resident Evil 6, que eram uma evolução das bases estabelecidas em Resident Evil 4.

Portanto, não há dúvidas que The Evil Within 2 se apoia imenso no passado, mas será que consegue dar um salto para a frente? As novidades da sequela são uma estrutura menos linear, quase em mundo aberto, e um sistema de crafting expandido. Mas antes de mais, temos que abordar a história. The Evil Within 2 é uma sequela directa do primeiro, e se não o jogaram, poderão ficar à nora. Podem sempre ler um resumo do que aconteceu antes, mas convém saber algumas coisas antes de jogar a sequela, dado que jogo não perde tempo a explicar o que aconteceu no primeiro jogo (mas há pequenas referências e documentos de texto que vão aparecendo ao longo da história).

De forma breve, The Evil Within 2 é, tal como o original, um Survival Horror na terceira pessoa. Assumimos novamente a perspectiva do detective Sebastian Castellanos, que descobre que a sua filha Lily não morreu. Supostamente morta num incêndio, Lily está na realidade viva e a ser usada pela corporação Mobius num novo projecto Stem chamado The Union. A mente de Lily é o novo núcleo do Stem, embora não haja uma explicação satisfatória para isto. Aparentemente, Lily é a mente mais estável para acarretar a nova simulação, mas o porquê de Lily ser o núcleo mais estável não é explicado. Adiante, a simulação dá para o torto, mais uma vez, e a corporação Mobios pede a Castellanos, através de Kidman, para entrar no Stem e salvar o dia.

É uma história de recuperação e de redenção para Sebastian Castellanos, que depois dos acontecimentos do primeiro jogo, mergulhou no álcool e na desgraça. Saber que Lily está viva e que existe uma oportunidade de salvá-la é uma oportunidade para recomeçar a vida e recuperar a felicidade do passado. O problema é que, embora Sebastian Castellanos esteja desesperado para recuperar a sua filha, esse desespero não passa para quem está jogar. Raramente vemos Lily em perigo ou a sofrer, aliás, os momentos em que vemos Lily ao longo da história são muito raros. Não me entendam mal. Lily está, de facto, em perigo e poderá morrer na Stem, mas The Evil Within 2 faz um péssimo trabalho na dramatização.

A estrutura mais aberta permite mais exploração, e por isto entendam-se apanhar mais recursos para evoluirmos as habilidades da personagem e peças para melhorarmos o nosso arsenal, que vai ficando maior à medida que progridem. É outro dos problemas de The Evil Within 2. No início é um Survival Horror excelente, em que temos receio de nos mover e de sermos vistos pelas criaturas. Mas depois, quando ganhamos acesso a mais armas, o medo desaparece. É como se houvesse uma transformação gradual. Começa como um Survival Horror, mas acaba como um jogo de acção. Como um fã de Survival Horror, não é apenas isto que me desilude. A forma como a história está ligada (a transição entre vilões é brusca) é desleixada.

Mas acima de tudo, a sensação de familiaridade prejudica a experiência. Como estava a explicar inicialmente, The Evil Within apoia-se bastante em Resident Evil, principalmente na fórmula criada por Resident Evil 4, mas não traz nada de novo para o género e torna-se cansativo a meio pois parece que já jogamos tudo isto anteriormente. Não obstante, há bons momentos em que fiquei assustado e em que a atmosfera é arrepiante, o que é essencial num Survival Horror. Curiosamente, todos estes momentos pertencem a sequências lineares. Embora os níveis mais alargados permitam exploração e liberdade, não contribuem para uma intensificação da experiência. O mundo aberto até permite ignorar o terror, visto que podemos seguir por caminhos alternativos e evitar os inimigos.

"Podemos perder o tempo que quisermos a explorar e a juntar recursos, o que é um contra-senso."

A história é vendida como uma corrida contra o tempo, em que Sebastian Castellanos tem que salvar a filha antes que a simulação da Stem desabe de vez. Contudo, a estrutura do jogo não está em concordância. Podemos perder o tempo que quisermos a explorar e a juntar recursos, o que é um contra-senso. Nem sempre tudo faz sentido nos videojogos, e até me podem acusar de ser picuinhas, mas neste caso, estamos perante um Survival Horror em que o desespero vai desaparecendo precisamente devido áreas abertas, já para não falar que, quando estamos em apuros, podemos entrar dentro das casas e ficar em segurança enquanto o monstro fica à porta a fazer figuras tristes (seria bem mais assustador se conseguisse deitar a porta abaixo).

Não diria que The Evil Within 2 é uma sequela desnecessária, mas a verdade é que está mal pensada. A vontade de melhorar perante o original, e de se calhar ir ao encontro da tendência da indústria de tornar tudo mundo aberto (o que não é benéfico para todos os géneros), foi colocada nos aspectos errados, já para não falar que o jogo aproveita a fórmula de Resident Evil 4 e não consegue superá-lo, pelo contrário. Não é um jogo horrível e tem momentos genuínos de terror (a primeira parte é de longe a melhor, já a segunda nem por isso), mas não se consegue destacar no género e não faz nada de surpreendente.

The Evil Within 2 - Análise Jorge Loureiro Agarrado ao passado. 2017-11-03T15:28:00+00:00 3 5
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